Na Itália, ‘pílula do câncer’ tem adeptos após duas décadas de fracassos em testes

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Hoje, 1º de abril, faz exatamente 18 anos que o Parlamento italiano aprovou uma lei autorizando o médico e fisiologista Luigi di Bella (1912-2003), professor da Universidade de Modena, a testar um tratamento supostamente capaz de combater tumores sem os efeitos colaterais da quimioterapia e da radioterapia. Desde então, passados sucessivos exames com resultados negativos, esse método ainda sobrevive na esperança de muitas pessoas.

Diferentemente do Congresso Nacional brasileiro, que na semana passada autorizou a produção, a distribuição, a prescrição e o uso da fosfoetanolamina, independentemente de registro sanitário, os parlamentares italianos só autorizaram Di Bella a aplicar exerimentamente seu tratamento sob a condição de seus pacientes permitirem ao Ministério da Saúde usar em pesquisas os registros clínicos e de exames (“Itália aprova lei que autoriza terapia controversa do câncer”, Folha de S.Paulo, 2/2/1998).

O chamado “coquetel Di Bella” é uma mistura de medicamentos, como a somatostatina (inibidor do hormônio do crescimento), a melatonina (hormônio que regula os ciclos do sono) e outros fármacos, complementada por ervas e vitaminas, com doses específicas de acordo com cada paciente.

O criador do tratamento não esperou as conclusões das primeiras pesquisas para levar adiante seu trabalho de divulgação. Na verdade, quando os dados preliminares começaram a indicar resultados desfavoráveis, ele viajou para diversos países, inclusive para o Brasil.

“La cura definitiva”

Ainda hoje lembro do início da noite daquela terça-feira, 26 de maio de 1998, quando uma colega minha da redação da Folha veio me perguntar se o jornal noticiaria no dia seguinte a presença de Di Bella no Brasil. Ela ficou decepcionada quando eu lhe disse que já estava fechado um pequeno texto sobre o assunto, registrando que o criador da suposta terapia não havia fornecido números nem outros dados clínicos para esclarecimentos sobre os resultados de seu método (“Italiano traz ao Brasil terapia controversa”, Folha, 27/5/1998).

Logo em seguida, Di Bella apareceu num telejornal, dizendo a repórteres que seu método era “a cura definitiva dos tumores”. Após eu comentar que fazer esse tipo de afirmação não é um procedimento de quem pesquisa com seriedade, percebi que o assunto estava mexendo muito com minha colega.  Perguntei o que acontecia, e ela me explicou que sua mãe estava muito mal devido a um câncer de mama.

Nos dias seguintes constatei que a cobertura jornalística dessa história estava se restringindo ao básico: mostrar o que Di Bella e seus aliados afirmavam sobre sua suposta terapia e também o que diziam cientistas contrários ao esse tratamento. Na sequência desse “meio a meio”, crescia na Itália a comoção popular pela imediata liberação do tratamento.

Eu era responsável pela cobertura de ciência do jornal. Entrei em contato com o jornalista Giancarlo Summa, hoje diretor da Unic-Rio (Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil), que morava em Roma, e pedi para ele um levantamento das informações então disponíveis sobre o caso. O resultado foi a reportagem “Imune a provas”, publicada em 19 de abril, na qual, além de informar que Di Bella “nunca apresentou os estudos de casos de seus alegados êxitos”, Summa afirmou o seguinte.

A mídia toda deu — e continua dando — grande espaço às declarações de Di Bella, que acusa o governo italiano e a classe médica de “sabotar” sua terapia para favorecer os “interesses das grandes indústrias farmacêuticas”. Nessa “cruzada”, Di Bella recebeu o explícito apoio político da Aliança Nacional, o partido neofascista.

Farsa revelada

Dois meses depois da aprovação dos testes pelo Parlamento italiano, Eva Buiati, epidemiologista encarregada pelo governo de analisar os arquivos de Di Bella, constatou que os registros do próprio médico negavam os resultados positivos que ele vinha anunciando. Os dados eram de 3.076 pacientes de 1971 até junho de 1997, segundo a reportagem “Estudo nega sucesso de terapia de câncer” (Folha, 10/7/1998), da jornalista Adriana Niemeyer, da qual vale a pena destacar seguinte trecho.

