Revista de medicina com nota máxima da Capes faz ‘proposta indecente’ para revisor

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

O periódico de medicina Oncotarget, dos Estados Unidos, classificado com o nível máximo A1 do sistema brasileiro de pós-graduação em cinco áreas de especialização, foi acusado no dia 19 de abril de violar padrões éticos e científicos para recrutar revisores de artigos. Na Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação, quatro das cinco coordenações dessas áreas já informaram a Direto da Ciência que reavaliarão a classificação da revista, já sinalizando que ela deverá ser rebaixada, inclusive para o nível mais baixo de todos.

 

Proposta indecente

As suspeitas sobre o peer review (revisão por pares) do Oncotarget foram apontadas pelo blog Scholarly Open Access. Em seu post, o professor de biblioteconomia Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado em Denver, revelou uma mensagem em que o editor-chefe do periódico, Mikhail V. Blagosklonny, pede a uma pessoa para fazer a revisão de um artigo, mas dispensando-a não só da obrigação de analisar detalhadamente o estudo, mas também do dever ético de não aceitar o trabalho se tiver eventuais conflitos de interesse ao apreciá-lo.  Seguem trechos dessa mensagem em tradução livre.

Peço-lhe para servir como um dos revisores. Se você não tem tempo para análises detalhadas, por favor, expresse sua opinião genérica.
[Dados sobre o artigo a ser analisado e seu autor.]
Você pode aceitar a posição de revisor independentemente de ter potenciais conflitos de interesse. Por favor, indique essa condição apenas em comentários confidenciais.

 

Resposta suspeita

No mesmo dia da publicação do post, Blagosklonny afirmou no espaço de comentários do blog que todos os artigos são analisados por três a sete revisores. Depois disso, referindo-se a artigos da mesma universidade de Beall publicados no Oncotarget, o editor-chefe do periódico fez a seguintes afirmações, que rapidamente foi interpretada por leitores como ameaça ao blogueiro.

Se você acha que as revisões não foram suficientemente sólidas, isso pode ser aplicado apenas para a Universidade de Colorado, onde dois revisores, em vez de três a sete, foram suficientes para o Conselho Editorial tomar uma decisão. Se desejar, podemos reconsiderar todas essas publicações a seu pedido.
Por favor, faça esse comentário público.

 

Maus antecedentes

O Oncotarget já havia sido incluído por Jeffrey Beall em sua lista de periódicos predatórios de em julho de 2015. A relação abrange revistas científicas do chamados publishers predatórios, que são empresas que desrespeitam os critérios éticos e científicos de editoração acadêmica ao explorarem o modelo de publicação em acesso livre pela internet, tendo como fator decisivo para aceitação de artigos o pagamento de uma taxa. O Oncotarget cobra US$ 2.850 por paper.

 

Chamarizes

Diferentemente de grande parte dos periódicos predatórios, Oncotarget não só tem um elevado fator de impacto (6,351 em 2014), como também é indexado em importantes bases de dados internacionais, como  o Web of Science, sem falar que divulga amplamente ter publicado sete artigos de Andrew Schally, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 1977.  Seu publisher, com o sugestivo nome Impact Journals, tem também outros três periódicos: Aging, Oncoscience e Genes & Cancer.

 

Denúncia anterior

Questionado por Direto da Ciência sobre os motivos que o levaram a incluir o Oncotarget em sua lista, Jeffrey Beall respondeu por e-mail que começou a investigar a publicação ao ser alertado por um ex-revisor da revista. Segundo Beall, o parecerista afirmou ter recomendado a rejeição de um artigo ou a reelaboração de seus experimentos, mas o trabalho acabou sendo publicado sem nenhuma alteração. Por sua vez, o editor-chefe Mikhail V. Blagosklonny não respondeu às perguntas de Direto da Ciência enviadas por e-mail na terça-feira (26/4).

 

Classificação máxima

Qualis_Oncotarget_2013

Clique na imagem para ampliar a tabela com as classificações do periódico Oncotarget na Capes em 2013. Imagem: Qualis Periódicos/Reprodução.

O quadro acima, referente a 2013, mostra que o Oncotarget obteve A1, o nível máximo de classificação no sistema Qualis Periódicos, da Capes nas áreas de Biotecnologia, Ciências Biológicas I, Ciências Biológicas II, Medicina I e Medicina II. Para 2014, apenas Biotecnologia não classificou a revista. Os dados desses dois anos e os de 2015 e 2016 serão sistematizados na avaliação final do quadriênio 2013-2016, que será concluída em 2017. Os oito níveis de classificação do Qualis em ordem decrescente são A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C.

 

Rebaixamento

Apenas a coordenação de Ciências Biológicas II não respondeu às perguntas enviadas por e-mail na terça-feira (26/4). Agradecendo a Direto da Ciência por alertá-los sobre o Oncotarget, todas as outras quatro coordenações manifestaram claramente sua intenção de reavaliar a classificação desse periódico. Em alguns casos, como Biotecnologia e Medicina I, prevendo até mesmo o rebaixamento para o nível C, o mais baixo.  (Confira as íntegras das respostas dos coordenadores de áreas.)

