Governo Dilma ofusca necessidade de reajustar metas de reduções de gases estufa

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Em vez de informar que o Brasil emitiu 28,6% a mais de gases estufa do que havia estimado anteriormente para 2005, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em entrevista coletiva na sexta-feira (6/5), preferiu “ver o lado bom da história”: a redução das emissões entre esse ano e 2010 foi maior do que se pensava. O problema dessa “visão otimista” é que 2005 é o ano que serve como base para as metas de redução para 2024 e 2030 previstas no Acordo do Clima de Paris das Nações Unidas. No final das contas, o problema poderá ficar para o vice-presidente Michel Temer (PMDB), diante da perspectiva cada vez mais concreta de afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT).

 

Notícia velha

O mesmo MCTI já havia divulgado em 5 de junho de 2013, na comemoração do Dia Mundial do Meio Ambiente, que as emissões brasileiras de 2005 a 2010 haviam caído 39% graças principalmente à redução dos desmatamentos. Com o reajuste da estimativa de 2005, a queda das emissões foi recalculada em 53,5%. E, como previu esta coluna na sexta-feira, esse foi o gancho da divulgação do ministério em nota às 20h04, após a coletiva, lamentavelmente sem pelo menos informar a necessidade de reajustar as metas do Acordo de Paris.

 

Dados expostos

A imprensa dessa vez não caiu no conto da boa notícia. Antes mesmo da entrevista coletiva à tarde e da nota do MCTI, na manhã da sexta-feira, a repórter  Giovana Girardi, em seu blog Ambiente-se, no Estadão, e esta coluna já haviam esclarecido a história. Na quinta-feira, a jornalista Giovana Girardi havia notado que os dados da Terceira Comunicação Nacional (TCN) estavam acessíveis em um subdomínio do site do ministério, apesar de não terem ainda sido divulgados. À tarde, em contato por telefone, ela constatou que a própria assessoria de imprensa do órgão não estava informada sobre o assunto. No início da noite, às 19h37, a assessoria acabou emitindo um aviso de pauta para a coletiva no dia seguinte.

 

Atraso conveniente

Em artigo de fevereiro deste ano, o jornalista Claudio Angelo, coordenador de comunicação do Observatório do Clima, já havia informado que a TCN estava pelo menos desde agosto de 2015 na Casa Civil. Como afirmou esta coluna na sexta-feira, o atraso evitou para a presidente Dilma Rousseff, na reunião para assinatura do Acordo de Paris, em 22 de abril, a situação desconfortável de os compromissos do Brasil para redução de emissões de gases estarem em defasagem com os dados reajustados para cima em 28,6% no novo documento.

 

Alerta vermelho

Ainda na manhã de sexta-feira, o Observatório do Clima expediu a nota Novos dados aumentam conta do clima do país, que destacou a necessidade de o governo brasileiro reajustar, ou seja, aumentar, suas metas de reduções de emissões de gases de efeito estufa previstas no Acordo de Paris. De acordo com a nota,

O número lança um alerta vermelho sobre a INDC, o plano climático que o Brasil entregou para o Acordo de Paris e que estabelece um corte de 37% nas emissões em 2025 em relação aos níveis de 2005. Ocorre que a INDC foi calculada com base na estimativa do segundo inventário brasileiro, desatualizada, segundo a qual o país emitiu 2,1 bilhões de toneladas em 2005.

 

Avaliação de especialista

Direto da Ciência publicará nesta segunda-feira amanhã (terça-feira, 10/5)*, às 12h00, o artigo “Considerações sobre o Terceiro Inventário Nacional de Gases de Efeito Estufa”, de Gilberto Câmara, pesquisador em geoinformática, sensoriamento remoto e mudanças de uso da Terra, no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), onde foi diretor (2006-2012). [Atualização às 10h53.]

