Imprensa questiona ‘fim da crise hídrica’, mas divulga índices distorcidos da Sabesp

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

A divulgação desinformativa de índices da Sabesp, estatal de abastecimento de água do governo paulista, vem fazendo vítimas, inclusive na chamada grande imprensa e também, por extensão, entre seus leitores. Ontem (domingo, 3/abr) foi a vez do jornal O Globo, com o editorial “Alívio momentâneo não tira escassez de água da agenda”. O texto destacou com muita propriedade a visão de curto prazo e outros aspectos deletérios da gestão pública de recursos hídricos, mas derrapou feio na seguinte afirmação.

Em São Paulo, o Sistema Cantareira chegou ao último dia do mês passado com chuva acima da média, nível de água em ascensão e 65,4% da capacidade, segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).

Na verdade, em sua página “Situação dos Mananciais”, a empresa de abastecimento do governo de São Paulo divulga diariamente não um, mas três indicadores para uma única realidade: o armazenamento de água desse sistema de reservatórios que abastece mais da metade da população da região metropolitana de São Paulo. É verdade. Está no gráfico acima.

Ao mencionar os 65,4%, o editorial de O Globo usou o chamado Índice 1, uma distorção aritmética deseducativa “inventada” pela Sabesp. Mas o armazenamento corresponde a 36,1% sem esse artifício que passou a ser usado a partir de 16 de maio de 2014, quando o governador Geraldo Alckmin (PSDB) inaugurou as instalações de bombeamento do chamado volume morto do Cantareira.

Graças a essa pirotecnia aritmética em pleno ano eleitoral, com o governador de São Paulo então candidato à reeleição, também foram “bombeados” para cima os percentuais de armazenamento de água, fazendo a ação governamental parecer mais eficaz.

 

O “método”

A aberração matemática do Índice 1 consiste em obter um percentual por meio de uma fração de cálculo que tem no denominador somente o volume útil total regular do sistema Cantareira — ou seja, sem considerar a chamada reserva técnica ou volume morto —, mas tem no numerador toda a água armazenada, inclusive a do volume morto.

Para quem ainda não percebeu o desatino lógico de tal “método”, basta pensar o seguinte: se o armazenamento desse conjunto de reservatórios estiver no máximo de sua capacidade — o que já aconteceu em 2010 —, o Índice 1 correspondente não será de 100%, nem de uma pequena variação para mais. Será o absurdo percentual de 129,3%, pois na parte superior da fração de cálculo haverá pelo menos 1,27 trilhão de litros de água, enquanto na inferior estará apenas o volume útil de 982 bilhões de litros.

 

Correção coercitiva

O Índice 2 do sistema Cantareira, por sua vez, não se baseia nessa ridícula distorção aritmética do anterior. Sua fração de cálculo usa no denominador todo o armazenamento, inclusive o volume morto. E no denominador usa a capacidade total do sistema, que inclui essa mesma reserva. Desse modo, se o sistema encher completamente, esse indicador corresponderá a um percentual de 100%, ou com alguma pequena variação devida, por exemplo, ao transbordamento.

A Sabesp começou a divulgar o Índice 2 em 16 de março de 2015. E só o fez porque havia sido questionada no mês anterior pelo Ministério Público do Estado de São Paulo. O promotor de Justiça Ricardo Manuel Castro, do Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente, havia interpelado a companhia não só pela distorção do indicador que ela vinha divulgando, mas também por ele ser prejudicial para a conscientização e a mobilização da sociedade naquele momento mais grave da crise hídrica.

Mas, apesar de não envolver o desatino aritmético do indicador anterior, o Índice 2 não mostrava naquela situação — que era ainda mais crítica do que a atual — o nível do comprometimento do sistema pelo uso do volume morto. Foi o que explicou o o engenheiro hidráulico Antonio Carlos Zuffo, professor da Unicamp, para meu blog anterior, na Folha (“Índices do Cantareira desinformam população, dizem pesquisadores”, 25/fev/2015).

