Conferências científicas ‘caça-níqueis’ voltam a fazer ataque em massa no Brasil

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Estão abertas as inscrições, com taxas de 250 a 350 euros por participante, para 342 conferências científicas marcadas para os dias 23 e 24 de fevereiro de 2017, todas elas no Rio de Janeiro. Esses eventos estão previstos para serem realizados todos em um só hotel, bem pertinho da Candelária. Não é piada, infelizmente. É a continuação em 2017 da enxurrada de conferências “caça-níqueis”, organizada para fevereiro deste ano pela editora World Academy of Science, Engineering and Technology (Waset), que eu já havia noticiado em março do ano passado em reportagem para a Folha, com a seguinte explicação.

Apesar do nome [“Academia”], é uma editora. Embora divulgue ter sede em Riverside, nos EUA, seu telefone para contato é dos Emirados Árabes Unidos. E, além de inválidos, os registros de suas revistas são da Turquia, segundo o cadastro internacional numérico de periódicos ISSN.

 

‘Milagre’ da multiplicação

Na verdade, assim como nos dias 1 e 2 de fevereiro deste ano — para quando estavam agendadas 116 conferências, todas elas também no mesmo hotel—, o “milagre” da multiplicação de salas de reuniões consiste em acomodar nos mesmos espaços de pesquisadores inscritos em eventos diferentes. Os trabalhos inscritos são publicados pela Waset por seus dez periódicos, conforme a área de especialidade.

 

Notória má reputação

Essa forma adotada pela editora para atrair acadêmicos desavisados e cobrar deles taxas de inscrição tem sido denunciada há alguns anos na internet não só por instituições, como a Sociedade Europeia de Redes Neurais (ENNS), e por blogs de cientistas, mas também por bases de dados de periódicos, como a ResearhGate.  Os depoimentos afirmam que as conferências em série se tornam uma só, juntando especialistas de áreas diferentes e servindo apenas para a editora lucrar com taxas de inscrição.

 

Média papers/evento < 1

Não pude ir em 1 e 2 de fevereiro ao “centro de conferências”, no Rio de Janeiro, para ver pessoalmente essa forma, digamos, criativa de organizar eventos, pois esses dois dias fizeram parte de um período maior em que fui obrigado a ficar completamente afastado do trabalho. Mas, pesquisando no site da própria Waset, dá para constatar que há uma única página “Conference Program” comum a todos os 116 eventos agendas para esses dois dias. Da mesma forma, há também uma única galeria “Conference Photos” comum a todas as reuniões.  Juntos, esses 116 eventos resultaram no total de 104 palestras e exposições de painéis, artigos e outros tipos de trabalhos. Ou seja, menos de uma apresentação por conferência.

 

Capes desta vez fora da encrenca

A boa notícia, em comparação com a do ano passado, é que depois da citada reportagem a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação, removeu de sua plataforma Qualis Periódicos as classificações completamente irregulares de quatro registros ISSN associados à Waset. Além cadastrar o nome da editora como se fosse de título de periódico, o registro no Qualis havia feito com com quatro códigos numéricos ISSN “compartilhados” pelos dez periódicos dela. Dois desses registros eram da Turquia, mas inválidos, e os outros dois, de Singapura, que já haviam sido cancelados, segundo o Centro Internacional do ISSN, em Paris, na França.

 

‘Tá no Qualis’

As informações do Qualis são usadas no Brasil não só por servirem para a orientação de pesquisadores, professores e pós-graduandos na escolhade revistas científicas para publicar seus estudos. Esses dados são valorizados também para as carreiras acadêmicas, nas quais o ingresso e a promoção se baseiam em dados sobre artigos publicados e participação em conferências, que muitas vezes são organizadas por editoras de periódicos. Por mais baixa que seja, uma simples classificação de um periódico nessa base de dados acaba servindo para inclusão em currículo e até mesmo para embasar um pedido de bolsa, de licença para viagem ou de recurso para pagar taxa de publicação. “Tá no Qualis!”, como se diz.

 

Publisher predatório

Além de sua péssima fama em vários sites estrangeiros de universidades e instituições científicas e de blogs de pesquisadores, a Waset também está desde 2012 na lista dos chamados publishers predatórios do blog “Scholarly Open Access”, do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos EUA. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos na internet em acesso livre, ou seja, sem cobrança de assinatura ou taxa de download. Alguns publishers predatórios são também organizadores de conferências predatórias.

