Blogs e redes sociais expõem absurdos de reunião de defensores da ‘pílula do câncer’

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

A imprensa deixou passar uma grande oportunidade para mostrar à opinião pública a fragilidade científica por trás do movimento de promoção da fosfoetanolamina sintética, a chamada “pílula do câncer”, cuja liberação independentemente de registro sanitário havia sido aprovada pelo Congresso e sancionada pela presidente Dilma Rousseff (PT-RS), mas foi posteriormente barrada pelo STF. Felizmente, jornalistas e blogs especializados em ciência registraram absurdos e opiniões completamente desprovidas de suporte científico apresentados na reunião de defensores da liberação desse produto, realizada no centro da capital paulista no sábado (11/6).

 

‘Realidade paralela’

Em seu blog pessoal, com post “Alice no País da Fosfoetanolamina”, o jornalista Carlos Orsi fotografou slides apresentados durante o Seminário Fosfoetanolamina em Debate, patrocinado pelo Sindicado dos Farmacêuticos no Estado de São Paulo. Para não deixar dúvidas, ele capturou imagens de slides apresentados por acadêmicos defensores desse produto. Direto da Ciência recomenda a leitura desse post, do qual foi extraído o trecho a seguir.

Neste mundo paralelo, onde as leis mais fundamentais da biologia e da fisiologia divergem das do nosso Universo, o câncer não é causado por mutações genéticas, mas pela mudança na acidez do citoplasma; as células cancerosas são anaeróbicas, mas precisam de oxigênio para viver; e uma só molécula, fosfoetanolamina sintética de São Carlos — e só a de São Carlos — , é capaz de levar essas células ácidas que não respiram, mas precisam de oxigênio, ao suicídio.

 

Estranhas no ninho 1

Sempre atenta às novidades sobre o tema da “fosfo”, a jornalista Ruth Helena Bellinghini postou em seu perfil no Facebook a fotografia que tirou do slide de uma das apresentações a que se refere Orsi (foto acima), afirmando: “Para provar que não tive alucinação… Sim, eu vi esse slide hoje…”. Em seu comentário a esse post, a bióloga Natalia Pasternak Taschner, doutora em Microbiologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP e uma das autoras do blog Café na Bancada, qua também estava lá, afirmou:

(…) um professor do [Instituto] Butantan observava tudo isso impassível, segundo ele mesmo “cada um no seu quadrado, eu não tenho nada com isso”. Ele não é responsável pela propagação de conceitos absurdos, certo? O fato de ele estar ali calado, dividindo a mesa com essas pessoas que falam que câncer é uma doença lipídica não tem problema nenhum…

 

Estranhas no ninho 2

No fechamento desta coluna, o Café na Bancada acabava de publicar o post de Ruth “Uma atéia no culto da fosfoetanolamina”. Especializada em saúde e ciência e ex-repórter do Grupo Estado, Ruth foi bolsista do Marine Biological Lab, do MIT, e tem feito marcação cerrada sobre o assunto da “pílula do câncer”. Segundo Natália, haverá outros textos sobre o assunto no blog..

 

Contra os exames

Na imprensa, somente o Estadão abordou a realização do seminário, mas apenas como contexto da reportagem “Defensoria quer anular teste da ‘pílula do câncer'”, da jornalista Fabiana Cambricoli, que entrevistou Daniel MacedoPereira Alves , defensor público federal no Rio de Janeiro, que participou do evento. Ele afirmou que exigirá por meio da Justiça a anulação de exames feitos a pedido do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação por não terem usado a fosfoetanolamina produzida pela USP de São Carlos, mas pela Unicamp.

 

Sem sensacionalismo

Longe dessa polêmica, a edição on-line da revista Pesquisa Fapesp mostra um outro medicamento destinado ao combate do câncer e que percorreu caminhos consistentes. A reportagem “Apresentado mecanismo de ação do fármaco P-Mapa” informa que foi anunciado pela primeira vez em detalhes o mecanismo de ação de um composto em fase final de desenvolvimento que se mostrou capaz de ativar o sistema imune de várias formas, de modo a destruir tumores e também microrganismos causadores de doenças infecciosas, segundo experimentos no Brasil e nos Estados Unidos.

