MP cobra da Unicamp resultado de apuração sobre conferência predatória

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

A poucos dias de completar um ano sem dar respostas satisfatórias ao Ministério Público sobre seu envolvimento com uma editora chinesa de má reputação na organização de uma conferência de engenharia em seu próprio campus, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está mais uma vez em atraso com esclarecimentos sobre essa história cheia de esquisitices. Anteontem, terça-feira (5/7), a promotoria que abriu inquérito civil sobre o caso cobrou a universidade por não ter encaminhado o relatório de uma sindicância para apurar responsabilidades, que deveria ter sido encerrada há pelo menos um mês.

Em seu ofício para a Unicamp, o promotor de Justiça substituto Rafael Amancio Briozo deu prazo de 30 dias para a universidade encaminhar “o resultado de sindicância que diz ter instaurado, com cópia da portaria, das provas produzidas e do seu desfecho” (o grifo é da reportagem). Em fevereiro deste ano, a universidade alegou que para poder prestar esclarecimentos ao inquérito decidira instaurar uma sindicância, apesar de ter rejeitado essa medida 15 meses antes. Com isso, a promotoria de Justiça Cristiane Hillal fixou prazo de 90 dias para a conclusão da apuração.

 

Fatos bizarros

Além da falta de informações sobre os recursos públicos empregados, os fatos esdrúxulos ligados à 3ª Conferência Internacional de Engenharia Civil e Arquitetura (3ª ICCEA 2014) incluem o envolvimento de uma universidade de alto prestígio com um publisher predatório, a participação de um periódico de engenharia cujo editor-chefe usava falsas credenciais acadêmicas e a descaracterização dos trabalhos em suas publicações e em seu cadastramento em currículos de seus autores, inclusive com a omissão de referências ao evento e à própria Unicamp.

Realizada em  31 de julho e 1º de agosto de 2014, a conferência e seus fatos bizarros se tornaram públicos em março do ano seguinte com uma reportagem deste jornalista, publicada na Folha de S.Paulo (ver abaixo a linha do tempo “Para entender o caso”).

Com base em parecer de sua procuradoria jurídica, desde novembro de 2014 a reitoria da Unicamp vinha alegando que “não é possível vislumbrar a necessidade de instauração de sindicância administrativa” sobre a 3ª ICCEA 2014.  O evento foi o terceiro de uma série anual criada pela IACSIT (International Association of Computer Science and Information Technology), editora que tem suas operações realizadas na China, e é apontada na internet pelo menos desde 2010 como organizadora de “fake conferences”. A Unicamp foi a única universidade em todo o mundo a se envolver diretamente na organização de um evento da ICCEA.

A  IACSIT também é apontada desde 2012 na lista de “publishers predatórios” do blog Scholarly Open Access, do biblioteconomista Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado em Denver. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos em acesso livre na internet.

 

Nada a declarar

Os promotores de Justiça encarregados do inquérito civil sobre a parceria entre a Unicamp e a IACSIT preferem não se pronunciar sobre o caso antes de receberem esclarecimentos da universidade. A reitoria da Unicamp e a IACSIT deixaram de responder às perguntas que têm sido encaminhadas pela reportagem.

Vinicius Acaro, professor da Faculdade de Engenharia Civil e Arquitetura (FEC) e autor da representação que provocou o inquérito civil do Ministério Público, afirmou que por enquanto prefere não dar sua opinião e que tudo o que tem para dizer por enquanto está nos documentos que encaminhou para a promotoria, e mais uma vez destacou apenas que procurou “esgotar todas as possibilidades internamente na Unicamp”.

A seguir, uma linha do tempo para facilitar a compreensão desse imbróglio.

 

