Aumento de doutores no Brasil é boa notícia?

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Merece muito resguardo por parte dos leitores a notícia do aumento no Brasil, nas duas últimas décadas, dos números dos cursos de pós-graduação stricto sensu e da concentração de mestres e doutores na população do país. Apesar de esse crescimento quantitativo ter sido divulgado com algumas advertências em relação ao aspecto da qualidade, o lado ruim é muito maior.

 

Os números

Os programas de mestrado e doutorado no Brasil apresentaram, de 1996 a 2014, um crescimento numérico de 205% e 210%, respectivamente. No mesmo período, o número de mestrados concluídos cresceu 379% e o de doutorados aumentou 486%, segundo o estudo “Mestres e doutores 2015: estudos da demografia da base técnico-científica brasileira”, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), divulgado ontem na 68ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Porto Seguro (BA). O CGEE é uma organização social vinculada ao Ministério da Ciência Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

 

Política ‘bem-sucedida’

Outra “boa notícia” foi a do crescimento desses números da pós-graduação fora do eixo Rio-São Paulo, onde em 1996 houve 58,8% dos títulos de mestrado e 83,4% dos de doutorado do país naquele ano. Para 2014, a mudança nesses indicadores foi para 36,6% dos mestres e 49,5% doutores, respectivamente, segundo a publicação do CGEE. Na avaliação de Sofia Daher, coordenadora do estudo,

O crescimento dessa mão de obra qualificada tem sido contínuo e consistente ao longo de quase duas décadas, o que reflete uma política de Estado bem sucedida. No entanto, ainda temos um caminho longo para trilhar. O estudo demonstra que há uma grande distância em relação aos países desenvolvidos, o que nos incentiva a manter e expandir os investimentos.

 

Crescimento insuficiente

“A má notícia é que isso ainda é pouco para o tamanho da população brasileira”, destaca o jornalista Herton Escobar, em sua reportagem para o Estadão, “Número de mestres e doutores quintuplica em 20 anos no Brasil”. Ele destaca que enquanto no Brasil há 7,6 doutores para cada 100 mil habitantes, essa taxa é de 41 no Reino Unido, mais de 20 nos Estados Unidos e 13, no Japão.

 

Outros países

Na mesma linha comparativa, o jornal Valor Econômico, em seu editorial  “Aumento no número de doutores ainda é insuficiente”, destaca também números de outros países, não só desenvolvidos, como Alemanha (34,4), mas também em desenvolvimento, como República Eslovaca (39,1), a Estônia (17,6) e a Turquia (11,5), apontados ontem na reportagem “Doutores brasileiros ficam mais jovens e se espalham pelo País”, da jornalista Ligia Guimarães, publicada ontem no mesmo jornal.

 

E a qualidade?

Mas o editorial do Valor Econômico vai mais além em sua crítica. O jornal aponta ouro estudo, “Formação de doutores no Brasil: o esgotamento do modelo vigente frente aos desafios colocados pela emergência do sistema global de ciência”, de Milena Yumi Ramos e Lea Velho, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que expõe dificuldades na formação de cientistas, começar pela sua participação na colaboração internacional. O editorial conclui que no Brasil

(…) ainda predomina o modelo único de formação doutoral orientado à carreira e ao desempenho acadêmico, indicam as pesquisadoras da Unicamp. Ou seja, além de investir no aumento de doutores e mestres, o país precisa repensar sua formação.

 

Situação é ainda pior

Em janeiro do ano passado, Lewis Joel Greene, professor aposentado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, bolsista de produtividade do nível 1A do CNPq (o mais elevado) e membro da ABC (Academia Brasileira de Ciências), mostrou que apesar do seu crescimento quantitativo, a pesquisa e a pós-graduação brasileiras haviam estagnado na qualidade. Em seu artigo no artigo “É hora de rever o sistema de pós-graduação brasileiro”, no blog SciELO em Perspectiva, ele afirmou:

O contraste entre o aumento do número de publicações científicas brasileiras e a aparente estagnação de seu impacto na maioria das disciplinas deveria ser uma fonte de preocupação para os decisores políticos responsáveis pela pós-graduação em universidades e a distribuição de bolsas de estudo e financiamento à pesquisa. Como a maior parte da pesquisa acadêmica no Brasil é realizada por estudantes de pós-graduação, é razoável considerar a modificação do nosso sistema de pós-graduação.

 

‘Doutores mal treinados’

Repercuti esse artigo de Greene em meu blog anterior na Folha com o post “Doutores mal treinados formam novos doutores”. A escolha do título se deveu às seguintes afirmações de Greene.

Em meados da década de 1970, houve muitas discussões sobre o fato de que o Brasil precisava produzir milhares de doutores para chegar a níveis de primeiro mundo em número de doutores/100.000 habitantes. Reconhecia-se que a maioria dos primeiros formados teriam uma formação menos que ideal, porém entendia-se e esperava-se que o sistema se tornasse mais rigoroso com o tempo. Infelizmente, isso não ocorreu e, para piorar a situação, os doutores mal treinados estão agora formando a próxima geração de doutores.

 

Maior quantidade, menor qualidade

Naquele post, lembrei que de 1987 a 2013 o número de artigos brasileiros publicados em periódicos de padrão internacional cresceu de 2.662 para 38.523. E destaquei que apesar desse aumento de 14,5 vezes em sua produção científica, o país não teve crescimento significativo nos indicadores de qualidade (impacto relativo à média mundial)* de sua produção científica, que na verdade chegaram a estagnar de 2003 a 2013, como destaquei em minha reportagem para o jornal “Produção científica no Brasil fica menos concentrada em SP” (13/10/2014). [* Acréscimo às 19h39.]