 

Livro conta a história

A apresentação foi feita na terça-feira (8/6) por Wagner Fávaro, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no seminário internacional na sede da Fapesp (Fundação deAmparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). A reportagem indicada acima é do jornalista e pesquisador Carlos Henrique Fioravanti, autor de “A Molécula Mágica: A luta de cientistas brasileiros por um medicamento contra o câncer” (Editora Manole, 2016, 255 págs.), um excelente e envolvente livro-reportagem sobre a história do desenvolvimento do fármaco P-Mapa.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

Agência Fapesp

Agência Gestão de CT&I

Capes – Notícias

Carlos Orsi (blog pessoal)

ComCiência (Labjor/Unicamp)

Época

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

G1

O Globo

Jornal da Ciência (SBPC)

MCTI – Notícias

Nature

The New York Times

Pesquisa Fapesp

Retraction Watch

Na imagem acima, slide apresentado durante o Seminário Fosfoetanolamina em Debate, realizado em São Paulo, na sexta-feira (11 de junho). Foto: Ruth Helena Bellinghini/arquivo pessoal (editada).


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29 Comentários

  1. Maurício Tuffani said:

    Fosfo na Lava Jato

    Uma notícia interessante foi publicada no domingo pelo jornal Correio Braziliense, envolvendo com o senador Gim Argello (PTB-DF), réu na operação Lava Jato, preso por corrupção, concussão, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Está na coluna desta quarta-feira.

  2. Maurício Tuffani said:

    Senhor Samuel Galvão,

    Um de seus comentários foi rejeitado não só por fazer propaganda, mas também por ela ser irresponsável, incitando ao uso indiscriminado da fosfoetanolamina, inclusive para pacientes não terminais.

    Nenhum comentário foi nem será permitido em Direto da Ciência fazendo recomendações positivas ou negativas de uso de qualquer medicamento.

    Atenciosamente,

    Maurício Tuffani
    Editor
    Direto da Ciência

    • Samuel Tavares said:

      Vários blogs passaram a receber subvenções mensais da Camorra do Câncer. Não quero crer que o seu esteja na listagem. Mesmo porque dizem que a concorrência esta grande.

      • Maurício Tuffani said:

        Senhor Samuel Galvão ou Samuel Tavares,

        Prove a acusação que acabou de fazer. Aponte nomes, de quem paga e de quem recebe, mas com provas. Terei satisfação em publicar provas concretas, doa a quem doer. Faça isso ou será devidamente apontado como divulgador de informações acusações falsas.

        Atenciosamente,

        Maurício Tuffani
        Editor
        Direto da Ciência

  3. Samuel Galvao said:

    Os técnicos do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTI) não souberam sinterizar a FOSFO-s. Essa “síntese” foi feita pela “turma da Unicamp” a pedido do MTCI. A “turma da Unicamp”, como não soube fazer a síntese pelo método dos pesquisadores da USP/Instituto de Química de São Carlos, fez uma outra síntese, com outra temperatura nos reagentes, outro fluxo de nitrogênio, outra quantidade de álcool na cristalização. Não deu outra: a síntese não prestou. Foi usado o método de síntese de CHEBOULIER. Por esse método um dos subprodutos gerados é o elemento químico BÁRIO, que não consta na FOSFO-s sintetizada pelos pesquisadores do grupo do Dr Gilberto Chierice (USP/Instituto de Química de São Carlos), mas apareceu na síntese usada pelo MTCI feita pelo pessoal da Unicamp. (Veja o Bário: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2016/05/1776877-pilula-do-cancer-e-reprovada-mais-uma-vez-em-novos-testes.shtml ou https://www.facebook.com/samuelsuntuosogalvaode.tavares/posts/247469502300332 – veja o BÁRIO lá no final indicado por uma seta; abra a foto para você poder ver o BÁRIO)