“Mais da metade dos casos não eram de tumores”, disse Buiati em entrevista à Folha. “Apenas cerca de 600 desses casos realmente podiam ser avaliados.”
Segundo Buiati, de cada 5 pacientes submetidos ao método de Di Bella, 4 morreram.
Na média nacional italiana, 1 em cada 3 doentes consegue se restabelecer com os tratamentos tradicionais. “Parece que esta não é realmente a cura para o câncer”, disse a médica.

Apesar da revelação da farsa e da divulgação de um relatório preliminar no mês seguinte com resultados que negaram eficácia da terapia, uma pesquisa encomendada pelo jornal La Repubblica mostrou que 2 de cada 3 italianos continuavam acreditando em Di Bella (Adriana Niemeyer, “Italianos rejeitam parecer oficial e confiam no método Di Bella”, Folha, 5/8/1998).

No final das contas, vários exames foram realizados desde então, trazendo resultados desfavoráveis para o método proposto por Di Bella, que continua sendo aplicado por seus filhos sem efeitos colaterais indesejáveis, mas também sem os resultados clínicos esperados, como bem demonstrou o médico Salvo Di Grazia em seu blog Medbunker com o post “Dossiê Di Bella”, cuja leitura recomendo.

Na esperança de que esta sexta-feira, 1º de abril, não nos traga uma piada de mau gosto na forma da sanção presidencial da “lei da fosfo” aprovada no Congresso, lembrar dessa história italiana ou conhecê-la pode ser um bom exercício. Não só para criticar nosso Legislativo, mas também para avaliar como nossa imprensa cuidou do caso. É preciso valorizar iniciativas como a da Folha, com seu seminário O Futuro do Combate ao Câncer, mas também é necessário criticar a cobertura jornalística irresponsável em assuntos controversos.


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9 Comentários

  1. Marcelo said:

    Interessante que os “isentos” sempre ressaltam que a toda poderosa Anvisa não autorizou o uso da Fosfo. Esquecem que dezenas de medicamentos caríssimos, vindos todos do exterior, não são aprovados pela Anvisa, mas adquiridos pelo governo para tratamentos de várias doenças. Talvez o fator preço influencie essa boa vontade da Anvisa em não barrar a comercialização deles aqui. Entre esses medicamentos, há um que usa fosfo. O nome é CAELIX. Nesse caso não há problemas com a fosfo não é mesmo?

  2. Mauro Augusto Demarzo said:

    Faço minhas as palavras de Antonio Donato Nobre: “Se um principio ativo, ou mesmo um nutriente, estimula e supre deficiências do sistema imunológico, este pode ter zero efeito direto (não é veneno) sobre células tumorais, e ainda assim ser anti-cancerígeno, já que as células patrulheiras do sistema imune são as que forçam as células tumorais a cometer apoptose”. É esse o efeito. Deveríamos levantar uma estátua ao Dr.Gilberto Chierice, e não, processá-lo, como querem alguns, acusando-o de charlatanice. Ex-professor de “Planejamento Estatístico de Experimentos”, da FEC-UNICAMP e ex-membro do Comitê de Ética na Pesquisa Médica, da FEM-UNICAMP, entendo que, como não existe ainda um tratamento efetivo em muitos casos de câncer, e a morte é inevitável, a maneira de pensarmos em efeitos colaterais deve ter outro enfoque. Para exemplificar, imagine náufragos em alto-mar, prestes a morrer, e encontram barcos infláveis que lhe podem dar alguma sobrevida. Então chega a patrulha informando que não tem como recolhe-lhos naquele momento, mas proibindo-os de usar os barcos infláveis pois poderiam furar e matar seus ocupantes. Oras bolas, morrer já vão mesmo. Não é hora de preciosismos. Morando atualmente em São Carlos, sou testemunha muitos casos de pessoas que vinham mantendo o seu câncer controlado e que pioraram muito após o impedimento ao acesso da pílula: São Carlos, Araraquara, Bauru, Franca, e muitas outras cidades do país que aqui aportavam e aportam atrás da pilula. É o caso do sogro de minha filha, de Bauru, da sogra de meu irmão, em Araraquara, de colega de São Carlos, de criança de Matão, da filha da dona de restaurante em Franca… A pesquisa médica é essencial, e os cuidados com a saúde humana são essenciais também, mas o bom-senso deve prevalecer, quando décadas de utilização em seres humanos tem provado o significativo efeito benéfico do medicamento. Só quem tem câncer sabe o que é lhe tirar um fio de esperança… quem não tem câncer, enxerga alguns anos de pesquisa prévia como necessários… quem tem câncer, não tem tempo a perder…

    • Maurício Tuffani said:

      Boa noite, professor Mauro Demarzo.

