O canal entupido de Alckmin com a ciência

O governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, em 16/dez/2014, anuncia para sua gestão a ter início no ano seguinte, a escolha do novo secretário da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econonômico, deputado e vice-governador eleito Marcio França. Foto: Guilherme Lara Campos/A2 Fotografia.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Após ter “anunciado” desastradamente o fim da crise hídrica, não só com parte da população de São Paulo sofrendo com a falta de água em suas casas, mas também com os reservatórios da região metropolitana em situação desfavorável para um final do período de chuvas, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), voltou a se enrascar mais uma vez com um tema relacionado ao conhecimento científico. Hoje, na Folha, a reportagem Alckmin critica Fapesp por pesquisas ‘sem utilidade prática’ , dos jornalistas Thaís Arbex e Reinaldo José Lopes, mostra irrefutavelmente o lamentável despreparo do chefe do Executivo paulista, apesar de sua formação em medicina, ao criticar a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

 

‘Nenhuma utilidade’

Na segunda-feira (25/4) em nota em sua coluna Radar On-line, na Veja, a jornalista Vera Magalhães noticiou que o governador Alckmin, em reunião com seu secretariado na semana passada, teria reclamado da Fapesp com as seguintes palavras, que foram confirmadas por três secretários estaduais presentes à reunião, segundo a colunista.

Gastam dinheiro com pesquisas acadêmicas sem nenhuma utilidade prática para a sociedade. Apoiar a pesquisa para a elaboração da vacina contra a dengue, eles não apoiam. O Butantã sem dinheiro para nada. E a Fapesp quer apoiar projetos de sociologia ou projetos acadêmicos sem nenhuma relevância.

 

Exposição pública

Passados dois dias desde sua revelação pela coluna da Veja, essas afirmações estapafúrdias de Alckmin estão completamente desmoralizadas, seja por esclarecimentos como os da reportagem da Folha, seja pelo simples fato de terem sido propaladas além do ambiente palaciano controlado. Inclusive por exporem publicamente a forma tosca com que o ex-postulante à Presidência da República em 2006 e governador pela quarta vez do estado mais rico do Brasil se refere a uma área do conhecimento, a sociologia. Que, ironicamente, é o campo de atuação de importantes fundadores do próprio PSDB, a começar pelo casal Fernando Henrique e Ruth Cardoso.

 

Onde está o erro

Deixando de lado esses disparates, o que causa estranhamento é como um político, que teve a capacidade de galgar os postos que Alckmin alcançou, consegue se mostrar tão alheio à atuação da mundialmente prestigiada agência de apoio à pesquisa de seu próprio governo. Ainda mais por ter se referido à dengue, que no período de 1993 a 2015 foi objeto de 322 projetos de pesquisa, dos quais 264 já concluídos, apoiados justamente pela Fapesp. Em que pesem outros possíveis fatores que levam a essa alienação, não há como desconsiderar o papel que adquiriu nos últimos anos sua Secretaria do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (SDECTI).

 

Situação privilegiada

A SDECTI tem uma situação peculiar e privilegiada em relação às demais secretarias estaduais. Todos os órgãos a ela vinculados são autarquias, como o Centro Paula Souza — das prestigiadas ETECs e FATECs —, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), a Junta Comercial do Estado, a própria Fapesp e as três universidades estaduais Unesp, Unicamp e USP. Em outras palavras, por só lidar com órgãos da administração descentralizada, exceto seu próprio gabinete e suas coordenadorias, essa secretaria não precisa enfrentar o duro trabalho de outras pastas formadas em grande parte por órgãos da administração centralizada.

 

Agenda positiva

Além de não ter o ônus do dia a dia das outras secretarias com a burocracia da Fazenda e de outros órgãos centrais, a SDECTI leva ainda outra vantagem sobre elas: sua agenda predominantemente positiva, com muitas inaugurações outros eventos relacionados a projetos de desenvolvimento econômico, atendimento de prefeitos e deputados, sempre com direito a muitas fotos e destaques na imprensa do interior do estado.

 

Trampolim de políticos

Em vez de ser confiada a gestores com perfil de planejamento ou de inovação, a SDECTI passou a ser nos últimos anos entregue a políticos, geralmente em campanha eleitoral. A começar pelo próprio Alckmin no período de 2009 a 2010, quando se elegeu para o mandato de governador de 2011 a 2014. Também foram titulares da pasta o então deputado estadual pelo PSDB Paulo Barbosa (2011-2012), prefeito de Santos desde 2013, o atual deputado federal pelo DEM Rodrigo Garcia (2013-2014) e o atual vice-governador Marcio França, também secretário desde o início da atual gestão em 2015, que tem sido apontado como candidato do PSB para o Palácio dos Bandeirantes em 2018.

 

Canal entupido

Desde que Alckmin inaugurou essa tradição politiqueira na SDECTI, a pasta passou a ter uma interlocução deficiente com seus órgãos vinculados, em vez de ser uma instância de efetiva articulação como foi em anos anteriores. Dentro desse espírito, a secretaria teve titulares como Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo (1988-1991), Roberto Müller Filho (1993-1994), Emerson Kapaz (1995-1996), Flávio Fava de Moraes (1998-1999), Ruy Martins Altenfelder Silva (2001-2002) e o próprio João Carlos de Souza Meirelles (2003-2006), já na primeira gestão de Alckmin como governador eleito.