  4. Samuel Galvao said:

    Quem sabe destas pessoas e de suas histórias não se deixa engambelar: enfermeira canadense Renè Caisse (com o seu ESSIAC); o norte-americano Henry Hoxsey, com o seu preparado herdado de seu pai; o engenheiro brasileiro Dr Sebastião Corain (com o seu Caboncellox, 1955), e o Dr Burzynski (com os seus antioblastons), este ainda lutando com o FDA, em Huston, no Texas, este último curando todos os tipos de cânceres – assim como os demais o fizeram. (http://www.burzynskiclinic.com/)
    Disponíveis nas lojas do ramo, mas também constam na REDE, procure a assista a estes filmes:

    “CANCRO: AS CURAS PROIBIDAS” (https://m.youtube.com/watch?v=J4XfoKGO2GI) ou (https://www.facebook.com/samuelsuntuosogalvaode.tavares/posts/212155062498443)
    e
    “BURZYNSKI, o filme – O Cancer é um grande negócio.” (https://m.youtube.com/watch?v=jgVmRdLiKR8) ou (https://www.facebook.com/samuelsuntuosogalvaode.tavares/posts/188447011535915)

    Você entenderá o que está acontecendo.

    • Maurício Tuffani said:

      Senhor Samuel Galvão,

      Nem eu nem o senhor conhecemos todas essas pessoas e, muito menos, todas as suas histórias. A lógica não permite tirar generalizações de casos positivos particulares, mas permite fazer refutações a partir de casos negativos. Além disso, pela sua argumentação, o senhor parece não ter lido as respostas aos comentários anteriores.

      Atenciosamente,

      Maurício Tuffani
      Editor
      Direto da Ciência

  5. Giseli Santos said:

    E eu fico aqui me perguntando: por quê será que o hospital SÍRIO LIBANÊS encaminhava “costumeiramente” pacientes com câncer, à USP de São Carlos, para pegar fosfoetanolamina sintética? Em resposta, este hospital informou que assim o fez porque, às vezes, o paciente precisa de tratamentos alternativos e o hospital respeita o direito de escolha do paciente. Interessante… e eu ainda me pergunto: quanto custa uma linha nas grandes revistas deste País? Quanto custa o minuto nas maiores emissoras de televisão desse País? E já dedicaram páginas, capas, meias capas e, quanto às redes de televisao, a cada dia, horas, para tentar descredibilizar a fosfoetanolamina sintética… interessante. Ou essas mídias estão realmente muito preocupadas com os pacientes com câncer e estão abrindo mão de ganhar dinheiro atacando a fosfoetanolamina de graça (coisa que nunca vi fazerem contra o cigarro que, CIENTIFICAMENTE COMPROVADO, causa câncer, infarto, AVC, etc. ou alguém está investindo pesado contra a fosfoetanolamina sintética. Quem teria interesse em investir tanto dinheiro para descredibilizar uma substância ineficaz? Um milagre? Uma pílula que tem efeito placebo? É no mínimo contraditório tendo em vista que estas mídias sobrevivem de ANÚNCIOS…

    • Maurício Tuffani said:

      Senhora Giseli Santos,

      Seu comentário não passa de uma completa distorção dos fatos.

      Não está havendo uma “campanha da mídia” contra a fosfoetanolamina, inclusive porque há parte irresponsável da imprensa fazendo campanha a favor. Aliás, ninguém que entende do assunto é contra pacientes terminais recorrerem a qualquer tratamento alternativo. O que grande parte da imprensa fez fazendo foi criticar primeiro a Câmara dos Deputados e depois o Senado, por aprovarem, e em seguida a presidente da República por sancionar uma lei liberando, independentemente de registro sanitário, esse produto sem qualquer preocupação de ordem científica e sem qualquer previsão de acompanhamento.

      Muito diferente foi a atuação do Parlamento italiano em 1998, ao permitir a liberação do chamado “coquetel Di Bella”, ou “Multiterapia Di Bella”, mas obrigando os pacientes e seus respectivos médicos a seguirem todo um rigoroso protocolo de controle e pesquisa. (Ver “Na Itália, ‘pílula do câncer’ tem adeptos após duas décadas de fracassos em testes”, 1/4/2016).