 

Antídoto

Beall divulgou na semana passada um bom manual para identificar “conferências predatórias”. Está em seu blog, no post “Proposed Criteria for Identifying Predatory Conferences”. Segundo ele, os critérios foram sintetizados por James McCrostie, da Universidade Daito Bunka University, do Japão, com base em uma apresentação feita em 2 de junho de 2015 na 4ª Conferência Mundial de Integridade na Pesquisa, no Rio de Janeiro, por Gordon McPherson, da Universidade Oxford, do Reino Unido.

 

Vai ter mais

O site da Waset indica também o agendamento de 138 conferências nos dias 8 e 9 de fevereiro de 2018 e de outras 137 para 27 e 28 de fevereiro de 2019. Assim como no ano passado, quando escrevi sobre o assunto para a Folha e para meu blog no site do jornal, o publisher com um pé na Turquia e outro nos Emirados Árabes Unidos novamente não respondeu ao contato feito por e-mail por Direto da Ciência.

 

Astronomia: excelente reportagem

Publicada no domingo no Estadão, a reportagem “O futuro da astronomia brasileira no Deserto do Atacama”, do jornalista Herton Escobar, teve uma versão on-line muito mais generosa, aproveitando o excelente esforço de reportagem de campo no Chile e no Brasil, inclusive fotográfica, do próprio repórter, combinado com o trabalho da equipe do jornal em infografia, tratamento de imagens, edição de vídeo,  design, computação e animação 3D. Além de envolver os internautas com belas imagens e ótimos infográficos, a matéria mostra também — e esse é seu foco principal — o risco a cada dia maior de o Brasil perder a oportunidade de participar plenamente do maior projeto da astronomia internacional de todos os tempos. Clique aqui para conferir.

 

‘Economia’ temerária

Exceto pela reportagem do jornalista André Trigueiro no RJ TV 2ª Edição no dia 22, e sua repercussão no G1, passou completamente despercebida pela imprensa em geral o fechamento da unidade fluminense do Centro de Monitoramento Ambiental e de Desastres Naturais (Cemaden). A desativação resultou do corte do pagamento por parte do Governo do Estado do Rio de Janeiro para as despesas da unidade, cujo valor era de R$ 38.750 por mês. Tomei conhecimento do assunto no domingo pelo Blog do Pedlowski. No post, o geógrafo Marcos Pedlowski, professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), também afetada gravemente pela crise decorrente da política tributária irresponsável do governador Pezão (PMDB), afirma:

Apenas por comparação, o custo anual do CEMADEN/RJ equivale a 2,3% do valor pago pelo aluguel de ambulâncias para os Jogos Olímpicos (Aqui!) e a 2,4% do valor de um dos trens chineses que foram comprados com dinheiro público para serem entregues à SuperVia (Aqui!).

 

Marco de pesquisas clínicas

Amanhã, no Senado, a Comissão de Assuntos Sociais (CAS) vota em caráter terminativo o projeto de lei do marco regulatório para pesquisas clínicas (PLS 200/2015), que também propõe regras para estudos em seres humanos e para a análise e o registro de novos medicamentos. Apresentado pela senadora Ana Amélia (PP-RS), pelo senador Waldemir Moka (PMDB-MS) e pelo ex-senador Walter Pinheiro (sem partido-BA), o projeto teve mudanças na Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT), em 15 de março. O relator, senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), acatou emendas para abarcar não apenas pesquisas clínicas com modelos experimentais, mas também as pesquisas com humanos, segundo nota da Agência Senado.

 

‘Código Florestal’ no STF

Está prevista para os próximos dias a conclusão do relatório do ministro Luiz Fux, do STF, sobre as quatro ações diretas de inconstitucionalidade contra dispositivos da lei 12.651/2102, que substituiu o Código Florestal. Contra uma das ações (ADI 4901), movida pelo Ministério Público Federal, já foi ajuizada ação direta de constitucionalidade (ADC 42) pelo Partido Progressista. Por iniciativa do ministro, o Supremo já realizou audiência pública, em 18 de abril deste ano, sobre o assunto (ver “Audiência sobre Código Florestal no STF mostra que Congresso atropelou a ciência”, 19/4). Na opinião de Fux, segundo nota da assessoria de imprensa do STF,

Por ocasião da aludida audiência pública, sobretudo, à luz da experiência nacional e internacional sobre a regulação do assunto, pôde-se constatar que as modificações no marco regulatório da proteção da flora e da vegetação nativa no Brasil demandam, não somente o equacionamento de questões tipicamente jurídicas, mas, de igual modo, o esclarecimento de questões técnicas a respeito da aplicação da novel legislação florestal em áreas rurais e urbanas, inclusive quanto às suas consequências econômicas, ambientais e sociais.