“Essa forma que está sendo empregada para informar à sociedade o armazenamento do Cantareira equivale a um extrato bancário que não mostra o saldo devedor de uma conta corrente que está negativa no cheque especial.”

Por essa razão, o promotor moveu contra a Sabesp uma ação civil pública com pedido de liminar, que foi concedida pelo juiz Evandro Carlos de Oliveira, da 7ª Vara da Fazenda Pública do Estado. A decisão obrigou a companhia a acrescentar à sua divulgação diária indicadores de armazenamento do sistema Cantareira calculados somente com base no volume útil regular.

Somente assim, “na marra”, a Sabesp passou a divulgar a partir de 16 de abril do ano passado o Índice 3. Como o volume útil estava zerado e o volume morto já estava diminuindo, os cálculos diários desse indicador resultaram em percentuais negativos. E eles só passaram a ser positivos na última virada de ano, quando as chuvas recompuseram o volume morto do sistema, como mostra o gráfico abaixo.

Indices-1-e-3_Sistema-Cantareira

Alastramento

A aceitação passiva do desajuizado Índice 1 para o armazenamento do Cantareira tem acontecido desde maio de 2014 com praticamente toda a imprensa. Inclusive recentemente com veículos que, assim como o jornal carioca, criticaram a retórica do governo paulista minimizadora da crise hídrica.

Na semana passada, O Globo, Estadão, G1, R7 e outros veículos alastraram praticamente em coro o percentual de 65,4% ao copiar e colar esse dado de um comunicado oficial divulgado pela Sabesp na véspera. Alguns chegaram a citar também o Índice 3, mas interpretaram erroneamente o de número 1, como se este computasse de forma correta o volume morto e não perpetrasse a aberração matemática acima explicada.

Menos mal tem feito a Folha, que tem desconsiderado o Índice 1 e divulgado em seus textos e infográficos o Índice 2, sempre com a ressalva do cômputo do volume morto em seu cálculo e com a indicação do terceiro indicador. No entanto, apesar de não se envolver com a aberração aritmética do Índice 1, entendo que esse jornal erra por usar o indicador de número 2 (“Represas de SP iniciam período seco com 20% abaixo da média histórica”, 1/abr/2016).

Em primeiro lugar, como já foi dito acima, o Índice 2 considera o volume morto. Mas a disponibilização dessa reserva emergencial para a Sabesp não está mais autorizada desde 8 de março, conforme determinou a resolução conjunta da ANA (Agência Nacional de Águas) e do DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo) publicada nessa data.

Em segundo lugar, considerar esse “limite de cheque especial” como saldo positivo da Grande São Paulo implica menosprezar todo o restante da bacia do PCJ (rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí). Ela abrange reservatórios não só das cidades abastecidas pelo sistema Cantareira, mas também de um total de 76 municípios, entre eles os das regiões de Campinas, Limeira, Piracicaba, Jundiaí e do sul de Minas Gerais.

 

Impactos ambientais

Independentemente desse inter-relacionamento no âmbito do PCJ e da resolução que desautorizou o uso do volume morto, é prejudicial para a informação e a conscientização da sociedade divulgar um indicador que considera como um mero dado numérico um recurso utilizável somente em situação excepcional e extremamente crítica. Usar essa reserva implica altos impactos não só ambientais, mas também econômicos e sociais — e basta lembrar das imagens desoladoras do entorno dos reservatórios, situado em uma região que envolve importantes remanescentes de Mata Atlântica.

Apesar de todas essas impropriedades, quase toda a imprensa, especialmente a paulista, tem reproduzido acriticamente os chamados índices 1 e 2, que sempre implicam percentuais maiores. E que agora são convenientes para a retórica do governo Alckmin disseminadora do “fim da crise hídrica”.

Não foi por falta de avisos. Tenho apontado insistentemente essa pirotecnia desde o início da captação do volume morto em meu blog na Folha, inclusive nas duas últimas postagens antes de minha despedida (“O ‘fim da crise hídrica’ e a pirotecnia de Alckmin”, de 8/mar, e “Sabesp ainda calcula nível do Cantareira com volume morto proibido”, de 9/mar).

