‘Pátria desmatadora’ voltou a atacar nos três últimos meses de Dilma

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

A partir de agosto do ano passado, quando foi anunciado o aumento do desmatamento na Amazônia brasileira no período de agosto de 2014 a julho de 2015 em relação ao período anterior, as taxas mensais dessa devastação caíram até janeiro deste ano, exceto em dezembro. Invertendo essa tendência de melhora, os números do corte raso nas florestas da região voltaram a aumentar em fevereiro, março e abril,  os três últimos meses anteriores ao afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT-RS), segundo relatório divulgado na terça-feira (30/5) pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). No gráfico, as últimas três barras vermelhas ilustram essa reversão não só em relação à tendência de queda nos seis meses anteriores, mas também em comparação ao mesmo período em 2015.

Taxas mensais de corte raso em florestas na Amazônia Legal
(agosto/2014 a abril/2015)

 

Gráfico do desmatamento de agosto de 2014 a abril de 2016 na Amazônia Legal Imagem: Imazon/SAD.

Gráfico: Boletim do Desmatamento da Amazônia Legal (abril de 2016) SAD, Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

 

Dados são subestimados

Nesse período de agosto de 2015 a abril de 2016, que corresponde aos nove primeiros meses do calendário oficial do monitoramento anual do desmatamento, o corte raso total estimado pelo SAD na Amazônia Legal atingiu 1.200 km2. A “boa notícia” é que esse acréscimo significa uma redução de 28% em relação ao período anterior, quando o desmatamento acumulado atingiu 1.657 km2. Na verdade, esses dados são subestimados, pois o SAD é um sistema de monitoramento em tempo real, muito mais voltado ao alerta, diferentemente do Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de São José dos Campos (SP), que fornece os dados consolidados definitivos, que neste ano devem ser anunciados após agosto.

 

Manobras eleitorais

Exceto por uma alta em 2008, as taxas anuais de corte raso na Amazônia tiveram quedas sucessivas no período de 2005 a 2012. Depois de as gestões de Lula e Dilma comemorarem com razão essa sequência de resultados que teve reconhecimento nacional e internacional, os números da devastação voltaram a aumentar. Para piorar, em 2014 o governo federal atrasou a divulgação dos dados, deixando-a para depois das eleições, o que rendeu à presidente Dilma justas acusações de ocultação dos dados devido a interesses eleitorais. Além da retomada do aumento em 2013-2014, o mesmo aconteceu no período seguinte, de 2014-2015.

 

Pódio dos desmatadores

Despercebido pela chamada grande imprensa, o alerta do SAD foi noticiado pelos portais de poucas ONGs, como o da Ecoamazônia, que destacaram o fato de Rondônia ter sido o estado que mais desmatou em abril, correspondendo a 30% do total, seguido por Mato Grosso (28%), Pará (21%) e Amazonas (20%). O relatório do SAD, por sua vez, destacou os municípios “campeões” do estrago, com a “medalha de ouro” para a cidade com o sugestivo nome de Novo Progresso (PA), com 17,1 km2 desmatados, “prata” para Colniza (MT), com 14,1 km2, e “bronze” para Candeias do Jamari (RO), com 11,5 km2.

 

Devastação é ainda maior

Os dados mais recentes do sistema Prodes, aquele que consolida as taxas anuais, mostram que a área total de floresta nativa completamente eliminada na região chegou em agosto de 2015 a km2, pouco maior que a da Bahia e quase a metade da do Amazonas. Infelizmente esses números não correspondem a toda a devastação da Amazônia, seja por considerarem apenas a área de floresta — isto é, não incluem cerrados e outros tipos de vegetação nativa —, seja por contabilizarem somente as superfícies onde houve eliminação total da cobertura vegetal por meio de corte raso. Esses dados não levam em consideração áreas muito degradadas pela extração seletiva de madeira e também por incêndios ocorridos anteriormente. O relatório do SAD também contabilizou esse tipo de estrago, mas esse assunto ficará para outra vez.