 

A ‘ressurreição’ do Rio Doce

“As fortes chuvas entre novembro e abril ‘lavarão’ o rio Doce, num processo natural”, afirmou em 28 de novembro do ano passado Paulo Rosman, professor da Escola Politécnica da UFRJ, em entrevista à BBC Brasil (Tido como morto, Rio Doce ‘ressuscitará’ em 5 meses, diz pesquisador). Na sexta-feira passada (29/4), encerrado o prazo afirmado na entrevista, Marcos Pedlowski, professor de geografia da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), cobrou explicações para a desastrada previsão em seu blog (Rio Doce pós-TsuLama da Samarco: cadê a prometida ressurreição, Dr. Rosman?).

 

G1 copia distorção da Sabesp

Antes de publicar matérias sobre a situação do sistema Cantareira, o G1, site de notícias das Organizações Globo, poderia pelo menos prestar mais atenção ao Jornal Nacional, que não tem se deixado enganar por índices distorcidos da Sabesp sobre o armazenamento desse conjunto de reservatórios que por enquanto voltou a abastecer mais de 7,4 milhões de habitantes da Grande São Paulo.

 

Gráfico insensato

Clique na imagem para ampliar o detalhe de reportagem do G1 no sábado (30/4). Imagem: G1/Reprodução.

Clique na imagem para ampliar o detalhe de reportagem do G1 no sábado (30/4). Imagem: G1/Reprodução.

Na reportagem de sábado Nível de água do Sistema Cantareira fica estável pelo 3º dia consecutivo, não foi erro do “pessoal da arte” o gráfico sem sentido que mostrou mais alta uma coluna com um índice inferior ao de outra mais baixa. O subtítulo e no texto, em vez de apontarem 36,3%, indicaram a lorota dos 65,6%. Além de repetir esse índice enganador na atualização da matéria no domingo, o G1 voltou a usá-lo em reportagem de hoje.

 

Estadão foi mais esperto

No mesmo sábado, poucas horas antes da escorregada feia do G1, o Estadão publicou a reportagem “Se mantida a secura de abril, Cantareira fechará ano a 12%”, na qual o jornalista Fábio Leite mostrou corretamente 36,3% de armazenamento do volume útil. Algumas reportagens do Estadão nos dias anteriores insistiram em apontar mais de 60% por se basearem no falso “Índice 1”, que ainda é irresponsável e diariamente divulgado pela estatal paulista de saneamento e abastecimento e acriticamente copiado-e-colado por grande parte da imprensa. A Folha tem mostrado que parece já estar “vacinada”.

 

Mostrar a deturpação, a missão

Direto da Ciência continuará a publicar informações como as das duas notas anteriores sempre que os principais veículos da imprensa enganarem seu público reproduzindo essa ridícula aberração aritmética “inventada” pela Sabesp quando começou a bombear para cima não só a água do volume morto do Cantareira, mas também os preocupantes percentuais de armazenamento desse sistema. Essa distorção matemática começou em maio de 2014, ano da votação que reelegeu o governador Geraldo Alckmin (PSDB), é sempre bom lembrar. Confira a história dessa deturpação de dados em Imprensa questiona ‘fim da crise hídrica’, mas divulga índices distorcidos da Sabesp.

 

Críticas ao jornalismo científico

O biólogo Pirula tem feito um bom trabalho de divulgação científica em seu canal no YouTube, que tem mais de 430 mil seguidores. Em seu vídeo de 16 de abril ele acertou ao criticar a cobertura da ciência pela imprensa, a começar pela precária formação científica de grande parte dos jornalistas que atuam nessa área. Mas mostrou não conhecer bem o tema ao dizer que os profissionais da imprensa que cobrem ciência deveriam sempre submeter suas reportagens aos entrevistados antes de publicá-las. No sábado, Reinaldo José Lopes, repórter e blogueiro da Folha, em seu recém-lançado canal no YouTube discordou do biólogo. Entre outros aspectos, o repórter esclareceu que o jornalismo não se restringe a “simplesmente traduzir” a linguagem científica para o público leigo, pois o trabalho da imprensa deve envolver também uma atitude crítica com relação às próprias fontes.

 

Quase uma mordaça

Concordo com a crítica de meu colega a essa opinião de Pirula. Mas acrescento que o jornalismo também deve sempre que possível envolver o contraditório. Uma reportagem sobre ciência que aborde posições antagônicas sobre um tema correrá o sério risco de não prosperar se for submetida previamente a suas fontes. Graças à pressão da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em novembro de 2003 o Conselho Federal de Medicina (CFM) revogou sua “resolução da mordaça”, expedida dois meses antes, que obrigava médicos entrevistados por jornalistas a exigir destes a submissão prévia de seus textos. O CFM recuou ao perceber que perderia no STF se a Abraji partisse para uma ação de inconstitucionalidade

 

Leigos e especialistas

OK, Pirula não se atreveu propor norma e nem toda reportagem de ciência envolve antagonismos, como observou Reinaldo. Na verdade, apesar de sua formação científica, o biólogo não deixa de ser um leigo em outras áreas da ciência que ele aborda. E também não está imune a erros, inclusive básicos. Ao comentar, por exemplo, a desastrada reclamação de Alckmin sobre a Fapesp, em outro vídeo Pirula afirmou que a receita da fundação corresponde a 1% do PIB paulista, quando, na verdade, é de 1% da arrecadação do ICMS do estado. Enfim, apesar de sua opinião equivocada sobre o jornalismo, o que importa é que o jovem biólogo faz um bom trabalho de divulgação científica. Bom será se sua audiência continuar crescendo entre os jovens.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

Agência Fapesp

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

G1

O Globo

Jornal da Ciência (SBPC)

Valor Econômico

Na imagem acima, parte superior da capa da edição da semana passada do periódico Oncotarget.


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