Para entender o caso

  • 2010 – Má reputação e ‘fake conferences’
    A IACSIT (International Association of Computer Science and Information Technology), editora acadêmica com operações realizadas na China, passa a ser apontada frequentemente em blogs de pesquisadores como organizadora de “fake conferences”.
  • abr/2012 – Lista dos predatórios
    A IACSIT passa a integrar a lista de “publishers predatórios” do blog Scholarly Open Access, do biblioteconomista Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado em Denver. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos em acesso livre na internet.
  • out/2013 – Classificação no Qualis
    Apesar da crescente má reputação da IACSIT na internet, professores, pesquisadores e pós-graduandos brasileiros publicaram trabalhos em alguns periódicos da editora chinesa. Na conclusão da avaliação trienal da pós-graduação brasileira para 2010-2012 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), três dessas revistas foram classificadas na plataforma Qualis Periódicos . Entre elas está a International Journal of Engineering and Technology (IJET).
  • jan/2014 – Início da parceria
    A Unicamp inicia parceria com a IACSIT para organizar a 3ª ICCEA (Conferência Internacional de Engenharia Civil e Arquitetura), prevista para  30 de julho e 1º de agosto de 2014. O site da ICCEA informa a organização do evento do publisher chinês em parceria com a FEC (Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo), indicando que os trabalhos do evento serão publicados no IJET. (O site da ICCEA foi desativado, mas o link neste item remete para o conteúdo registrado no Archive.org.)
  • jul/2014 – Alerta em vão
    Professores da FEC alertam por e-mails a direção da faculdade que a IACSIT está na lista de publishers predatórios de Beall e também para o fato de a editora ser apontada na internet como organizadora de conferências científicas de reputação duvidosa. Apesar dos alertas, a instituição mantém o calendário do evento.
  • 31/jul e 1º/ago – A conferência
    A 3ª ICCEA é realizada no próprio campus da Unicamp, em Campinas.
  • ago/2014 – Papers dispersos e ‘pré-datados’
    Pelo menos 31 trabalhos acadêmicos apresentados à 3ª ICCEA são publicados no IJET, apesar de o periódico não estar classificado no Qualis/Capes em Engenharias I, que abrange as áreas da conferência (engenharia civil e arquitetura), mas em Engenharias II.

    • Em vez de serem reunidos em uma edição especial na forma dos tradicionais anais de congressos, os papers são publicados em diferentes edições ordinárias do IJET, e sem qualquer referência ao evento realizado na Unicamp.
    • Os estudos são apresentados no formato de artigos aceitos por periódicos e são cadastrados desse modo por 30 co-autores em seus currículos da Plataforma Lattes. Nas avaliações para concursos, promoções e solicitações de bolsas, artigos de periódicos têm maior peso do que trabalhos apresentados em eventos.
    • Apesar de serem publicados já em agosto de 2014 pelo IJET, os trabalhos apresentados à ICCEA são incluídos em edições bimensais on-line do periódico “pré-datadas” de junho a dezembro de 2015.
  • set/2014 – Professor pede sindicância
    No dia 9, Vinicius Arcaro, um dos professores da FEC que haviam alertado a diretoria da unidade em julho sobre a 3ª ICCEA 2014, protocolou na reitoria da Unicamp pedido de abertura de sindicância para apurar responsabilidades relacionadas à participação da faculdade na organização da conferência.
  • nov/2014 – Unicamp recusa-se a apurar
    Baseada principalmente em um relatório da própria FEC, a Procuradoria Jurídica da Unicamp concluiu em parecer que a 3ª ICCEA 2014 foi um evento bem sucedido, que projetou o nome da universidades cenários nacional e internacional e que o pedido de Arcaro não teria apresentado evidências suficientes para justificar a instauração de uma sindicância.
  • mar/2015 – Conferência vira notícia
    Na fase final de uma apuração para a Folha de S.Paulo sobre a extensão dos periódicos predatórios na pós-graduação brasileira, o jornalista Maurício Tuffani publica

