Comissão criada por Eduardo Cunha ameaça avançar volta de carros a diesel

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Em meio a todas as urgências a serem resolvidas devido à presente crise política e econômica, a Câmara dos Deputados está às voltas com mais um retrocesso ambiental: o projeto de lei 1013/2011, do deputado Aureo (SD-RJ) que propõe liberar a fabricação e comercialização de veículos automotores leves movidos a óleo diesel, de uso rodoviário, em todo o território nacional, onde atualmente esse combustível só pode equipar modelos mais pesados. Duas comissões, a de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e a de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio, já haviam rejeitado a proposta. Apesar disso, por obra e graça do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi criada em setembro do ano passado uma Comissão Especial sobre Motores a Diesel para Veículos Leves. O relator, deputado Evandro Roman (PSD-PR), apresentou parecer favorável a essa iniciativa retrógrada, que tramita em caráter terminativo, poderá seguir para o Senado, sem passar por votação no plenário da Câmara, se for aprovada nessa comissão. [Acréscimos de correção às 13h.]

 

Ministros rejeitam

Sobre esse assunto, Sarney Filho não está sozinho na tradição de seu ministério. Ontem, segunda-feira (14/6), em um abaixo-assinado pedindo a rejeição do projeto de lei, encaminhado à Câmara dos Deputados pela ONG Observatório do Clima, além das adesões de cerca de 50 cientistas, médicos e líderes de entidades ambientalistas, estavam também as de cinco ex-ministros do Meio Ambiente: Izabella Teixeira (2010-2016), Carlos Minc (2008-2010), Marina Silva (2003-2008), José Carlos Carvalho (2002) e Rubens Ricúpero (1993-1994).

 

Custo e tecnologia

Segundo o deputado Áureo, seu projeto visa beneficiar não só os pequenos agricultores, que poderão oferecer  preços mais baixos para seus produtos, mas também os consumidores, devido ao custo menor do diesel, segundo a Agência Câmara Notícias. “Não temos condições de ser independentes no diesel e na gasolina, porém no álcool temos tecnologia de ponta que chega a ser exportada. Talvez possamos pensar no biodiesel”, rebateu o deputado Ricardo Trípoli (PSDB-SP).

 

Oba-oba e trambique

Nos últimos anos, proliferaram peças de divulgação otimistas da mídia automotiva promovendo a ideia de que a proibição do diesel no Brasil está na contramão do avanço da tecnologia. A imprensa que cobre o setor fez muito pouco para equilibrar esse oba-oba corporativo. Nas últimas semanas, porém, a cobertura de ciência e meio ambiente começou a pôr os pingos nos is. Em sua coluna na Folha, Marcelo Leite, que no dia 15 já havia publicado o artigo “Temer movido a diesel”, voltou carga duas semanas depois com “Carros a diesel? Nein, danke” (29/5), afirmando:

Na realidade, até os europeus já estão revendo suas políticas permissivas com o diesel em carros de passeio. E não é só por causa dos trambiques para passar nos testes de emissão que vieram à tona com o escândalo da Volkswagen, mas por causa da poluição.
Na última segunda-feira (23), o diário Frankfurter Rundschau trouxe uma reportagem apontando a Alemanha —sim, ela, a pátria do Partido Verde — como a campeã do continente em emporcalhamento do ar. E pôs a culpa no diesel.

 

Lobby atrapalha indústria

A Aprove Diesel, entidade criada há três anos por fabricantes de motores e componentes, como Bosch e Delphi, é a responsável pelo principal lobby a favor do projeto, como destacou a jornalista Giovana Girardi, que ouviu vários lados dessa polêmica e fez a melhor e mais completa reportagem sobre o assunto (“Projeto do carro a diesel no Brasil pode ser aprovado nesta semana”), antecipada em seu blog Ambiente-se no sábado (11/6), antes da edição dominical. A matéria destacou também a posição da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), contrária à aprovação do uso do diesel em automóveis. Segundo a reportagem,

O presidente da entidade, Antonio Megale, afirma que o País tem o etanol, menos poluente que os demais combustíveis. Além disso, alega que a indústria automobilística brasileira já investiu muito no desenvolvimento da tecnologia dos carros flex (rodam com etanol ou gasolina) e na melhora da eficiência energética de seus produtos.