 

Rumos do CTI sem explicação

Devido à sua estranha rotina de ficar off line nas primeiras horas da manhã, o site do Ministério da Ciência, Tecnologia, Informações e Comunicações (MCTIC) não me permitiu dar maior atenção à nota “CTI Renato Archer mais que dobra oferta de vagas para cursos do Instituto Federal de SP”. Ainda não disponho de elementos para opinar sobre essa novidade, mas ela traz preocupação por reforçar a preocupação com as reais prioridades institucionais da direção do CTI, que tem preocupado pesquisadores e tecnologistas do órgão, como mostrou a coluna de ontem “Kassab reconduz diretor com mandato há 13 meses acabado e acusado de irregularidades”, sobre a qual o ministério não se pronunciou.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

 

For Better Science

Carta Capital

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

G1

O Globo

InforMMA

MCTI – Notícias

The New York Times

Observatório do Clima

Science

Valor Econômico

Na imagem acima, fotografia usada nas páginas de abertura dos sites de centenas de conferências agendadas pela World Academy of Science, Engineering and Technology (Waset) no Rio de Janeiro para 2017 a 2019. Foto: Waset/Divulgação.


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8 Comentários

  1. Pedro Álvares said:

    Excelente texto, de fato.
    Tuffani, na seção “antídoto” de seu texto acima, você se refere a Beal como Bela ;-).
    Outra coisa: pior ainda é ficar recebendo por e-mail convites para estes eventos predatórios, TODOS OS DIAS. Eu recebo uns 10 a 15, todos os dias. É um saco.

  2. John Smith said:

    O instituto de Fisica da Universidade Federal de Uberlândia está anunciando uma das falsas conferências da WASET em seu website.

    http://www.infis.ufu.br/index.php/14-laboratorios-e-grupos-de-pesquisa?start=4

    ICE 2016
    18th International Conference on Electroceramics
    August 25-26. London, UK (February 18th, 2016)
    https://www.waset.org/conference/2016/08/london/ICE

    O que constitui o valor do homem não é a verdade, que qualquer pessoa pode possuir ou supõe possuir, mas o empenho sincero que o homem empregou para descobrir a verdade. Pois é por meio da busca pela verdade, e não com a posse desta, que as suas forças se ampliam, e somente nisto consiste a sua perfeição sempre crescente.
    Gotthold Lessing, in “Eine Duplik”.

    • John Smith said:

      Outra faculdade que em seu site comprou gato por lebre, anunciando evento da WASET como se fosse conferência de verdade:

      UNESP, Faculdade de Engenharia, Campus de Ilha Solteira, Departamento de Física e Química
      http://coruja.feis.unesp.br/dfq/fnm/events.html

      ICE 2016: 18th International Conference on Electroceramics. August 25-26, London, United Kingdom

    • John Smith said:

      Mais cientistas brasileiros anunciando falsas conferências da WASET para 2016. Aparentemente, o problema é nacional.

      (1) Blog oficial do Curso de Geografia da Universidade Estadual de GOias – Campus de Iporá
      http://geografiaiporaueg.blogspot.com.br/p/eventos-de-geografia-2016-xxi-encontro.html

      XIV Conferência Internacional de Geografia e Geociências
      Realização: 08 a 09 de Fevereiro de 2016
      Local: Universidade de Deli, em Nova Deli – Índia
      Site: https://www.waset.org/conference/2016/02/new-delhi/ICGG

      (2) Sociedade Brasileira de Acústica
      http://acustica.org.br/evento/icavnce-2016-18th-international-conference-on-acoustics-vibration-and-noise-control-engineering/

      ICAVNCE 2016: 18th International Conference on Acoustics, Vibration and Noise Control Engineering
      https://www.waset.org/conference/2016/08/amsterdam/ICAVNCE

    • Anônimo said:

      Pelo jeito, também compraram “gato por lebre” aqui na UFU, ao apresentar no site de uma Instituição de Ensino Superior uma conferência de um publisher notoriamente predatório.