      Obrigado por sua participação.

      Primeiramente, esclareço que em nenhum momento eu cheguei a esboçar qualquer consideração sobre o criador da fosfoetanolamina ou sobre a eficácia ou ineficácia desse composto. Nem no texto acima nem em meu post “A ‘pílula do câncer”, a democracia e a demagogia” (23/3), em meu blog anterior na Folha. Meu protesto nos dois textos foi contra a forma como o Legislativo tratou do assunto.

      Em segundo lugar, creio que a polêmica em torno da fosfoetanolamina não se limita a situações terminais, como a descrita em seu comentário (quando “a morte é inevitável, a maneira de pensarmos em efeitos colaterais deve ter outro enfoque”). Nos últimos anos estive por períodos mais ou menos longos em hospitais acompanhando minha mãe, falecida recentemente, em tratamentos de dferentes tipos de câncer. No ano passado cheguei a “morar” pouco mais de três meses em hospital acompanhando-a. E constatei pessoalmente médicos não se apegarem à ortodoxia em situações terminais de vários pacientes. O ponto principal da polêmica se refere a tratamentos em fases anteriores a essa.

      Saudações,

      Maurício Tuffani

  3. Emerson de Paula said:

    Caro Antonino, tenho tendência a pensar de mesma forma, principalmente no que diz respeito a medicamentos que não são de propriedade de grandes laboratórios, os testes que aplicaram in vitro com a fosfo é valido mas não conclusivos, certas substâncias tem reações diversas no in vitro e quando passa pelo trato do organismo humano, caso como o da vitamina D que quanto passa pelos órgãos como rins e figados se transforma.
    Creio que sim, estamos em um rumo certo.

  4. Stefano Neto said:

    O que está para ser sancionado pela presidente é apenas o uso compassivo, ou seja, o direito justíssimo do paciente que não tem outra opçao de utilizar uma substância sem eficácia compravada.

  5. Roxana Tabakman said:

    Post Excelente e necessário, um exemplo da como se faz jornalismo científico de qualidade

  6. Antonio Donato Nobre said:

    Caro Mauricio,
    Dois pontos a considerar: o método científico é uma cultura evoluída para o teste estendido de conhecimentos, mas não creio qualificar como panaceia para saciar toda a fome de consciência da cognição humana. Muito ao contrario, o ceticismo militante -componente comportamental quase indissociável hoje do método-, tem o mesmo efeito contra ideias originais quanto alguns quimioterápicos tem contra o câncer. 500 anos atrás, quando desenvolver e praticar o conhecimento livre e objetivo poderia te carbonizar em uma fogueira em praça publica, tal ceticismo era um útil escudo de proteção. Hoje, a meu ver, tornou-se dogma. Um exemplo forte que ilustra essa situação podemos constatar na historia do anuncio da descoberta da fusão fria em 1989. Os autores da pesquisa em eletroquímica Fleischmann & Pons, foram execrados como agora fazem com o professor da USP por trás da fosfoetanolamina. Por muito tempo fusão fria tornou-se um mantra que simbolizava ao mesmo tempo incompetência e fraude em ciência. Durante esse tempo, nenhum pesquisador serio trabalhando no tema vinham a publico falar sobre o tema, e os resultados eram praticamente impublicáveis, tamanho o estigma colocado pela campanha de difamação sobre o tema. Nenhuma surpresa portanto que o evento na Folha não tenha tido nenhum defensor da fosfo. Mudaram o nome, chama-se agora reações nucleares de baixa energia, e ninguém lembra dos descobridores originais cujas carreiras terminaram em desgraça. O efeito existia desde sempre, mas a descoberta contrariava um lobby poderoso dos pesquisadores e universidades envolvidas com o multibilionário desenvolvimento da fusão a quente em reatores toroidais. O resto é historia, uma similar em termos éticos a que começa a ser revelada agora sobre a Exxon e seu papel sujo na negação das mudanças climáticas globais. Os primeiros resultados de testes com a fosfoetanolamina, se li bem as noticias que os reportam, indicam que as pílulas da USP não contem pura fosfoetanolamina (nenhum medicamente contem principio ativo em sua forma purificada), e que essas substancias não parecem ter efeito direto na morte das células cancerígenas de tecidos cultivados in vitro, e, por fim, que não encontraram substancias nas pílulas com toxicidade mensurável. Somente isso. Como destes parcos resultados iniciais vemos coberturas jornalísticas, e mesmo reações acadêmicas, demonizando o autor? Não compreendo. Se um principio ativo, ou mesmo um nutriente, estimula e supre deficiências do sistema imunológico, este pode ter zero efeito direto (não é veneno) sobre células tumorais, e ainda assim ser anti-cancerígeno, já que as células patrulheiras do sistema imune são as que forçam as células tumorais a cometer apoptose. Em conclusão, ainda é cedo para termos um julgamento completo e competente dos efeitos destas pílulas sobre câncer “em pessoas”, sistemas bem mais complexos que tumores in vitro. Mas os testes clínicos deverão elucidar muita coisa. A questão de base aqui, se queremos ser intelectualmente honestos, é permitir que as evidencias falem à frente das restrições de métodos e dogmas. Especialmente quando o que está em jogo, além da vida e bem estar das pessoas, seja, novamente, interesses bilionários da indústria farmacêutica e sua enorme capacidade de deformar a matriz do espaço-tempo na ética e abrangência da pesquisa científica na área.