 

Crítica ao Ciência sem Fronteiras

Imperdível o editorial “Ciência sem critérios”, da Folha de hoje, com base nos dados da reportagem “Ciência sem Fronteiras põe só 3,7% dos alunos em instituições ‘top'”, da jornalista Sabine Righetti, publicada ontem. A repórter destacou que apenas 4.084 dos 108.865 bolsistas corresponderam ao objetivo do programa de treinar brasileiros “nas melhores instituições e grupos de pesquisa disponíveis (…) de acordo com os principais rankings internacionais”. Entre esse e outros aspectos, o editorial destacou:

Graças às bolsas pródigas, mais brasileiros estudaram em Portugal do que nas 25 campeãs da lista THE [Times Higher Education]. Só para a Universidade de Coimbra — classificada no grupo das 401-500 melhores, enquanto a USP figura entre as 201-250 — foram 952 subsidiados, talvez por não dominarem outros idiomas.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

Agência Câmara Notícias

Agência Fapesp

Agência Gestão de CT&I

O Eco

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

G1

Gene Repórter

O Globo

Jornal da Ciência (SBPC)

MCTI – Notícias

Notícias Socioambientais

Observatório do Clima

Retraction Watch

SciELO em Perspectiva

SOS Mata Atlântica

Na imagem acima, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em entrevista em 13/4/2016. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil.


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4 Comentários

  1. Pingback: A Agência Internacional de Energia adverte: o PL do diesel faz mal à saúde – Observatório do Clima

  2. Kátia Mazzei said:

    Geralmente gosto muito das indicações do DC mas desta vez achei o editorial da Folha bem superficial, “só 3,7% nas 25 top?” Cadê o restante da análise? E qual a porcentagem de bolsistas entre 25 e 200 do ranking? Participei diretamente da seleção de dois bolsistas, um para os EUA e um para o Canadá, o resultado para ambos foi muito bom e o propósito de contribuir para o País poderá ser alcançado ao longo dos anos com o desenvolvimento de suas carreiras, se há desvios como gente fazendo turismo, naturalmente isto deve ser corrigido, o texto da Folha parece mais um resmungo do que uma crítica fundamentada. Dizer que a relação custo e benefício é ruim e que R$ 3,5 bilhões anuais é jogar dinheiro público fora, não é crítica é discurso birrento. Comentei aqui porque a Folha exige que a pessoa seja assinante para comentar e faz muitos anos que concluí que havia muito custo e pouco benefício para continuar assinante.

    • Maurício Tuffani said:

      Olá Kátia.
      Na minha opinião, só o fato de que um em cada cinco bolsistas vai para Portugal devido à deficiência com línguas estrangeiras já depõe contra o programa. Além disso, o percentual de 3,7% nas “top 25” corresponde a uma parcela muito pequena dos bolsistas para o objetivo a que se propôs o governo com o programa.
      Sobre os R$ 3,5 bilhões anuais, esse valor é 3,5 vezes maior que a parte do orçamento do MCTI contingenciada pela presidente Dilma Rousseff em março deste ano.
      Independentemente disso — e foi o que, devido à pressa, deixei de acrescentar à nota que publiquei —, a matéria de domingo que motivou esse editorial não foi a primeira divulgação sobre a fragilidade desse programa do governo. Basta ver a série de reportagens em 2014 de Ocimara Balmant e David Lira, do Ig.

    • André said:

      Eu não achei a reportagem da Folha superficial. Eu entendi que se só 3,7% foram para universidades top de ranking, significa que o restante foi para universidades não top, o que é contra a essência do programa que seria enviar gente para lugares mais adiantados. Além disso, chamar de “alunos top de potencial” gente que não consegue ser proficiente em uma segunda língua, e por isso ter que mandá-los a Portugal, a meu ver é o mesmo que rasgar dinheiro. Nada contra Portugal, mas se mandar 900 pessoas para um país sem nenhum prêmio Nobel recente não for malversação de dinheiro, aí o termo malversação é que precisaria ser redefinido. A propósito, se os 3,5 bilhões fossem aplicados a apenas 3500 alunos…daria para realmente escolher alunos top e investir 1 milhão em cada um, montante que seguramente a China investe menos (per capta) e ainda assim consegue excelência em algumas áreas.

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