A qualidade da ciência brasileira exige realmente a volta do MCTI?

NAGIB NASSAR,
Especial para o Direto da Ciência*


Em um artigo publicado em novembro de 2014, a prestigiada revista britânica Nature abordou alguns parâmetros e critérios para avaliar a produção científica de boa qualidade em 53 países.1 O estudo teve repercussão na imprensa,2 e, além de gerar críticas,3 apresentou uma situação constrangedora para pesquisadores em nosso país. No Brasil, a principal agência de fomento, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), valoriza na distribuição de recursos a quantidade de trabalhos científicos publicados, mas não considera o impacto dessa produção.4 Desse modo, muitos recursos são aplicados em projetos dirigidos por pesquisadores menos qualificados, sem potencial para gerar impacto ou contribuições científicas relevantes. O resultado disso é um grande número de artigos publicados que não têm expressão na comunidade cientifica internacional.5

Além da Nature, outras publicações e analistas internacionais também passaram a se preocupar com o conceito distorcido de valorização do número de publicações para usá-lo como indicador de produtividade acadêmica. Essa é uma tradição e também uma regra seguida pelo CNPq, levando a um processo que induz à queda de qualidade e favorece a desonestidade entre pesquisadores. Esse fenômeno faz com que a ciência brasileira se desenvolva conforme o relato da revista britânica, e de uma forma dramática e inquietante, com uma série de equívocos na distribuição de recursos por nossa principal agência de fomento.

O estudo da Nature nos surpreendeu ao mostrar que em 2013 o Brasil gastou US$ 30 bilhões em pesquisa e publicou somente 760 trabalhos científicos em periódicos de impacto, enquanto no mesmo ano o Chile dispendeu apenas US$ 2 bilhões e produziu 717 artigos nas mesmas publicações. Desse modo, nosso vizinho na América do Sul ficou na 30ª posição nesse mesmo ranking de países avaliados com base no critério de eficiência dos investimentos em ciência, no qual nós, gastando 15 vezes mais, tivemos resultado quantitativo pouco maior e acabamos ficando em 50º lugar num total de 53 nações.

Aqueles que afirmam a necessidade de o governo desfazer a recente fusão do ministério das Comunicações com o da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) se enganam ou fecham os olhos sobre a situação mostrada por observadores e analistas internacionais acerca do mau uso de nossos recursos e investimentos nos últimos anos. Tal aplicação inadequada aconteceu durante o período em que tivemos no Brasil esse ministério exclusivamente para a área de C&T. E isso não impediu nosso país de descer da 20ª para a 50ª posição na eficiência do uso de recursos, ficando entre os últimos no total de 53 que foram analisados.

É lamentável que o CNPq não tenha produzido nos últimos anos estatísticas sobre os recursos aplicados por meio de seus diferentes editais de pesquisa e sobre o rendimento desses investimentos na forma de trabalhos publicados em revistas de alto impacto. Somente um dos dirigentes do CNPq, o ex-presidente Carlos Aragão, em sua curta permanência no cargo, por menos de dois anos (2010-2011), se preocupou em elaborar essas estatísticas, inclusive propondo um plano para uma nova sistemática de avaliação, aproveitando recursos avançados de informática e a disponibilidade de consultores qualificados no exterior. Mas sua ideia foi enterrada pelo órgão depois que ele deixou o cargo.6

Muito mais do que a volta do MCTI, precisamos de boa administração dos recursos disponibilizados pelo governo e também de bom senso e responsabilidade ao usá-los. Um exemplo de distorção e desperdício a ser evitado é o programa Ciência sem Fronteiras, criado em 2011, que custou aos cofres públicos cerca de R$ 6,4 bilhões em seus quatro primeiros anos,7 mas trouxe poucos resultados satisfatórios.8 No entanto, entre os que pedem a volta do MCTI, raros são os que levantam a voz para criticar esse desperdício.

*NAGIB MOHAMMED ABDALLA NASSAR, agrônomo pela Universidade do Cairo (1958),
mestre em genética pela Universidade de Assiut (1965) e doutor em genética pela Universidade de Alexandria (1972), é professor emérito da Universidade de
Brasília. Na década de 1970 desenvolveu híbridos de mandioca que ajudaram a
salvar países da fome e são plantados em mais de 4 milhões de hectares no oeste e no leste da África. Recebeu em 2014 o Prêmio Kuwait International e o dedicou
integralmente ao apoio de pesquisas de jovens cientistas sobre mandioca na UnB
e à Fundação Nagib Nassar para o Desenvolvimento Científico e Sustentável.