    • no dia 6, em seu blog hospedado no jornal, o post “Apertem os cintos, o editor sumiu”, informando que o editor-chefe do IJET se identificava falsamente como professor de uma universidade dos EUA, o que levou a IACSIT a demiti-lo do comando do periódico;
    • no dia 9, também no blog, o post “Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas predatórias”, incluindo o IJET na relação de periódicos classificados no Qualis que violam critérios científicos para publicar artigos na internet em acesso aberto mediante cobrança de taxas dos autores; e
    • no dia 19, na própria Folha, a reportagem “Cientistas turbinam trabalhos apresentados em evento da Unicamp”, mostrando a parceria entre a FEC e a IACSIT e revelando que pelo menos 30 dos co-autores dos 31 artigos publicados no IJET cadastraram os papers em seus currículos Lattes como artigos de periódicos, e não como trabalhos apresentados em eventos; no dia 23, o jornal abriu com o exemplo da 3ª ICCEA o editorial “Ciência em revista”, que criticou duramente a tolerância acadêmica brasileira com os periódicos predatórios.
  • jun/2015 – Caso vai ao MP
    No dia 24, reclamando de falta de imparcialidade da reitoria na apreciação de seu pedido de sindicância e afirmando ter esgotado todas as possibilidades na Unicamp, Vinicius Arcaro protocola representação na sede do Ministério Público do Estado em Campinas. No dia 14 de julho, a universidade recebe ofício da promotora de Justiça Cristiane Hillal requisitando esclarecimentos sobre o caso no prazo de 30 dias. Em 15 de agosto, o blog Maurício Tuffani noticia a representação e a decisão da promotora, informando também que a universidade havia pedido prorrogação para a resposta (“Promotoria questiona a Unicamp por parceria com editora predatória”).
  • out/2015 – Respostas evasivas
    Após pedir novo adiamento, a Unicamp, sem contestar diretamente itens da representação de Arcaro ao MP e dando respostas evasivas a outros dos questionamentos decorrentes da exposição do professor, enviou parecer da própria FEC à promotoria. Insatisfeita com o posicionamento da universidade, a promotora de Justiça Cristiane Hillal pediu novos esclarecimentos no prazo de 30 dias.
  • nov/2015 – Evento ‘desaparece’
    Ao final das evasivas do seu parecer encaminhado pela reitoria como resposta ao MP em outubro, a diretoria da FEC se referiu à 3ª ICCEA 2014 como uma “marco importante” cuja relevância seria demonstrada com sua continuidade pela 4ª ICCEA 2015 em Malacca, na Tailândia. Acontece que o evento acabou não acontecendo (“Alguém sabe dizer se este evento aconteceu?”, 30/11/2015) e depois a própria série anual ICEEA deixou de constar do site da editora IACSIT. Questionada pela reportagem, a editora continuou a não dar respostas.
  • jan/2016 – Periódico é ‘abandonado’
    Após cerca de dez meses com o cargo vago devido à demissão, o IJET passou a indicar em seu site um novo editor-chefe.  Rebaixada no Qualis Periódicos da quinta (B3) para a sétima e penúltima classificação (B5) numa escala descendente de oito níveis, a revista deixou de constar na lista de publicações da IACSIT, que novamente não deu explicações.
  • fev/2016 – Unicamp decide apurar
    Mais de um ano depois de ter se recusado a instaurar sindicância e após novos adiamentos, sem ainda ter respostas para os questionamentos do MP, a Unicamp informou à promotoria ter decidido apurar responsabilidades envolvidas na organização da ICCEA. Anexado à comunicação, um parecer da procuradoria jurídica de dezembro, alegando fatos posteriores à sua análise anterior, propunha dessa vez a instauração de sindicância.  A promotoria decidiu então fixar prazo de 90 dias para a conclusão e encaminhamento dos resultados da apuração. (Ver “Questionada pelo MP sobre evento com editora predatória, Unicamp abre sindicância”, Direto da Ciência, 31/3/2016.)
  • jul/2016 – Reitoria não envia relatório
    Sem ter recebido da Unicamp o relatório da sindicância cujo prazo de conclusão se encerrou em maio, o promotor de Justiça substituto Rafael Amancio Briozo expediu ofício para a universidade fixando o prazo de 30 dias para encaminhar “o resultado de sindicância que diz ter instaurado, com cópia da portaria, das provas produzidas e do seu desfecho” (o grifo é da reportagem).

Na imagem acima, página de abertura do site da 3ª ICCEA (Conferência Internacional de Engenharia Civil e Arquitetura), realizada em 2014 na Unicamp em parceria com a editora chinesa IACSIT. O site da conferência foi desativado, mas seu conteúdo está registrado no portal Archive.org. Imagem: Reprodução.


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Um comentários;

  1. Leandro Moraes said:

    Mauricio Tuffani, pode acrescentar mais um item nesse histórico do caso: no dia 31 de março de 2015 a Diretora da FEC, Profa. Dra. Marina Sangoi de Oliveira Ilha defendeu no Conselho Universitário da UNICAMP essa vergonhosa parceria com a IACSIT, distorcendo o que sua reportagem mostrou sobre o assunto. Ela fez o Colegiado Máximo da Universidade achar que tudo foi correto.

Comentários encerrados.

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