Atraso de relatório poupou Dilma de dados ruins do Brasil na reunião do clima na ONU

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Duas semanas depois da cerimônia de assinatura do Acordo de Paris sobre Mudança do Clima, na sede das Nações Unidas, em Nova York, no dia 22/4, o governo brasileiro divulga hoje uma parte importante da “lição de casa” que deveria ter levado a essa reunião. Está marcada para as 15h desta sexta-feira a apresentação da Terceira Comunicação Nacional (TCN), que inclui o novo inventário brasileiro de gases de efeito estufa. O atraso poupou a presidente Dilma Rousseff da situação desconfortável de os compromissos do Brasil para redução de emissões de gases estarem em defasagem com os dados reajustados no novo documento, que reajustou em 28,6% a estimativa anterior.

 

Acréscimo incômodo

O Acordo de Paris prevê metas de redução da emissões de gases com base na estimativa de 2005. O Brasil se comprometeu a reduzir suas emissões em 37% até 2025 e em até 43% até 2030. No documento a ser apresentado hoje pela ministra interina da Ciência, Tecnologia e Inovação, Emília Ribeiro, a estimativa da Segunda Comunicação Nacional sobe para 2,7 bilhões de toneladas de equivalente em gás carbônico, que era de 2,1 bilhões de toneladas no relatório anterior. Os dados já estão disponíveis no site do MCTI na página http://sirene.mcti.gov.br.

 

Quando ficou pronto?

Apesar de o relatório estar sendo divulgado hoje, nos seus créditos consta o nome do deputado Celso Pansera (PMDB-RJ), que deixou o cargo de ministro do MCTI para votar em 17 de abril contra o prosseguimento do processo de impeachment da presidente. Independentemente de quando realmente o relatório foi concluído, é muito pouco provável que Dilma e seus ministros do MCTI e do Meio Ambiente já não soubesses de seus dados e que eles seriam constrangedores na reunião da ONU. Em uma nota de fevereiro, o Observatório do Clima já havia afirmado que o documento estava desde agosto do ano passado na Casa Civil

 

A ‘boa notícia’

Uma das boas notícias do relatório a ser divulgado hoje — e provavelmente esse será ser o enfoque da divulgação do governo na apresentação do MCTI — é a confirmação da redução das emissões em 2010, que foi de 50% comparada às de 2005. O Observatório do Clima certamente deverá ainda hoje se posicionar não só sobre os novos dados, mas também sobre o que eles implicam para as metas brasileiras para 2020, 2025 e 2030.

 

Alô, Petrobras!

Por falar no Observatório do Clima, na semana passada, dia 28/4, esta coluna informou que no dia anterior a entidade havia enviado carta para a presidência e o conselho diretor da Petrobras afirmando que a estatal está comprometendo seu próprio futuro por manter o foco de seu plano de negócios na exploração do petróleo do pré-sal e por seu investimento irrisório e decrescente em energias alternativas. Caso a diretoria da empresa ainda não esteja convencida disso, vale a pena ler a reportagem Grandes petrolíferas desistem de projetos caros e complexosdo The Wall Street Journal, traduzida na edição de hoje do Valor Econômico.  As opiniões expressas nessa matéria não são de ONGs ambientalistas, mas de empresas petrolíferas como a Royal Dutch Shell, a Chevron e a Woodside Petroleum.

 

Protesto da SBPC

Em seu artigo Ciência e educação, políticas de Estado, publicado nesta sexta-feira (6/5) na seção Tendências/Debates, da Folha, a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, afirma: “A notícia de que um bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (Marcos Pereira, presidente nacional do PRB) é cotado para assumir o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em eventual governo Temer, mostra que a barganha política está acima dos critérios de competência, afinidade e compromissos com a área”.

 

Biologia experimental

Em sua página no Facebook, a Federação das Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE) conclamou “todos os seus afiliados e as sociedades federadas Sociedade Brasileira de Imunologia, Sociedade Brasileira de Fisiologia, Sociedade Brasileira de Biologia Celular e Sociedade Brasileira de Farmacologia para protestar contra a nomeação do bispo licenciado da Igreja Universal, Marcos Pereira (PRB), para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em possível governo de Michel Temer. O bispo Marcos Pereira não tem qualquer experiência na área de ciência”.

 

Academia de Ciências de SP

A diretoria da Academia de Ciências do Estado de São Paulo expediu seu documento O desprezo brasileiro pelas gerações do futuro, tendo entre suas afirmações a seguinte: “O sinal dado pelo governo que provavelmente irá se despedir em breve foi absolutamente lamentável, utilizando o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação como uma moeda de barganha política e com isto colocando o futuro do Brasil em risco”.

 

Sociedade Brasileira de Física

Da Manifestação da Sociedade Brasileira de Física (SBF) destacam-se os seguintes trechos: “Neste momento, a severa crise econômica que atingiu o país tem afetado fortemente nosso progresso científico e tecnológico, ocasionando sério retrocesso nos avanços alcançados. (…) Consideramos essa situação extremamente preocupante. Em primeiro lugar, corre-se o sério risco de que a prioridade da área de ciência e tecnologia seja subestimada em um programa estratégico emergencial para recuperação da economia. (…) Em particular, nos parece inaceitável a indicação de um ministro com posições ideológicas ortogonais às da ciência moderna”.

 

Petição em SP

Já conta com mais 2 mil adesões a petição on-line da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) contra o projeto de lei 328/2016, enviado em abril à Assembleia Legislativa pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP). O objetivo da iniciativa é obter autorização para alienar 12 imóveis administrados pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), ligada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento. A proposta do governo paulista faz parte de um pacote de medidas para fazer caixa e equilibrar as contas do estado, prevendo a venda de um total de 79 imóveis do Estado, avaliados em R$ 1,43 bilhão.

 

Áreas ‘ociosas’

A petição ressalta que o projeto de lei não só ameaça comprometer pesquisas de inovação para o agronegócio, mas também desrespeita o artigo 272 da Constituição Estadual de São Paulo por não prever a realização de audiência com a comunidade científica. Para o governo do estado, “não seria razoável, num cenário de escassez de recursos e de crise, ter áreas ociosas e ao mesmo tempo faltar recursos para investimento”, segundo reportagem da Folha de 20 de abril.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

Agência Fapesp

Agência Gestão de CT&I

Câmara Notícias

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

G1

O Globo

Jornal da Ciência (SBPC)

MCTI – Notícias

The New York Times

Notícias Socioambientais

Retraction Watch

Valor Econômico

Na imagem acima, a presidente Dilma Rousseff durante sessão de abertura da cerimônia de assinatura do acordo de Paris Foto: Roberto Stuckert Filho/PR


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