A ‘zica’ da fosfo

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Uma das principais notícias divulgadas desde a tarde de ontem (terça, 5/4) foi a decisão do STF de autorizar a USP a deixar de cumprir todas as cerca de 15 mil liminares que obrigavam a universidade a produzir e a fornecer fosfoetanolamina sintética para pacientes com câncer. Como destacou Herton Escobar em seu blog no Estadão, a decisão do ministro Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo, também concedeu “salvo conduto” ao reitor Marco Antonio Zago, para evitar de ele vir a receber ordem de prisão de algum outro juiz por “crime de desobediência”.

 

Timing

Ao mesmo tempo, os ministérios da Saúde (MS) e o da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), após descobrirem o óbvio de que podem juntos colaborar de alguma forma nesse imbroglio, anunciaram que propuseram — sem informar para qual instância — um seminário científico para avaliar a segurança e a eficácia desse produto no tratamento de cânceres.  Nesse ritmo típico do Atoleiro Brasil, existem ainda muitas questões que não foram respondidas e também outras que nem sequer foram formuladas.

 

Já pensou nisso?

Hoje faz 20 dias que a bióloga Natália Pasternak Taschner, pós-doutora em microbiologia pela USP e divulgadora científica voluntária, publicou o post “Perguntas sem respostas” no ótimo blog coletivo Café na Bancada, que este blogueiro recomenda. Nessa postagem, ela listou 18 perguntas, que em sua maioria ainda continuam sem respostas, a começar pela última, transcrita a seguir.

E se a droga realmente se mostrar um sucesso, antes de sair por aí aclamando a equipe do IQSC como heróis e indicá-los para o Nobel, uma última pergunta seria necessária: por que ficaram acomodados durante 25 anos distribuindo tranquilamente a “cura universal do câncer” para uma pequena população em São Carlos e arredores, privando todo o resto do mundo do acesso à droga? Foi pura preguiça de fazer ciência como deve ser feita e submeter o fármaco a um teste clínico, randomizado, com grupo placebo e duplo cego? em roedores, não roedores e humanos?

 

Cadê os mortos?

Na semana passada  a cobertura da imprensa sobre o caso da fosfoetanolamina foi muito bem dissecada pela bióloga e jornalista Roxana Tabakman no artigo “Cadê os mortos da fosfoetanolamina?” (31/3), publicado em sua ótima seção Curadoria de Notícias, no Observatório da Imprensa.  Seguem duas de suas várias ponderações.

“Depois de seguir durante meses o assunto na mídia, abrigo a sensação de que, de maneira geral, a imprensa entende bem a situação científica e informa corretamente, porem está fazendo algo errado. Se o objetivo é tirar dos enganados a bolha de esperança que lhes turva a visão, não tenho certeza de que o esteja conseguindo.”
(…)
“Talvez tenha chegado a hora de uma autocrítica: perguntar-nos se a imprensa crítica à fosfoetanolamina não está contando a história incompleta. Não há dúvida que divulgar assuntos médicos sem ouvir a voz dos pacientes é contar apenas uma parte; porém, às vezes, não parecemos conscientes das consequências da deficiência.”

 

Gestão hídrica

Aproveitando a menção ao Café na Bancada, vale a pena destacar um outro post que mostra o espírito “antenado” desses pesquisadores blogueiros: “Quando a natureza encontra a gestão pública”, do biólogo Henrique Iglesias Neves. Esse texto analisa os aspectos do meio físico, especialmente as chuvas, relacionadas ao sistema Cantareirata , que abastece mais da metade da população da Grande São Paulo (abordado por este blog em 4/4). O  texto fornece bons elementos para avaliar a atitude  do governo do estado de São Paulo agiu e tem agido de modo a ignorar esses fatores ambientais. Para provocar a leitura desse post, aqui vai uma citação-aperitivo.

“Essa mudança poderia ter sido, se não evitada, pelo menos atrasada através de várias medidas, como a redução no volume de captação, o estabelecimento de um racionamento controlado, aplicação de políticas para despoluição dos rios da cidade e controle do consumo de grandes empresas. De todas essas medidas, aquelas que aconteceram começaram tarde demais. (…) Claro, políticas públicas embasadas em estudos científicos só funcionam quando os dados providos pelos cientistas são levados em conta.”

 

Menos R$ 1 bilhão

Na chamada grande imprensa, até agora O Globo foi o único jornal a reportar as consequências do bloqueio de mais de 7 mil bolsas de pós-graduação no país pela Capes e da suspensão por dois meses de outras tantas no exterior pelo CNPq. Mas ainda falta ir atrás do contingenciamento de R$ 1 bilhão do orçamento do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) no âmbito da segunda medida contenção das despesas não obrigatórias detalhadas na semana passada por meio do novo decreto de programação orçamentária, publicado no Diário Oficial da União na semana passada (30/3). Para quem quiser informações sobre o assunto, vale a pena ler as reportagens de ontem do Jornal da Ciência, da SBPC, e de sexta-feira (1/4) da Agência Gestão CT&I.

 

Cortes no RJ também

O problema não é só do governo federal. O portal G1 destacou hoje os que vêm passando que bolsistas de doutorado da Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) fora do país com a falta de pagamento de suas bolsas de estudo.

“Sem dinheiro para o custeio de despesas básicas e para não desistir do projeto de uma carreira científica, muitos contam com a ajuda de amigos e familiares para seguir em frente. Parte dos bolsistas recebeu o pagamento de janeiro no último dia 28 de março, com 48 dias de atraso, e ainda não há data para receberem os outros meses atrasados.”

 

Petição da Uenf

Por falar em cortes de recursos para pesquisas: já estava com 849 adesões no fechamento desta nota o abaixo-assinado iniciado ontem por funcionários da Uenf (Universidade Estadual do Norte Fluminense) ao governo do estado do Rio de Janeiro. Além do pagamento dos salários em datas determinadas, os professores e demais servidores — que já começaram a gravar protestos em vídeos no YouTube, como mostramos ontem — pedem que sejam pagas também despesas ordinárias, entre elas as contas de água e energia elétrica. A petição está na internet.

 

Mudanças neste blog

Para não ficar mais refém das oscilações da “internet a lenha” que temos no Brasil, e aproveitando as análises preliminares das visitas recebidas desde sua inauguração em 31/3, Direto da Ciência reformulará seu trabalho, inclusive os horários de postagens de suas publicações. Teremos as novidades concluídas na próxima sexta-feira (8/4).

Na imagem acima, cápsulas de fosfoetanolamina. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens/Divulgação


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