      Quanto ao que a senhora diz que “nunca” viu fazer contra o cigarro, isso não passa de desconhecimento ou falta de iniciativa de buscar a informação. Tomando apenas eu como exemplo para mostrar que não é que a senhora diz, só não tratei do assunto em Direto da Ciência, lançado em 31 de março, por falta de fato científico novo e relevante. Mas em 2014 e no ano passado, em meu blog anterior, na Folha, fui amplamente atacado por defensores do tabaco contrários a campanhas de conscientização e prevenção do uso dessa substância. Esses ataques foram o motivo de eu ter escrito “O lobby das falácias fumageiras” (21/9/2015). Veja também “Apoio de álcool, fumo e agrotóxicos espanta eleitor, diz pesquisa” (3/10/2014) e e “Estudo mapeia testemunhos médicos pagos pela indústria do tabaco” (2/9/2015).

      Recomendo que informe-se melhor antes de fazer insinuações de envolvimento com “alguém [que] está investindo pesado contra a fosfoetanolamina sintética”.

      Atenciosamente,

      Maurício Tuffani
      Editor
      Direto da Ciência

  6. Artur said:

    Se juntarmos as publicações científicas dos 6 pesquisadores da fosfoetanolamina ultrapassa o número de 1000! Enquanto a jornalista deve nem ter um lattes que lhe causa vergonha( se tiver) e quer palpitar acerca de um assunto em que ela é claramente desconhecedora! Se fosse uma jornalista com gabarito estaria trabalhando em algum periódico sério como uma “Scientific Amaerican” ou até mesmo uma “Superinteressante”( que tem um caráter mais popular, mas tem alguma chancela factível de existência)! Em suma, quer fazer holofote pra si mesma em cima de pesquisadores reconhecidos! Dr Gilberto, que ela tenta desqualificar é reconhecido internacionalmente, tendo revolucionado o tratamento em ortopedia por meio de uma descoberta sua que é usada em todo o mundo! Essa jornalista quer apenas aparecer e sair do ostracismo que está afogada!

    • Maurício Tuffani said:

      Senhor Artur,

      A jornalista Ruth Bellinghini é altamente respeitada no meio acadêmico. Se o senhor tivesse a curiosidade de fazer uma rápida pesquisa na internet antes de propalar seus simplórios despautérios, teria descoberto que ela fez parte do selecionado grupo de jornalistas que foram bolsistas do programa Knight no MIT, nos Estados Unidos.

      Em vez de contestar as afirmações da jornalista, o senhor reduziu toda a sua argumentação às opções de, por um lado, tentar exibir as credenciais dos pesquisadores que defendem a fosfoetanolamina, e, por outro lado, atacar inutilmente a reputação dela. No primeiro caso, configurou-se o expediente que em lógica se chama falácia do argumento da autoridade. No segundo, a falácia do argumento ad hominem.

      Em vez de rejeitar seu comentário, preferi liberá-lo — já que o senhor não será pessoalmente submetido a esse vexame porque não se dispôs a se apresentar com nome completo — apenas para mostrar um tipo de argumentação que não é adequada a este blog. Obrigado por servir de contra-exemplo.

      Maurício Tuffani

      • Naherty Estevam said:

        Se fosse uma jornalista tão boa, não precisaria escrever um texto tão lamentável, onde não há um único argumento, mas meramente a desqualificação rasteira e satanização dos que pensam diferente. Lamentável a postura de vocês, tão ou até mais anti-científica que a de alguns defensores da fosfo.

    • Pedro Alvares Cabral de Souza e Santos said:

      Sr. Artur,
      O Dr. Gilberto Chierice não tem e nunca teve reconhecimento internacional por simplesmente não falar inglês nem nunca ter frequentado congressos internacionais, e muito menos ainda por ter o trabalho cientifico dele como sendo reconhecido internacionalmente.

