Diretores de faculdades jesuítas nos EUA fazem alerta contra periódicos predatórios

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

No ano passado, nos Estados Unidos, os diretores das faculdades jesuítas de economia e negócios emitiram um alerta público contra as revistas acadêmicas predatórias — aquelas cujo fator decisivo para publicar artigos não é sua aprovação após um processo de revisão por especialistas, mas o pagamento de uma taxa. Enquanto isso, no Brasil, as instituições de ensino superior não se manifestam sobre esse problema que vem corrompendo a pesquisa científica em todo o mundo.

A “Resolução sobre periódicos predatórios” foi aprovada em outubro do ano no campus da Universidade Xavier, em Cincinnati, no estado de Ohio, durante o encontro anual dos “Business Deans” da AJCU (Associação de Faculdades e Universidades Jesuítas), entidade que reúne 28 instituições de ensino superior dos EUA. Entre as principais afirmações dos diretores das faculdades de economia e negócios, destaca-se no documento a seguinte.

Opomo-nos às práticas inescrupulosas com a promessa de rápida aceitação e publicação em troca de pagamentos financeiros, que atraem pesquisadores ao submeter trabalhos. (…) Nós, portanto, incentivamos todos os estudiosos a evitar a publicação de suas pesquisas em periódicos predatórios e a citar artigos veiculados por eles.

A reunião aconteceu de 11 a 13 de outubro. No dia 1º daquele mês, um estudo na revista BMC Medicine mostrou que cresceu de cerca de 53 mil em 2010 para 420 mil em 2014 o número de artigos dos periódicos publicados por publishers predatórios. Ou seja, um volume que se tornou sete vezes maior em quatro anos.

Mau exemplo

Por outro lado, aqui no Brasil, o que temos é o silêncio e a vista grossa sobre esse problema por parte das instituições de ensino superior e de pesquisa. E continua assim mesmo um ano após eu ter registrado em meu blog anterior, na Folha, com a ajuda de pesquisadores, pelo menos 235 periódicos predatórios classificados na base de dados Qualis Periódicos, da Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do Ministério da Educação (“Sobe para 235 a lista de ‘predatórios’ na pós-graduação brasileira”, 3/4/2015).

Um dos lamentáveis exemplos desse tipo de tolerância por parte de nossa comunidade acadêmica, também na área de economia e negócios, é o periódico WSEAS Transactions on Business and Economics, editado pelo publisher predatório WSEAS (World Science and Engineering Academy Society).

Desde 2012 a WSEAS consta na lista de publishers predatórios do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver.  (Ele postou em seu blog Scholarly Open Acces em 22/3 sobre o alerta dos “Business Deans”.) Sediada em Sofia, na Bulgária, a WSEAS cobra 600 euros e mais 50 euros por página adicional para publicar um artigo de até 10 páginas nessa e em outras 14 de suas 19 revistas.

Apesar disso, o WSEAS Transactions on Business and Economics foi classificado em no segundo nível mais elevado (A2) pelo Comitê Assessor de Administração, Ciências Contábeis e Turismo da Capes na avaliação trienal de 2010 a 2012 da pós-graduação brasileira, concluída no final de 2013. Em 2014, na preliminar para a próxima avaliação, o periódico recebeu do comitê a classificação B1, a terceira mais alta em uma escala de oito.

Bom exemplo

Felizmente parece que nem tudo está perdido. No ano passado, a ABEC Brasil (Associação Brasileira de Editores Científicos) convidou este blogueiro para fazer a apresentação “A tolerância acadêmica com periódicos predatórios” seu 15º Encontro Anual de Editores Científicos, realizado em Florianópolis em novembro.

No dia 17 de março deste ano, para a cerimônia de posse de sua nova diretoria, a ABEC convidou Solange Cadore, professora do Instituto de Química da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), para ministrar a palestra “Editoração Ética e a Relevância da Comunicação Científica”.

Parece ser um bom sinal.

PS – Para quem quiser saber mais sobre os periódicos predatórios no Brasil, seguem alguns links dos artigos e reportagens sobre publicados por este blogueiro em seu blog anterior na Folha de S.Paulo.


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