 

Sindicato quer adiar escolha no Inpe

Direto da Ciência tem reiterado nos últimos dias a demora do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) na escolha de um dos nomes da lista tríplice para o cargo de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de São José dos Campos (SP). A pasta, que recebeu a lista em 27 de abril, recebeu na terça-feira (31/5) um pedido para “voltar o filme” nesse processo. A reivindicação foi protocolada pelo Sindicato dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Vale do Paraíba (SindCT). O ofício do sindicato reclama que a composição do comitê de busca instituído pelo MCTI teve “acentuado viés privatista” e que o trabalho do grupo foi “um processo fechado, conduzido sem a participação da comunidade inpeana”.

 

Críticas ao comitê de busca

O documento do SindCT afirma também que entre os membros do comitê de busca que elaborou a lista tríplice “não figuram especialistas com contribuições notáveis na área espacial ou na área de aplicações de sistemas espaciais”. No entanto, justamente o integrante do grupo mais criticado pelo sindicato é o presidente do Parque Tecnológico de São José dos Campos, Marco Antonio Raupp, que não pôde atender  Direto da Ciência no início desta manhã porque estava na mesa de um evento. Apesar dessa afirmação desqualificadora, Raupp não só foi ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação (2012-2014) na primeira gestão Dilma e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, mas também foi presidente da Agência Espacial Brasileira (2011-2012) e diretor-geral do próprio Inpe (1985-1989).

 

“Excesso de antecipação”

Curiosamente, ao contrário dos protestos frequentes contra processos acelerados de escolha de nomes na sucessão de dirigentes, o ofício do SindCT reclama da “antecedência com que se deu a deflagração do processo sucessório: quatro meses antes do término do mandato do atual diretor”. A reclamação se refere à portaria do então ministro Celso Pansera (PMDB-RJ), que em 21 de janeiro instaurou o comitê de busca. O estatuto do Inpe, em seu seu artigo 8º, estabelece que o comitê técnico científico do órgão deve enviar para o ministro o pedido de instauração do comitê com seis meses de antecedência ao encerramento do mandato do diretor.

 

Delírios direitopatas

Na quarta-feira, o Instituto Liberal passou por um enorme e constrangedor vexame por ter abrigado em seu site a publicação do tresloucado texto opinativo “A Complicação como Método Ideológico”, de autoria de Lucas de Moura Lima. Além de expor a completa ignorância desse autor sobre os temas que ele se atreveu a comentar, o “artigo” também evidenciou um desenfreado enviesamento ideológico de extremo conservadorismo. Em meio à onda crescente de deboches na internet, o instituto acabou removendo o texto e publicando uma retratação com alegações também constrangedoras. Passada a torrente de piadas sobre o infeliz episódio, o jornalista de ciência e blogueiro Carlos Orsi aproveitou o caso como elemento de reflexão em seu post “Ciência como biscoito da sorte”, destacando o sintomático apelo à falácia naturalista e à da inevitabilidade. Recomendo a leitura desse post, do qual extraio o seguinte aperitivo.

Um ponto curioso nesse caso é que a acusação específica — de que determinado ramo da ciência não passa de uma espécie de ficção criada para sustentar certas pressuposições políticas e valores — é algo que já foi (e, em certos círculos, ainda é) muito mais fácil de se encontrar nas esquerdas, principalmente em torno de questões de biologia e saúde.

 

Ibama sob nova direção

O vice-presidente em exercício Michel Temer assinou ontem decretos de exoneração da presidente do Ibama, Marilene Ramos — que passa ser diretora do BNDES —, e de nomeação de sua sucessora, Suely Mara Vaz Guimarães de Araújo, consultora legislativa da Câmara dos Deputados desde 1991, atuante nas áreas de meio ambiente e direito ambiental, urbanismo e direito urbanístico, segundo seu currículo Lattes. Formada em arquitetura e urbanismo e em direito, a nova dirigente do órgão tem mestrado (2007) e doutorado (2013) em ciência política pela Universidade de Brasília é pesquisadora colaboradora plena no Instituto de Ciência Política da UnB.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

Agência Fapesp

Agência Gestão de CT&I

Carlos Orsi

Envolverde

Época

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

G1

Gene Repórter

O Globo

InforMMA

Jornal da Ciência (SBPC)

MCTI – Notícias

The New York Times

Observatório do Clima

Pesquisa Fapesp

Retraction Watch

Scholarly Open Access

Science

Valor Econômico

 

Na imagem acima, municípios mais desmatados na Amazônia Legal em abril de 2016, em mapa elaborado pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Imagem: Imazon/SAD.


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