Quantas Marianas serão necessárias para o novo ministro das Minas e Energia?

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Após as primeiras declarações infelizes de ministros do governo do presidente interino Michel Temer (PMDB-SP) — entre eles, o da Saúde, Ricardo de Barros (PP-PR), e o da Indústria e Comércio, Marcos Pereira (PRB-SP) —, chegou a vez do novo titular do Ministério das Minas e Energia (MME), o deputado licenciado Fernando Bezerra Coelho Filho (PSB-PE). Passados exatamente 200 dias desde o incidente mundialmente vergonhoso com a barragem da mineradora Samarco em Mariana (MG), o ministro mais jovem do atual governo (32 anos), em entrevista publicada hoje pelo jornal Valor Econômico, parece não ter aprendido o mínimo necessário para evitar novas catástrofes provocadas pela desatenção do setor da mineração com a prevenção de riscos ambientais.

 

Sem medo de ser feliz

Na reportagem “Ministro quer novo código mineral com menos interferência”, dos jornalistas Daniel Rittner, Murillo Camarotto e Rafael Bitencourt, Coelho Filho não mostrou nenhuma preocupação com os desdobramentos ambientais de sua ideia de acelerar na Câmara dos Deputados a tramitação do projeto de lei para o novo Código de Mineração. Na sua forma atual de substitutivo elaborado por um parlamentar ligado ao setor da mineração, o deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), a proposta já foi amplamente criticada não só por ambientalistas, mas também por um de seus atuais colegas da Esplanada dos Ministérios, o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho (PV-MA) — que no primeiro dia do governo Temer  propôs a reformulação da legislação sobre o assunto ao apresentar seu relatório final da comissão externa da Câmara dos Deputados incumbida de acompanhar e avaliar os desdobramentos do rompimento de barragem na região de Mariana (MG).

 

Desafios pesados

Filho do senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE), que foi ministro da Integração Nacional (2011-2013) na primeira gestão da presidente Dilma Rousseff (PT-RS), Coelho Filho pretendia ir para a mesma pasta que foi muito importante para seu pai antes da eleição de 2014. Mas acabou tendo de assumir o MME.  Terá de enfrentar, por exemplo, as expectativas da Eletrobrás, que investiu cerca de R$ 37 bilhões em concessões de energia elétrica sem garantia de renovação, além da revisão do contrato de cessão e a licitação de blocos exploratórios do pré-sal. Sem falar no desafio de expandir em 25 mil a 31,5 mil megawatts o sistema nacional de geração de energia, com a previsão de contratos no valor total de R$ 42 bilhões até 2018 e mais R$ 74 bilhões posteriormente, e, ainda por cima, com as denúncias de propinas referentes à usina hidrelétrica de Belo Monte e a seu antecessor na pasta, Edison Lobão (PMDB-MA) . Na semana passada, ao apontar com mais detalhes esse cenário em seu blog e também no site Pernambuco Já, o jornalista Magno Filho foi impiedoso com o título do post “Coitado de Fernando Filho” (16/5).

 

Governo atrasa nomeação no Inpe

Há seis meses o MCTI instaurou um comitê de busca para organizar a lista tríplice com a indicação de sucessores do atual diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de São José dos Campos (SP). A lista foi enviada para a pasta em abril, mas ainda não houve a nomeação, estendendo a permanência do atual diretor, Leonel Perondi, além do mandato encerrado em 14 de maio. Direto da Ciência pediu ontem para o MCTIC  uma explicação para esse atraso, mas não teve resposta. E reiterou o pedido da íntegra do tal parecer jurídico que teria servido de subsídio para manter por mais de um ano no cargo o atual diretor do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), de Campinas, cujo mandato se encerrou em 17 de maio do ano passado, como mostrou este site na segunda-feira (“Ministério da Ciência mantém há um ano diretor de centro com mandato encerrado”, 23/5).