 

Ideias travadas

Um dos exemplos mais flagrantes dessa articulação deficitária foi a forma de a SDECTI lidar com o projeto de criar em todas as secretarias estaduais a figura do cientista-chefe, cuja função seria articular a interlocução de administradores públicos com universidades e agências de fomento. Baseada em experiências em Israel e no Reino Unido, a proposta foi apresentada a Márcio França pela direção da Fapesp em março do ano passado. No entanto, antes mesmo de ser confirmada pelo governo e organizada com a fundação, a ideia foi alardeada em um evento pelo próprio vice-governador em agosto, mas não teve prosseguimento. (Este jornalista comentou a proposta em seu blog anterior, na Folha.)

 

Sucateamento

Enquanto secretários da SDECTI têm aproveitado largamente os eventos dessa pasta e pegando carona na agenda positiva de seus órgãos vinculados autárquicos, os 19 institutos estaduais de pesquisa da administração centralizada — entre eles o Instituto Butantan, citado na desastrada fala de Alckmin — têm sido sucateados pela permanente falta de investimentos em equipamentos e infraestrutura. Na verdade, a pasta nem sequer se envolve com a avaliação de desempenho dos cerca de 1,7 mil pesquisadores desses institutos, cujas careiras são supervisionadas pela Comissão Permanente de Regime de Trabalho Integral, ligada à Secretaria da Gestão Pública.

 

Na contramão

No final das contas, o estranhamento de Alckmin com a ciência extrapola o âmbito da Fapesp. Seu governo não consegue dialogar com a estrutura de ciência e tecnologia do estado. Sem depender dessa interlocução deficiente, as três universidades estaduais respondem por cerca de um terço de toda a pesquisa científica do país indexada em bases de dados internacionais. Graças ao apoio da Fapesp a essas instituições estaduais e também às federais situadas em São Paulo, o estado ainda tem respondido pela formação de educadores e pela promoção da pesquisa e desenvolvimento (P&D) que os países desenvolvidos já entenderam ser indispensáveis para o avanço da economia. Um esforço que cada vez mais avança, não graças ao governo paulista, mas apesar dele.

 

Pint of Science

O festival internacional de divulgação científica Pint of Science acontecerá este ano nas noites de 23, 24 e 25 de maio em Belo Horizonte (MG), Campinas (SP), Dourados (MS), Ribeirão Preto (SP), Rio de Janeiro (RJ), São Carlos (SP) e São Paulo (SP). Em cada uma dessas cidades, voluntários organizarão diversos bate-papos com pesquisadores. A iniciativa segue o modelo dos grandes festivais de música, em que os artistas se apresentam simultaneamente em vários palcos a cada noite. O Brasil é o único país da América Latina a participar da iniciativa, que será realizada simultaneamente em mais 11 países.  Confira a programação.

 

Mistério sobre acordo

Apesar de ter sido publicado ontem o decreto de promulgação do acordo de cooperação técnica com a Comunidade Europeia de Energia Atômica (Euratom) para pesquisa sobre energia nuclear de fusão, que foi noticiado ontem por Direto da Ciência, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) ainda não divulgou nenhuma novidade sobre o assunto. Por que a presidente Dilma Rousseff, que assinou o decreto, não aproveitou para divulgá-lo? A impressão que isso dá é que há detalhes que impedem o aproveitamento do assunto como boa notícia.

 

Desvio de finalidade

Onde, durante uma audiência com os senadores membros da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT), representantes do Tribunal de Contas da União e do instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea) apresentaram dados que evidenciam que nos últimos anos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) teriam sido usados pelo MCTI para compensar a redução do orçamento da pasta, segundo reportagem do jornalista Felipe Linhares, da Agência Gestão de CT&I.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

Agência Fapesp

Agência Gestão de CT&I

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

O Globo

MCTI – Notícias

The New York Times

Observatório do Clima

 

Na imagem acima, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) ao anunciar em 16/12/2014 para seu novo mandato a escolha do vice-governador eleito Marcio França (PSB) para o cargo de secretário do Desenvolvimento Econonômico, Ciência, Tecnologia e Inovação. Foto: Guilherme Lara Campos/A2 Fotografia/Divulgação.


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3 Comentários

  1. Pingback: C&T nº 119 29-04-2016 – Jornal Pensar a Educação em Pauta

  2. Juarez Ornelas said:

    Acabo de constatar que o autor do texto acima é membro do Conselho Editorial da Revista Pesquisa da Fapesp. O que dizer de alguém que escreve para elogiar quem paga seu salário? É esse tipo de jornalista que ataca o Governador Geraldo Alckimin?

    • Maurício Tuffani said:

      Senhor Juarez,
      A atividade de membro do Conselho Editorial da revista Pesquisa Fapesp (nome correto da publicação) não é remunerada. Na verdade, para essa colaboração que eu e outros conselheiros fazemos com muito empenho, não há nem sequer ajuda de custo. Ganhamos apenas um café com bolachas nas reuniões e a satisfação de colaborar com uma das melhores publicações de divulgação científica do Brasil.
      Tenha um bom dia.
      Maurício Tuffani

Comentários encerrados.

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