Agência Brasil fracassa ao tentar amenizar sanção da ‘pílula do câncer’ por Dilma

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) tentou desviar da atenção internacional as críticas à sanção pela presidente Dilma Rousseff da lei que autoriza o uso da fosfoetanolamina, a chamada “pílula do câncer”. Para isso, por meio da Agência Brasil, a estatal de comunicação do governo federal expediu na tarde de ontem (quinta-feira, 14/4) dois comunicados, um em espanhol e outro em inglês, que nem sequer mencionaram críticas à sanção por Dilma feitas por pesquisadores, representantes de sociedades médicas e científicas e autoridades sanitárias do próprio governo.

 

Enxugamento

As notas Brasil autoriza excepcionalmente uso de la fosfoetanolamina e Brazil exceptionally authorizes use of phosphoethanolamine, da Agência Brasil, foram publicadas respectivamente às 15h45 e às 15h52 de ontem. Ambas não passam de traduções editadas a várias mãos, enxugadas e empobrecidas de uma reportagem da própria agência, publicadas 10h25. Para se ter uma ideia da repercussão dessa patética operação midiática, até o fechamento desta coluna, à 7h31 desta sexta-feira (15/4), a nota em espanhol teve uma curtida no Facebook e a em inglês não teve nenhuma.

 

Chumbo grosso

O fracasso dessa operação de socorro não se deveu apenas à pífia repercussão dos dois comunicados emitidos em comparação a tudo o que foi publicado sobre o assunto pela imprensa brasileira, em grande parte destacando as críticas contrárias à sanção e a situação acuada de Dilma às vésperas da votação do processo de impeachment.  Objetiva, sintética e crítica, a reportagem Brazil president signs law legalizing renegade cancer pill foi publicada pelo jornalista Herton Escobar, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo, no prestigiado periódico Science, da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS).

 

Ampla repercussão

Além de ser uma das mais respeitadas publicações acadêmicas do mundo, a revista semanal tem sido nas últimas décadas um dos principais veículos consultados pelos formadores de opinião na área de C&T (ciência e tecnologia). As páginas da Science não contabilizam as reações a elas nas redes sociais. Mas desde ontem fervilham no Facebook e em grupos do WhatsApp compartilhamentos do link da reportagem do jornalista brasileiro.

 

‘Golpe nos outros é refresco’

Na opinião deste blogueiro, a melhor frase do dia ontem, em meio aos protestos de cientistas, autoridades sanitárias e formadores de opinião contra a sanção da “lei da fofo” pela presidente Dilma Rousseff, foi do jornalista Carlos Orsi em seu blog, no post ‘Fosfo’ sancionada: golpe nos outros é refresco. Foi a seguinte.

É, no mínimo, constrangedor ver um governo que, para sobreviver, se bate por uma interpretação estrita das leis estabelecidas e se levanta contra eventuais interpretações casuísticas de determinadas cláusulas decidir, de repente, relativizar leis estabelecidas e sancionar um projeto casuístico. Fica claro que o que importa não é a lei, mas a sobrevivência. E a sobrevivência do mandato, não a dos pacientes de câncer, as maiores vítimas desse desacerto federal.

Lei florestal no STF

O Supremo Tribunal Federal realiza na próxima segunda-feira (18) audiência pública para discutir questões relativas a Lei 12.651/2012, que substituiu o  marco regulatório da proteção da flora e da vegetação nativa no Brasil antes conhecido como Código Florestal. O ministro Luiz Fux, relator de quatro ações diretas de inconstitucionalidade contra dispositivos dessa lei, convocou 22 palestrantes entre pesquisadores, acadêmicos, representantes do governo federal, de movimentos sociais e produtores rurais. Haverá transmissão ao vivo pela TV Justiça, Rádio Justiça e também pelo canal STF no Youtube.

 

SBPC protesta

Em carta enviada ao ministro Fux em 4 de abril, Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), protestou contra a não inclusão de um representante da entidade na audiência pública sobre a lei florestal. No documento, ela argumentou que em 2010 a SBPC constituiu um grupo de trabalho constituiu um grupo de trabalho multidisciplinar para reunir contribuições à nova lei, que foram entregues ao Congresso em 2011, e que muitas delas foram incorporadas ao texto final. E, destacando que a entidade reúne 130 sociedades científicas, a presidente finalizou afirmando:

Não temos condições de imaginar qual terá sido o motivo pela não inclusão do representante da SBPC na Audiência Pública, mas podemos asseverar que faltará a voz de uma instituição de ampla representatividade, isenta, qualificada e que nunca se furtou em emitir opiniões ou realizar estudos sobre temas em que a contribuição da ciência será relevante para as pessoas e para o País.

 

Curso de Jornalismo de Dados

Estão abertas as inscrições para a sexta edição do Curso On-line de Jornalismo de Dados da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), que vai de 9 de maio a 8 de junho. Com o objetivo de capacitar os alunos para o uso de técnicas avançadas de busca em bancos de dados públicos, o curso tem quatro módulos de uma semana, cada um com vídeoaulas e exercícios que os alunos podem acessar de acordo com sua disponibilidade de horário, além do acompanhamento do instrutor. As vagas são limitadas. (Clique aqui para mais informações.)

 

Destaques na imprensa

Seleção de notícias on-line sobre ciência, ensino superior e meio ambiente publicadas desde a coluna de ontem

Agência Brasil

Agência Gestão de CT&I

Agência Senado

Época

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

O Globo

Jornal da Ciência (SBPC)

Science

The New York Times

Na imagem acima, pílulas de fosfoetanolamina. Crédito: Marcelo Casal Jr./Arquivo Agência Brasil


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