E não fui o único nem o primeiro a alertar para essa distorção. O biólogo Fernando Reinach, colunista do Estadão, já havia mostrado que uma outra manipulação de dados de armazenamento do Cantareira ocorrera muito antes, em 2004 (“Ressuscitando morto com caneta”, 10/mai/2014). E ele voltou à carga logo no dia seguinte ao evento de inauguração do bombeamento do volume morto presidido por Alckmin (“Água diminui, represa sobe”, 16/mai/2014).

Mas nem tudo está perdido. Quase sempre “privilegiados” nas acusações de manipulação por parte da mídia, os telejornais da TV Globo têm preferido o correto Índice 3, que na verdade nem deveria ter nenhum dígito rotulador. Afinal, esse sempre foi, antes de toda essa patacoada, o único indicador a ser calculado e divulgado. Não foram poucas as vezes em que a repórter Maria Júlia Coutinho anunciou percentuais com base nesse índice e disse que os outros escondiam o “limite de cheque especial”. Parabéns, Maju!

Tirando agora o foco da imprensa, lembro que o presidente da Sabesp, o engenheiro Jerson Kelman, é mestre pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Ph.D. em hidrologia e recursos hídricos pela Universidade Estadual do Colorado e coleciona vários títulos acadêmicos. E que o secretário estadual de Saneamento e Recursos Hídricos, o engenheiro Benedito Braga, tem dois mestrados, um na USP e outro na Universidade Stanford, onde ele também se tornou Ph.D. em recursos hídricos. E é autor de 25 livros e de mais de 200 artigos científicos.

Até entendo, sem concordar, que esses dois especialistas possam ter suas razões políticas para tolerar o “cheque especial” do Índice 2. Mas como podem eles conviver com a aberração aritmética do Índice 1?


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3 Comentários

  1. Antonio Maciel said:

    Prezado Jornalista Maurício Tuffani,
    Parabéns por sua argumentação correta e consistente sobre o “desatino lógico”, a “aberração matemática”, e a “pirotecnia aritmética em pleno ano eleitoral” do “desajuizado Índice 1” da Sabesp para o armazenamento do Sistema Cantareira. Sua explicação é tão clara que me permite concluir que no dia em que anunciou o “fim da crise hídrica”, o Governador Geraldo Alckmin se baseou nessa mesma pirotecnia aritmética usada no ano eleitoral, como mostra a seguinte declaração dele registrada pelo jornal “O Estado de São Paulo” no dia 8 de março.
    “’A questão da água está resolvida, porque nós já estamos chegando a quase 60% do Cantareira e 40% do Alto Tietê. Isso é água para quatro, cinco anos de seca’, afirmou Alckmin durante palestra na Associação Comercial de São Paulo, no centro da capital paulista.”
    Em outras palavras, a afirmação do Chefe do Executivo Bandeirante não foi verdadeira. Essa informação teria sido muito interessante em seu artigo.
    Boa noite.

    • Maurício Tuffani said:

      Boa noite, Antonio Maciel.

      Sua conclusão é correta. Essa declaração do governador Alckmin a que você se refere havia sido registrada pelo Estadão já no próprio dia 7, no mesmo dia em que ele a fez. Ela foi mostrada na versão preliminar e on-line da “Alckmin diz que ‘questão da água está resolvida”, publicada naquele dia às 16h33.

      E você tem razão ao afirmar que teria sido interessante eu ter aproveitado essa declaração no meu artigo acima. Realmente deixei passar que essa declaração do governador Geraldo Alckmin não correspondeu à verdade dos fatos.

      Na verdade, eu deveria ter aproveitado essa afirmação do governador já em meu artigo “O ‘fim da crise hídrica’ e a pirotecnia de Alckmin” (8/3), em meu blog anterior, na Folha.

      Obrigado pela observação.

      Saudações,

      Maurício Tuffani

  2. Pingback: SOPA DE NÚMEROS, DILUÍDA NO “VOLUME MORTO” DA SABESP | Dazibao Mural Eletrônico

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