Na imagem acima, fachada do edifício do antigo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Foto: Ascom/MCTI.

 

Referências

  1. “Nature Index 2014, Middle & South America”. Nature, 515, págs. 91-92, 12/11/2014.
  2. Gabriel Alves, “Gasto brasileiro com ciência é muito pouco eficiente, diz Nature, Folha de S.Paulo, 17/11/2014.
  3. Rogério Cezar de Cerqueira Leite, “Produção científica e lixo acadêmico no Brasil”, Folha de S. Paulo, 6/1/2015.
  4. Nagib Nassar, “Critérios de produção científica no CNPq”, JC Notícias, nº 3771, 28/5/2009.
  5. Nagib Nassar, “Professor da UnB comenta questão dos critérios para concessão de bolsas de produtividade do CNPq”, JC Notícias, nº 3499, 28/4/2011.
  6. Nagib Nassar, “CNPq: A configuração e os desafios”, JC Notícias, nº 4254, 10/5/2011.
  7. Jamil Chade e Victor Vieira, “Governo suspende abertura de vagas no Ciência sem Fronteiras”, O Estado de S. Paulo, 23/9/2015.
  8. Nagib Nassar, “Reflexões sobre o programa Ciência sem Fronteiras”, JC Notícias, nº 4329, 24/8/2011.

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


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10 Comentários

  1. Pingback: C&T nº 127 24-06-2016 – Jornal Pensar a Educação em Pauta

  2. Nagib Nassar said:

    Nome de fernando nao é completo porque escondido ?

    confirme a lei brasileira ele cometindo um crime de discriminaçao racial punida com prisao sem fiançao
    preciso nome dele completo e endereço por favor

  3. Nagib Nassar said:

    O comentário de Mateus Castro é pertinente.
    Meu artigo “Reflexões sobre o programa CsF”, publicado a cinco anos atrás, não tem dados sobre resultados porque ainda era início do programa e foi uma alerta às autoridades. Gostaria muito que as instituições executoras expusessem dados sobre resultados de quanto foi gasto e quantos trabalhos com impacto levando o nome do Brasil foram publicados, expondo também outros produtos com medidas robustas e válidas.
    Nagib Nassar
    http://www.geneconserve.pro.br

  4. Matheus Castro said:

    Me preocupa a crítica ao programa Ciência sem Fronteira.
    É fato que o programa precisa ser remodelado e melhor gerenciado mas, dizer que a inciativa foi um desperdício, é um tanto quanto desarrazoado. Alias, gostaria de saber em que o Sr. Nagib Nassar se baseia ao proferir que o programa “trouxe poucos resultados satisfatórios”; uma vez que a referência dada por ele (Nagib Nassar, “Reflexões sobre o programa CsF”, 2011) não trata dos resultados obtidos pelo Ciência sem Fronteiras.

    sociais – como foi feito por Nagib Nassar ao Ciências sem Fronteira – com tal perfil

  5. Pedro Álvares said:

    O texto do Professor Nassar é atualíssimo e extremamente pertinente. Acontece que muitos pesquisadores de renome do Brasil se acomodaram em fazer “mais do mesmo”, recebendo verbas apenas porque têm número considerável de publicações no currículo. No entanto, se observa que boa parte destas publicações é totalmente irrelevante. Esta acomodação não somente é nefasta para o sistema, como principalmente para os alunos de pós-graduação que estão sendo formados. Estes seguem os exemplos atuais. Ou sejam, estão sendo deseducados. É necessário se mudar esta cultura nefasta, sob o risco de comprometer ainda mais o sistema científico brasileiro.

  6. Ruy Barbosa said:

    O pesquisador Nagib Nassar levantou um ponto importante: a falta de impacto de muitas das publicações geradas no país. O diagnóstico está acertado, pois o critério de julgamento é, muitas vezes, pelo número de publicações e não pelo impacto que elas geram. Existia até um “comentário” (piada?) na comunidade de que Einstein não teria bolsa de produtividade porque tinha um número muito pequeno de publicações. Para aumentar o impacto dos nossos trabalhos, precisamos que as nossas PGs cooperem mais com instituições estrangeiras, pois os artigos de maior impacto surgem dessas colaborações.

  7. Rafael Garcia said:

    Prof. Nagib levantou uma discussão muito pertinente, mas discordo em parte da conclusão que ele sugere. Um ministério da ciência é necessário, sim. O problema com o passado do MCTI é que é perfeitamente possível um país ter uma política científica ruim mesmo tendo um órgão político de primeiro escalão exclusivamente dedicado à ciência. O que não está claro é se é possível um país ter uma produção científica relevante SEM NENHUMA uma instituição política forte que a defenda no primeiro escalão. A volta do MCTI seria uma demonstração simbólica importante nesse sentido, mas, evidentemente, não dá para a coisa ficar só no simbolismo.