    • John Smith said:

      A Fundação de Peritos em Criminalística Ilaraine Acácio Arce, FPCIAA, é uma entidade sem fins lucrativos, pessoa jurídica de direito privado, com tempo de duração indeterminado, sede e foro em Brasília, Distrito Federal, constituída por Escritura Pública de 26 de fevereiro de 1996, cujos membros são Peritos Criminais da ativa e aposentados da Polícia Civil do Distrito Federal, atuando de forma voluntária e sem remuneração.

      O website está desatualizado, mas essa Fundação de Peritos em Criminalística listou tres editoras predatórias em seu website no ano de 2014.

      http://www.fpciaa.org.br/index.php/eventos/eventos-forense-no-exterior

      (1) International Conference on Forensic Sciences (ICFS 2014)
      Local: Paris, França
      Data: 28 e 29 de agosto de 2014

      (2) 3rd International Conference on Forensic Research and Technology
      Local: San Antonio (Texas), Estados Unidos
      Data: 6 a 8 de outubro de 2014

      (3) GS International Conference on Forensic Science
      Local: Dubai, Emirados Árabes Unidos
      Data: 7 a 9 de novembro de 2014

  3. David Beserra said:

    Excelente reportagem, como sempre informativa e preparada com altíssimo profissionalismo. 🙂

    Concordo com quase tudo, contudo tenho ressalvas apenas a esse trecho:

    “…desde 2012 na lista dos chamados publishers predatórios do blog “Scholarly Open Access”, do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos EUA. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos na internet em acesso livre, ou seja, sem cobrança de assinatura ou taxa de download”

    Quais as minhas ressalvas?: A falta de critérios objetivos (ou de justificativas para os mesmos) para a entrada de periódicos na lista e a falta de isenção do senhor Beall. Os únicos critérios adotados por Beall para classificar um periódico como predatório são:

    i- O periódico ser OpenAcess; ii- O periódico não ser de uma grande editora.

    Porque o Scielo (iniciativa seria e gratuita ) foi chamada por ele de “Favela de Publicações”?; Porque não há nenhum periódico da Springer na lista? (ou algumas das conferencias do IEEE que também tem um aspecto bem caça niqueis); O que falar dos periódicos Plos One e Springer Open, que cobram mais de 1000 dólares por artigo e aceitam 75% dos artigos submetidos? (não estou necessariamente acusando o Plos One, mas fazendo um convite a reflexão); E será mesmo todo periódico não OA deve ser automaticamente não incluído na lista? Há vários que mereceriam.

    Nao acho que a lista de Beall utilize critérios muito científicos… Utiliza-la como referencia de lista seria e isenta é o mesmo que publicar na Waset pensando que se está publicando em uma editora seria: é um ato de fé. E fé na ciência não tem vez, há que se criar critérios melhores e menos subjetivos para criar uma lista dessas.

    • Maurício Tuffani said:

      Boa tarde, David.

      Obrigado por suas observações. Esclareço que os critérios adotados por Jeffrey Beall para determinar o caráter predatório de um publisher são bem mais numerosos. Eles estão disponíveis em http://scholarlyoa.files.wordpress.com/2015/01/criteria-2015.pdf.

      Além disso, o próprio Beall ressalta que sua lista é questionável, fazendo sobre ela a seguinte ponderação.

      This is a list of questionable, scholarly open-access publishers. We recommend that scholars read the available reviews, assessments and descriptions provided here, and then decide for themselves whether they want to submit articles, serve as editors or on editorial boards.

      Na minha opinião, essa lista de predatórios deve ser usada como um alerta para identificar a necessidade de avaliações mais acuradas para certos publishers e seus periódicos. Foi o que fiz no ano passado ao publicar em meu blog anterior, na Folha, as reportagens “Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas ‘predatórias’” (9/3/2015) e “Sobe para 235 a lista de ‘predatórios’ na pós-graduação brasileira” (3/4/2015). Com a ajuda de pesquisadores brasileiros, usei a lista de Beall como ponto de partida, mas a ela apliquei critérios adicionais devidamente explicitados para os leitores.

      Saudações,

      Maurício Tuffani
      Editor
      Direto da Ciência

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