 

Nova retratação de artigo

Após tentar sem sucesso, na Justiça dos Estados Unidos, obrigar a revista Diabetes a remover quatro “expressões de preocupação” (EOCs) contra estudos de sua autoria e de outros colegas, o endocrinologista Mario José Abdalla Saad,  professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, contabilizou a sexta retratação de artigo científico com sua participação, informou ontem, terça-feira (24/5), o blog Retraction Watch. Além dos quatro papers da Diabetes, que acabaram sendo retratados pela revista, editada pela Associação Americana de Diabetes, também tiveram o mesmo fim dois outros trabalhos publicados em outro periódico, o PLoS Biology. Uma investigação realizada pela Unicamp no ano passado concluiu não ter havido má-fé por parte de Saad e seus colegas nesses estudos, cujas  EOCs já haviam sido noticiadas no Brasil pelo Estadão pela Folha. Na segunda-feira (23/5), uma reportagem da revista The Scientist reproduziu trecho de um e-mail de Paul Brookes, do Centro Médico da Universidade de Rochester, nos EUA, no qual afirmou que não acredita que os erros de Saad e sua equipe tenham ocorrido por descuido.

 

Resposta do autor

Direto da Ciência entrou em contato com o professor Mario José Abdalla Saad. Em resposta por e-mail, ele reconheceu falhas nas imagens nos seis artigos e reiterou não só o caráter não intencional desses erros, mas também que a polêmica foi fruto de interesses de pessoas da Unicamp que, segundo ele, agiram difamatoriamente para prejudicar sua candidatura a reitor da universidade e ainda tentam impedir que ele volte a se candidatar ao cargo. Em relação à investigação realizada pela universidade, ele afirmou:

As conclusões foram unânimes em dizer que a maior parte das denúncias era mesmo falsa, e que os pequenos erros eram involuntários, não afetaram os resultados e poderiam ser corrigidos com erratas ou corrigendum. Todas as conclusões das comissões mostram que nunca houve manipulação de imagem ou fraude, e que os artigos são íntegros cientificamente. Todos os artigos retratados são completamente reprodutíveis e foram citados centenas de vezes na literatura, confirmando a veracidade dos resultados.
(Clique aqui para ler a íntegra da resposta.)

 

Rotulagem de transgênicos

Mereceu finalmente ontem uma nota da assessoria de imprensa do STF a decisão do ministro Edson Facchin, do dia 10, que manteve o julgamento do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), contestado pela União —, que tornou obrigatória a indicação no rótulo de alimentos que utilizam ingredientes geneticamente modificados, independentemente da quantidade presente. A decisão passou despercebida pela imprensa desde e foi noticiada somente pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e pelo site jurídico Migalhas, como informou Direto da Ciência na segunda-feira (23/5). Vamos ver agora se isso se torna notícia, da mesma forma forma como o estudo ue concluiu não haver evidências de que os alimentos transgênicos ofereçam risco para a saúde, publicado pelos Proceedings da Academia Nacional de Ciências dos EUA.

 

Desprezo acadêmico pela divulgação

Escapou de nosso radar na semana passada o post “Preconceito acadêmico com os divulgadores” (16/5), de Aline Ghillardi, no blog Colecionadores de Ossos, do ScienceBlogs Brasil. Professora na Universidade Federal de Pernambuco, bióloga e mestre em ecologia pela Universidade Federal de São Carlos e doutora em geologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, a pesquisadora-blogueira aborda o desprezo por pate de muitos acadêmicos pela atividade de colegas que se empenham em divulgar ciência para o público geral. Recomendo a leitura do post de Aline, do qual extraio o seguinte aperitivo.

Meu recado final é: nós, cientistas, precisamos valorizar mais os nossos comunicadores (de todas as mídias). Precisamos valorizar a comunicação. A comunicação de ciência feita por cientistas tem que ter mais espaço. A ciência evoluiu. Não devemos ficar presos ao século XVIII. A ciência não é mais uma conversa restrita a um minúsculo círculo de pessoas abastadas. Não é mais questão de status. A ciência é uma questão que diz respeito a todos.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

 

Agência Gestão de CT&I

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

G1

O Globo

InforMMA

Inside Higher Ed

Jornal da Ciência (SBPC)

MCTI – Notícias

Observatório do Clima

Pesquisa Fapesp

Retraction Watch

Scholarly Open Access

O Tempo

 

Na imagem acima, o ministro das Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, deputado licenciado (PSB-PE), em sessão da Câmara dos Deputados em 19 de fevereiro deste ano. Foto: Gustavo Lima/Agência Câmara


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