  8. Fernando said:

    É lamentável que um site que se auto proclama defensor da Ciência Brasileira publique um artigo que afronta a opinião predominante na Comunidade Científica Brasileira, ainda mais escrito por um estrangeiro que deveria ter ficado em seu país em vez de ocupar em uma Universidade Pública o lugar que deveria ser preenchido por um Pesquisador brasileiro. Não deveria nem sequer ter indicado ontem o link do artigo de José Goldenberg, outro inimigo da Comunidade Científica e também autor de texto favorável à fusão MCTI-Minicom que só poderia ter sido publicado num jornal reacionário como O Estado de São Paulo. Este é o momento de todas as forças progressistas se irmanarem em uma só voz.

    • Maurício Tuffani said:

      Senhor Fernando,

      Direto da Ciência nunca se autoproclamou defensor de coisa alguma. Mas defende veementemente o direito à liberdade de expressão, até mesmo por parte de alguém que a desrespeita, como o senhor. E se há algo com que este editor não concorda é com sua ideia de uma “Ciência com Fronteiras”, temperada por sua visão de que a comunidade científica tem de se comportar como uma igreja por meio de um pensamento único. Pelo que se extrai de suas palavras, para o senhor o ministério ficaria bem com o pastor que havia sido escolhido inicialmente pelo presidente interino.

      Quanto ao professor Nagib Nassar, não concordo com a opinião dele de que a fusão não seja lesiva, embora não sejam essas as palavras dele. Mas defendo voltaireanamente não só o direito dele de aqui se expressar, mas também que o seja por meio de artigo, visto ser ele um autor qualificado. E, apesar de não ter procuração para defendê-lo, faço questão de observar que ele é com certeza muito mais brasileiro do que muitos dos que aqui nasceram, pois, entre todas as oportunidades que teve para desenvolver sua pesquisa, escolheu o Brasil.

      Maurício Tuffani
      Editor
      Direto da Ciência

      • David Beserra said:

        VEJAMOS:

        “ainda mais escrito por um estrangeiro que deveria ter ficado em seu país em vez de ocupar em uma Universidade Pública o lugar que deveria ser preenchido por um Pesquisador brasileiro.ainda mais escrito por um estrangeiro que deveria ter ficado em seu país em vez de ocupar em uma Universidade Pública o lugar que deveria ser preenchido por um Pesquisador brasileiro.”

        Esse tipo de ‘argumento’ já mostra o nível de entendimento do senhor Fernando sobre a Ciência, ao não demonstrar compreender que os sistemas de desenvolvimento cientifico mais avançados do mundo são justamente aqueles que mais absorvem pesquisadores estrangeiros (Vide: http://goo.gl/nCwV1g). Comentário Xenófobo, desnecessário ao meu ver.

        Além disso, como consequência da absorção de pesquisadores oriundos dos países mais pobres pelos países mais ricos, há uma constante demanda pela substituição desses pesquisadores ‘exilados’ por outros; e é aí que pessoas como o Dr. Nassar entram na história: simplesmente NÃO HÁ pessoal autóctone suficiente para suprir todas as vagas. Mesmo que eu concordasse com sua xenofobia, ainda assim me veria obrigado a sugerir a contratação de estrangeiros para ocupar postos de trabalho relacionados à pesquisa no seio das terras tupiniquins.

        VEJAMOS [2]

        “Este é o momento de todas as forças progressistas se irmanarem em uma só voz.”

        Sinceramente, não creio que seja muito progressista querer impedir a circulação de ideias e mentes, e assumir posições xenófobas. Dito isto, antes que eu seja chamado de reacionário, me declaro simpatizante a diversas politicas de esquerda (embora nem de longe eu seja um adepto do Marxismo-Leninismo).

        Quanto a replica do senhor Tuffani:

        Altamente de acordo com suas opiniões. Acrescento que tenho minhas ressalvas ao Ciência sem Fronteiras (fui bolsista e vi de perto como funciona); mas minhas ressalvas não são quanto a ideia do programa em si, e sim quanto a forma de implementação. Essa iniciativa tem que ser mantida, quiça ampliada; mas com um enfoque maior na pós-graduação e com um maior controle sobre as atividades dos bolsistas em nível de graduação.

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