      Saudações bem informadas,

  7. Rosiana Lima said:

    Sra Ruth Helena Bellinghini, estou aqui não para contestar a sua matéria a respeito do seminário sobre a fosfoetanolamina, mas para lhe deixar 2 perguntas, para a Sra e para aqueles que a seguem, afinal mal lembro das aulas de ciência no antigo primeiro grau.
    Seguem as questões:
    1º -) Se a Sra tivesse com algum parente próximo (aquele parente que você ama acima de qualquer coisa) e recebesse a notícia que ele tem um câncer, e que após todas as tentativas de tratamento, não havia mais nada a ser feito, a não ser levar para casa e aguardar a morte chegar. Como disse o Dr. Daniel no seminário, se soubesse que o coco do cavalo da India salvaria aquele seu ente querido, o que você faria? Levando em consideração a sua falta de tempo, afinal o câncer não espera.
    2ª-) Se essa substancia chamada fosfoetanolamina está causando tanto “auê”, se estão oferecendo milhões de dólares pela patente, se não existe toxidade, diferente de tantos outras drogas liberadas pelos órgãos públicos. Porque você acha que não podemos tentar a fosfo se já estamos desenganados?
    Ah, e para finalizar, estive no seminário e muito me chocou ao vê-los não levantar na hora da homenagem feita aos pacientes oncológicos que se foram, se vocês não acreditam que essa substância possa ser a cura do câncer, mesmo assim ainda tem o meu respeito, é direito de vocês não acreditarem, mas naquele momento levantar é dizer que mesmo não acreditando tem respeito, é o mínimo que se espera de pessoas de boa índole, de bom coração. Desculpe o desabafo.

    • Ruth Helena Bellinghini said:

      Olá Rosiana. Esse argumento do “vc não tem câncer, vc não tem parente com câncer, por favor, é apelativo ao extremo. Câncer não é doença rara, então todo mundo conhece alguém que tem, teve ou terá. Então vamos lá. Meu irmão tem um carcinoma de pâncreas T4 que parou a responder á quimo, bem como minha grande amiga Patrícia. Minha amiga Érica está às voltas com um glioma, só para citar os próximos, muito próximos, em fase terminal. Não vou listar os amigos e conhecidos em várias fases de tratamento, nem os curados. Nenhum deles tomou ou vai tomar fosfo. Aliás, minha amiga Patricia tomou (o de S Carlos) por meses, sem nenhum efeito Em segundo lugar, reconheço o direito de o paciente tentar o que bem entender, babosa, bicarbonato, cocô de cavalo ou xixi de gato DESDE QUE não exijam aval do Estado para isso. E é isso que os fosfopesquisadores exigem: aval do Estado sem evidências científicas de efeito, mecanismo de ação, efeitos colaterais, farmacodinâmica e tudo que se exige de um remédio.
      Em segundo lugar, ninguém está oferecendo milhões pela fosfo ao contrário do que eles dizem. Veja, big pharmas acompanham de perto todo tipo de estudo e só oferecem dinheiro e muito quando algo é realmente promissor. E algo testado (com evidências) apenas em camundongos não é promissor a ponto de atrair atenção. Os estudos do grupo publicados em revistas internacionais tiveram baixíssimo impacto. Para comparação, o Scripps La Jolla recentemente publicou estudo de grande impacto, com técnica inovadora e, no dia seguinte todas as farmacêuticas estavam atrás deles (que rejeitaram ofertas miliionárias para continuar suas pesquisas ao ponto de ter evidencias sólidas de que o método funciona (para leucemias e linfomas). Vamos deixar outra coisa clara aqui: as duas patentes de fosfo ainda são provisórias, como vc pode confirmar na página do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), ou seja, não deles em definitivo. Além disso, como vc sabe, a fosfo foi desenvolvida na USP e, pelo estatuto da USP, ele é dona de 30% da patente. Eu conversei com os especialistas do INPI e eles me confirmam que as duas patentes tem irregularidades jurídicas sérias, então sequer se sabe se serão concedidas em definitivo. Ou seja, a qualquer momento a USP pode exigir na Justiça a parte dela. Foi esse o motivo de a Fioruz exigir “cessão de direitos patentários”, como disse Daniel Macedo, mas não dos pesquisadores, da USP.
      E me desculpe, tenho maior respeito por pacientes de todo tipo e de toda doença, mas não vou me levantar “pela liberação da fosfo” e “pelos criadores da fosfo”. Grandes cientistas, Rosiana, publicam dados, não perdem dados de pesquisas clínicas e, principalmente, não ocultam os casos em que os pacientes morrem. Abraços.