 

ABC e SBPC advertem Temer

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) publicaram na sexta-feira (6/5) o manifesto Em defesa de uma política de Estado para a ciência, a tecnologia e a inovação. No documento, as duas entidades ressaltam a importância da manutenção dos investimentos em ciência e pedem cautela em programas partidários de governo. O texto destaca a importância estratégica de investimentos em ciência, tecnologia e inovação, em vez de cortes orçamentários, inclusive em momentos de crise econômica, citando como exemplos a União Europeia e a China:

Em meio à crise global, a China vai investir pesadamente em C&T, projetando um investimento de 2,5% do produto interno bruto para 2020, com a esperança de que a inovação ajude o país a enfrentar a sua desaceleração econômica. A Europa planeja alcançar um investimento de 3% do PIB em 2020.

 

Recado sobre o bispo

Na semana passada, a ABC e a SBPC se posicionaram separadamente contra a escolha para o MCTI do presidente nacional do PRB, Marcos Pereira, pelo vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP). No manifesto conjunto de sexta-feira, as duas entidades não mencionaram o nome do bispo, que também é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, mas enfatizaram que

consideram fundamental que o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação e suas agências sejam preservados em eventuais reformas administrativas, e que seus dirigentes mantenham um diálogo constante com a comunidade científica e estejam sintonizados e comprometidos com o avanço da ciência, da tecnologia e da inovação, em benefício da sociedade brasileira.

 

Soja na Amazônia

Os resultados do mapeamento e monitoramento do plantio de soja no bioma Amazônia e os novos rumos da Moratória da Soja serão apresentados na tarde desta segunda-feira pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), que agendou para as 15h00 entrevista coletiva da ministra Izabella Teixeira. A apresentação acontecerá durante reunião com o Grupo de Trabalho da Soja (GTS), que reúne representantes da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Associação Nacional de Exportadores de Cereais (Anec), das ONGs Greenpeace, Imaflora, Ipam, TNC e WWF-Brasil, do MMA e do Banco do Brasil.

 

Quatro anos de ‘Código Florestal’

Os resultados alcançados nos quatro anos do chamado Novo Código Florestal serão debatidos em São Paulo nesta semana por representantes do governo, produtores rurais, ambientalistas e especialistas. Organizado pelas ONGs Iniciativa Verde e Observatório do Código Florestal, evento abordará questões relativas à transparência, incentivos e execução de seus instrumentos, e será realizado na próxima sexta-feira (13/5), das 9h até 13h, no Hotel InterContinental (Alameda Santos, 1123), na região da Avenida Paulista. A entrada é franca. Confira a programação e como fazer inscrição.

 

Iniciação Científica

Estão abertas até 13 de junho as inscrições nos programas institucionais de bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica do CNPq. As bolsas terão duração de 12 a 24 meses a partir de agosto deste ano. As propostas deverão ser enviadas por meio da Plataforma Carlos Chagas pelos representantes de Iniciação Científica das instituições de ensino superior. As modalidades de bolsas concedidas são Iniciação Científica (PIBIC), Iniciação Científica Júnior (PIBIC-EM), Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBIT) e Iniciação Científica nas Ações Afirmativas (PIBIC-AF). Clique aqui para mais informações.

 

Comunicação científica

Estão abertas até 27 de junho as inscrições das chamadas públicas do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) em parceria com o Conselho Britânico para propostas de financiamento de cursos e de workshops para desenvolvimento de habilidades em comunicação científica e pesquisa.  em diferentes áreas do conhecimento para pesquisadores do Brasil e do Reino Unido. A chamada para os cursos prevê contrapartida no valor de R$ 12,5 mil para cada curso pelas Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs).  Para cada workshop está previsto apoio do Fundo Newton de até 42 mil libras, com contrapartida financeira determinada pela FAP do respectivo estado. Mais informações na página do Confap.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

Agência Fapesp

Agência Gestão de CT&I

BBC Brasil

Capes – Notícias

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

O Globo

Jornal da Ciência (SBPC)

MCTI – Notícias

Notícias Socioambientais

Observatório do Clima

Retraction Watch

Valor Econômico

 

Na imagem acima, gráfico de emissões em dióxido de carbono equivalente por setor, de 1990 a 2010, da Terceira Comunicação Nacional do Brasil (TCN) à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Imagem: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação


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