Questionada pelo MP sobre evento com editora suspeita, Unicamp abre sindicância

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MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Promotoria deu prazo de 90 dias para universidade concluir apuração que se recusava a fazer sobre conferência em parceria com publisher ‘predatório’ chinês.

MAURÍCIO TUFFANI
Editor

Durante oito meses a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) tentou justificar para o Ministério Público paulista a organização de uma conferência realizada em seu próprio campus em 2014, em parceria com uma editora chinesa acusada de violar padrões de qualidade não só em publicações científicas, mas também em eventos acadêmicos. Em fevereiro, a universidade respondeu que decidira instaurar uma sindicância para apurar o caso.  Ao receber essa resposta, a Promotoria do Patrimônio Público de Campinas fixou prazo de 90 dias para a conclusão da apuração.

Com base em parecer de sua procuradoria jurídica, desde novembro de 2014 a reitoria da Unicamp vinha alegando que “não é possível vislumbrar a necessidade de instauração de sindicância administrativa” sobre a 3ª ICCEA (Conferência Internacional de Engenharia Civil e Arquitetura).  Realizado em 30 de julho e 1º de agosto de 2014, o evento foi o terceiro de uma série anual criada pela IACSIT (International Association of Computer Science and Information Technology), editora acadêmica que anuncia ser sediada em Singapura, mas tem suas operações realizadas na China.

Antes da realização da 3ª ICCEA, a reputação da IACSIT fora do Brasil já havia despertado a preocupação de alguns professores da FEC (Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo).  Essa unidade da Unicamp articulou a parceria com a editora, que desde 2012 é apontada na famosa lista de “publishers predatórios” do blog Scholarly Open Access, do biblioteconomista Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado em Denver. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos em acesso livre na internet.

Além de ser considerada “predatória”, a IACSIT é apontada também em diversos sites de instituições acadêmicas e em blogs de pesquisadores em outros países como realizadora de eventos científicos mal organizados. Em 2012 a editora teve eventos descredenciados por parte do IEEE (Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos), fundado em 1884 nos EUA.

Descaracterização

Ao publicar os trabalhos apresentados à 3ª ICCEA, a IACSIT não os reuniu em uma mesma publicação, mas em diferentes edições de seu periódico IJET (International Journal of Engineering and Technology). Além dessa pulverização, os papers não contêm nenhuma referência do evento em que foram apresentados.

Para piorar, pelo menos 31 dos trabalhos apresentados na 3ª ICCEA foram publicados em agosto de 2014, mas em edições “pré-datadas” de julho a dezembro de 2015 do periódico da IACSIT. Essa descaracterização permitiu a pelo menos 30 autores cadastrar seus papers como “Artigos completos publicados em periódicos” em seus currículos Lattes — classificação cujo peso é maior que o de “Trabalhos completos publicados em anais de eventos” em concursos públicos e em avaliações acadêmicas para promoções ou concessões de bolsas e financiamentos.

Esses fatos já haviam sido reportados por este jornalista na reportagem “Cientistas ‘turbinam’ trabalhos apresentados em evento da Unicamp”, publicada na Folha de S.Paulo em 19 de março de 2015. O jornal comentou duramente o assunto quatro dias depois em seu editorial “Ciência em revista” (23/3/2015).

Sem esclarecer quanto gastou com o evento, a Unicamp, em resposta a essa reportagem, afirmou em nota que 14 professores da FEC fizeram parte da comissão científica do evento, formada por 41 pesquisadores. A universidade não informou, no entanto, se o grupo sabia de alguma das diversas informações negativas sobre a IACSIT na internet.

Sumiços

Em que pese o seu empenho que a levou a ser a única universidade em todo o mundo a organizar uma ICCEA, esse evento em parceria com a IACSIT não desapareceu apenas das referências dos trabalhos publicados dispersamente por essa editora. A série de conferências também sumiu antes mesmo de outubro de 2015, quando deveria ter sido realizada a 4ª ICCEA na Tailândia. O próprio site oficial da ICCEA agora está inativo e não dá mais informações sobre o evento.

Para tornar tudo ainda mais esquisito, a própria IACSIT não indica mais a série anual de conferências ICCEA em sua página de eventos nem possui mais em sua  lista de publicações o periódico IJET, que ficou sem editor-chefe durante pelo menos dez meses após este jornalista ter constatado que o engenheiro paquistanês então titular do cargo se apresentava indevidamente como professor de uma universidade dos EUA (“Apertem os cintos, o editor sumiu!, blog Maurício Tuffani, Folha de S.Paulo, 21/3/2015).

“Falta de evidências”

A ação do MP teve início a partir de uma representação encaminhada em junho de 2015 por Vinicius Arcaro, professor da FEC. Em setembro do ano anterior, cerca de um mês após a realização da 3ª ICCEA, ele havia solicitado à reitoria da Unicamp a abertura de uma sindicância para apurar responsabilidades. Dois meses depois, veio o parecer da procuradoria da universidade, baseado em informações da própria FEC, alegando não haver evidências para justificar a apuração.

Arcaro está em período sabático na Universidade Estadual de Ohio, em Columbus, nos EUA. Procurado por telefone por Direto da Ciência, ele disse preferir não se manifestar sobre o assunto, uma vez que ainda não foram concluídos os trabalhos da sindicância nem da promotora de Justiça Cristiane Hillal, responsável pelo caso. Arcaro apenas confirmou já ter prestado depoimento por meio do Skype à comissão de sindicância, sem fornecer mais detalhes.

As informações deste texto sobre a atuação da Promotoria do Patrimônio Público de Campinas foram prestadas pela assessoria de comunicação do Ministério Público do Estado de São Paulo. A Unicamp, a editora IACSIT e o periódico IJET não responderam às perguntas encaminhadas por e-mail no dia 24 e reiteradas ontem.


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