    • Maurício Tuffani said:

      Senhora Rosiana,

      Antes de mais nada, agradeço por sua participação respeitosa em Direto da Ciência.

      Suas perguntas foram para a jornalista Ruth Bellinghinni “e para aqueles que a seguem”. Não sou um seguidor dela e, na verdade, duvido de que ela gostaria de ter “seguidores”. Mas entendi o significado de sua pergunta e que acabo sendo atingido por ela.

      Nos últimos anos passei muito tempo dentro de hospitais devido a problemas sérios de câncer, de diferentes tipos, em família, dos quais não darei detalhes aqui. No ano passado “morei” literalmente mais de três meses em hospital por esse motivo. Mas eu jamais me atrevi a sugerir tratamento com essa substância. Na verdade, ficando tanto tempo dentro de ambiente hospitalar, conheci histórias muito ruins sobre o uso desse composto.

      Atenciosamente,

      Maurício Tuffani
      Editor
      Direto da Ciência

      • Mariadocarmo Pinho said:

        Gostaria q o sr detalhasse mais. O q houve com os pacientes q usaram Fosfoetanolamina? Eles passaram mal ? Morreram por ter usado ?

        • Maurício Tuffani said:

          Senhora Maria do Carmo Pinho,

          O que eu fui informado diretamente dos familiares de duas pessoas que teriam usado a fosfoetanolamina é que elas haviam abandonado a quimioterapia convencional e teriam passado por melhora aparente, inclusive com redução de tumores. Mas o que eu vi foi apenas elas morrerem rapidamente após darem entrada na emergência hospitalar. No entanto, não me identifiquei como jornalista nem estava em condições atuar profissionalmente ou de anotar referências. Na condição de acompanhante em UTI por longos períodos, era somente sobre desfechos ruins, e em conversas na sala de descanso, que eu tinha condições de saber algo sobre o assunto.

          Atenciosamente,

          Maurício Tuffani
          Editor
          Direto da Ciência

          • Roberta Barros said:

            Pois é Sr. Maurício, resta-nos saber a ORIGEM da substância que foi fornecida à essas pessoas. Muitos casos vieram à tona sendo posteriormente descoberto que esses pacientes usaram a substância falsificada. Devemos ser cautelosos ao descreditar o trabalho dos pesquisadores refutando suas pesquisas com dados concretos e não baseando-nos em meros relatos, o que demanda um trabalho de minuciosa investigação.

            • Maurício Tuffani said:

              Senhora Roberta Barros,

              Com o devido respeito, o que a senhora propõe é uma completa distorção. A credibilidade de um medicamento não é algo como o direito individual fundamental à presunção da inocência, que é garantida a todas as pessoas até prova em contrário. A eficácia e a segurança devem ser postas em dúvida até que sejam devidamente comprovadas. Nunca houve por parte dos proponentes da terapia por meio da fosfoetanolamina sintética um trabalho consistente com essa finalidade.

              Atenciosamente,

              Maurício Tuffani
              Editor
              Direto da Ciência

  8. Marcia Nunes Oliveira said:

    Já que a Srª. RUTH HELENA BELINGHINNI, não se digna a responder no próprio blog em que publicou seu amontoado de virulências pergunto para ela nesta página que a cita como explica tantos casos de pessoas que tiveram redução em seus tumores tomando somente a fosfoetanolamina.