    • Maurício Tuffani said:

      Caro Antonio,
      Primeiramente, em nenhum momento eu cheguei a esboçar qualquer consideração sobre o criador da fosfoetanolamina ou sobre a eficácia ou ineficácia desse composto. Nem no texto acima nem em meu post “A ‘pílula do câncer”, a democracia e a demagogia”, em meu blog anterior na “Folha”. Meu protesto nos dois textos foi contra a forma como o Legislativo tratou do assunto.
      Em segundo lugar, acho que você está enganado com relação ao caso Pons & Fleischman em 1989. Eles não foram execrados por terem proposto um método para a fusão fria, mas por terem apresentado a descrição de um experimento que ninguém conseguiu reproduzir, exceto alguns poucos, inclusive no Brasil, que simplesmente fizeram a mesma montagem sem conseguirem demonstrar terem obtido fusão. Sem falar na agravante de terem anunciado seu trabalho para a imprensa (“The Wall Street Journal” e “Financial Times”) antes da conclusão do peer review pela “Nature”. Não menosprezo em hipótese alguma que interesses econômicos atropelem e distorçam linhas de pesquisa, mas duvido que eles seriam capazes de controlar todos os pesquisadores na área de eletroquímica do mundo de modo a impedir que um método tão simples viesse a ser comprovado se fosse realmente capaz de funcionar.
      Quanto à fosfoetanolamina, o que você chama de “parcos resultados iniciais” de fato não permitem uma conclusão negativa definitiva, da mesma forma que não permitem nem sequer uma conclusão positiva preliminar. De minha parte, isso é mais do que suficiente para que o Congresso não tivesse feito o que fez.
      No caso de meu texto de hoje, comentei uma suposta terapia cuja eficácia foi negada não só por experimentos realizados desde 1998, mas também por registros clínicos de pacientes anteriores que o próprio autor guardava. Ou seja, tudo não passou de uma farsa. A explicação dele e, desde sua morte de seus dois filhos? Os interesses multibilionários da indústria farmacêutica. Tenho certeza e que esses interesses sejam realmente atuantes, da mesma forma que tenho certeza de que seus beneficiários devem gostar muito de serem apontados por teorias conspiracionistas na direção errada.
      Seja como for, agradeço sinceramente por sua visita e por sua participação.
      Abraço!

  7. Roberto said:

    Caro Maurício,
    Considero que o grande problema reside na total ignorância geral sobre como medicamentos funcionam, são avaliados e podem ser utilizados. Isso vale para a população em geral, para políticos e legisladores. Com isso, os cientistas e pesquisadores, os órgãos de regulação e a mídia responsável se tornam reféns desta ignorância. O resultado é o que se observa com relação à “fosfo”. O estrago que este tal de Gilberto Chierice causou foi extremamente prejudicial para todos. A USP o está processando judicialmente. Esperemos que a justiça seja imparcial e exemplar neste caso, que é de extrema importância para não piorar a situação de tratamentos de câncer e para o futuro da pesquisa de fármacos no Brasil.

Comentários encerrados.

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