 

Recém-doutores

Tenho testemunhado muitas semelhantes, como a de Brenno A.D. Neto, professor de química e pesquisador da UnB, consultor ad hoc para diversas agência de fomento, que em 30 de abril, em um grupo de discussão de cientistas no WhatsApp, afirmou: “Recém doutores hoje em dia, por vezes, não conseguem escrever um projeto”. Ouvido hoje, ele acrescentou que “por vezes as idéias são interessantes mas não são apresentadas adequadamente. Sem contextualização, sem metodologia adequada”.

 

Mais detalhes em breve

Pretendo em breve publicar aqui em Direto da Ciência uma avaliação mais densa sobre o tema do aumento da produção científica brasileira. Hoje foi apenas uma rápida passada sobre o assunto para mostrar aos nossos leitores algo mais sobre a “boa notícia” do dia, que também acaba de ser enviada as redações de jornais de todo o país por meio de release do MCTIC tendo como título o mesmo da nota “Número de doutores cresceu 486% entre 1996 e 2014 no Brasil, revela estudo do CGEE”, publicada ontem no site do ministério.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

 

Agência Fapesp

Avaliação Educacional – Blog do Freitas

Carlos Orsi

El País

Envolverde

Época

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

G1

O Globo

InforMMA

Jornal da Ciência (SBPC)

MCTI – Notícias

Nature News

Pesquisa Fapesp

Retraction Watch

Scholarly Open Access

Science

Valor Econômico

 

Na imagem acima, abertura da 68ª Reunião Anual da SBPC em Porto Seguro (BA), no dia 2. Foto: Diogo Brito/Fapemig.


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6 Comentários

  1. Almir Ribeiro said:

    O artigo traz pontos relevantes para a formação pós-graduada no Brasil, onde em relatórios de universidades como MIT é percebido a preocupação com o aprendizado do aluno, que buscam fortemente a garantia da qualidade com foco no aprendizado do aluno.

  2. Nildo Araújo said:

    Matéria nojenta e elitista. Não passa de uma reação típica da elite branca paulista inconformada com a expansão da educação brasileira em todos os níveis, incluindo no da graduação e da pós-graduação.
    O Brasil tem pressa. Não dá tempo para implantar USPs em todo país, muito menos reproduzindo seu modelo de exclusão social. É preciso fazer crescer a quantidade para em seguida investir na qualidade. Estávamos construindo um Brasil com maior distribuição de renda e com maior inclusão social, com mais negros, índios e mulheres nas universidades. Um Brasil que assustou a elite branca paulista à que pertence o ator, que além de ter exercido cargos importantes na imprensa golpista, também foi ex-Assessor-Chefe de Comunicação da Unesp – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, ex-Assessor de Comunicação da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, ex-Editor-Chefe da “Scientific American” e é Membro do Conselho Editorial da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Quanto ele ganha nesse Conselho Editorial tucano para retribuir denegrindo as iniciativas da Capes e do CNPq durante o único governo popular que este país teve? Porque ele não critica o Governador Geraldo Alckmin que acusou falsamente essas agências de fomento de gastarem rios de dinheiro em pesquisas sem importância para a sociedade?

    • Maurício Tuffani said:

      Senhor Nildo, antes de eu responder às suas questões, pergunto se o senhor é pós-graduado ou pós-graduando.

      • Nildo Araújo said:

        Sou pós-graduando, por que?

        • Maurício Tuffani said:

          Senhor Nildo,

          obrigado pela resposta e por se mostrar como exemplo do problema que aponto em meu texto acima. Não é preciso ser pós-graduando para buscar informações corretas antes de escrever um comentário. Mas o senhor, mesmo sendo um pós-graduando, nem sequer se deu a esse cuidado. E acabou escrevendo asneiras.

          Por exemplo, sobre sua afirmação a respeito do governador de São Paulo. Diferentemente do que o senhor afirma, ele não acusou a Capes e o CNPq de “gastarem rios de dinheiro em pesquisas sem importância para a sociedade”. Na verdade, ele reclamou da Fapesp. Se quiser mais informações sobre isso, leia neste mesmo blog o post “O canal entupido de Alckmin com a ciência”. Aliás, se tivesse feito uma busca com o sobrenome do governador neste blog, teria encontrado posts de minha autoria críticos em relação à atuação dele. E isso teria servido para pelo menos o senhor ter dúvidas sobre suas acusações a mim de vinculação política ao partido dele.

          Outra informação errada sua: sou membro do Conselho Editorial da revista Pesquisa Fapesp, e não dessa fundação. E os membros desse conselho não recebem nenhuma remuneração, nem sequer ajuda de custo para o táxi.

          Também não fui editor da Scientific American, que tem sede nos Estados Unidos, mas da Scientific American Brasil, sediada em São Paulo. Finalmente, NÃO FUI, mas SOU “ex” dos cargos que o senhor aponta.

          Está sendo divertido fazer suas palavras se voltarem contra o senhor mesmo. Mas, peço licença para esquecê-lo, pois tenho mais o que fazer.

          Atenciosamente,

          Maurício Tuffani
          Editor
          Direto da Ciência

Comentários encerrados.

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