    • Ruth Helena Bellinghini said:

      Cara Marcia Nunes Oliveira,
      Em primeiro lugar, infelizmente não tenho acesso aos comentários porque sou autora convidada e o seu me foi repassado. Em segundo lugar, o que vc chama de “minha virulência” se deve á minha indignação ao ver e ouvir pessoas desfiando um rosário de hipóteses pseudocientíficas como se fossem fatos estabelecidos pela ciência, quando não são, são meras hipóteses que os próprios autores jamais se deram o trabalho de testar nesses 25 anos. Todos os trabalhos do grupo são meramente descritivos: pega-se a célula coloca-se x de fosfo e descreve-se o efeito, ou pega-se o camundongo, administra-se x de fosfo e descreve-se o efeito. E só. Não há na literatura científica internacional que dê peso à tese absurda de que a causa do câncer seja uma “disfunção lipídica” que cause mutação no DNA, Veja, se eu saio por aí afirmando que a Terra é quadrada, eu tenho de apresentar fotos, cálculos, equações, ir a congressos e, principalmente, enfrentar a argumentação de cientistas que não concordem comigo. Os fosfopesquisadores jamais fazem isso, recusam todos os convites para debater, mas não se negam a vender sua teoria improvável a leigos desesperados.
      A ciência, Márcia não se baseia em disse-que-disse e, em ciência, todos os relatos de cura, de redução de tumores ou remissão são exatamente isso, a não ser que extensamente documentados e que possam ser atribuídos exclusivamente à substância. Tanto é que o próprio grupo contratou a empresa RAGB Regulatory Affars Global Business, de Ribeirão Preto, para verificar se os relatos de melhora e remissão podem ser atribuídos exclusivamente à substância, o que a empresa mesmo considera improvável.
      Na literatura médica, vc vai encontrar vários estudos sobre o efeito placebo e, nos casos de efeito placebo em câncer, além da sensação de bem-estar, apetite e redução da dor, vai verificar que em 3% dos casos há redução dos tumores sólidos. Outro dado, Márcia, é que infelizmente lida-se no brasil com uma quantidade absurda de diagnósticos incorretos, motivo pelo qual os hospitais especializados costumam refazer exames: há erros graves tanto na classificação dos tumores, quanto no estadiamento, isso sem falar nos casos em que um tumor benigno é diagnosticado como câncer e vice-versa. Além disso, várias pessoas, antes de tomar a fosfo, fizeram tratamentos ditos convencionais e, em alguns casos, há, sim, um certo efeito residual. Outra coisa, a redução do tamanho de um tumor nem sempre significa que ele além de regredir, esteja inativo: exames de PET-CT, que não apenas mostram o tamanho do tumor, mas sua atividade, mostram que muitas vezes ele continua em intensa atividade.
      Outra coisa. Há vários relatos de mortes, que seguem o mesmo padrão. O paciente tomou fosfo, melhorou, passou um dos meses em estado geral excelente e pouco tempo foi a óbito. Nunca vi nenhum dos “pesquisadores” se referir a esses casos ou apresentar casuística (estatística) sobre casos de remissão, de estabilização do quadro e mortes.
      Abraços

  9. Maria do Carmo Pinho said:

    Realmente essa jornalista devia ter usado essa manhã gelada e ter ido aos hospitais e clínicas para conhecer de perto o tratamento e como nós sofremos com um veneno chamado de Medicaçao entrando no nosso corpo, fragilizando nossas veias e que não sabemos até Qdo aguentaremos ! 😷

    • Ruth Helena Bellinghini said:

      Eu vou sempre a hospitais que tratam câncer, inclusive para fazer cursos

      • Mariadocarmo Pinho said:

        No dia q fores como paciente saberá de que estou falando!!!

        • Rui Barbosa de Andrade e Silva Pinto said:

          Sra. Maria do Carmo,

          Fosfoetanolamina nunca curou nem nunca vai curar nenhum tipo de câncer. Trabalhos científicos de japoneses do fim dos anos 1970 demonstram que a fosfoetanolamina, em vez de inibir o crescimento de tumores, na verdade estimula o crescimento ainda mais.

          Saudações bem informadas,

*

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