Radicalismo acadêmico expõe sua incompetência na reunião da SBPC

A arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma,
o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a
teoria também se torna força material quando se apodera das massas.
(Karl Marx, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 1843)1

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

“Ser radical é tomar as coisas pela raiz”, disse Karl Marx no mesmo livro mencionado na epígrafe deste texto. No entanto, o radicalismo que predomina no ambiente acadêmico brasileiro não só está muito longe de ir à raiz dos problemas que diz querer atacar, mas também é incapaz de dialogar com a sociedade e muito menos de transformar sua crítica e seu discurso em “força material” (materielle Gewalte).2

Um dos mais lamentáveis exemplos dessa incapacidade de transformar a teoria em prática se transformou em notícia de repercussão nacional nesta semana. Foi a manifestação de grande parte de uma plateia contra a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, na quarta-feira (6/7), na 68ª Reunião Anual da entidade em Porto Seguro, no campus da Universidade Federal do Sul da Bahia (“Presidente da SBPC renuncia, governo nega general na Funai e outros destaques”, Direto da Ciência, 7/7).

Felizmente, na manhã de ontem o conselho da SBPC se reuniu em caráter extraordinário e por unanimidade não só apoiou a permanência de Helena Nader no cargo após convencê-la a não renunciar, mas também repudiou as agressões verbais contra ela por pessoas que não concordam com a participação de representantes da entidade em reuniões com o governo. Na noite de ontem, em nota de desagravo, a diretoria e o conselho da associação científica ressaltou que “manifestações de caráter violento que visam desqualificar pessoas, e não debater ideias, são incompatíveis com a missão da SBPC e o estado democrático de direito”.

No entanto, por mais deplorável que tenha sido a manifestação, ela era previsível, mesmo com suas vaias e agressões verbais. E era prevista não só por causa da polarização política em torno do governo provisório do vice-presidente em exercício Michel Temer (PMDB-SP) e do afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT-RS). Acontece que no ambiente acadêmico brasileiro essa polarização é muitas vezes completamente desprovida de senso prático, gerando uma retórica temperada por bravatas e palavras de ordem que não consegue angariar níveis mínimos de adesão da sociedade.

No balaço de seus erros e acertos, não há como deixar de reconhecer os resultados obtidos pela SBPC como trincheira da resistência da comunidade científica a desmandos e iniciativas deletérias do governo. Também não há como deixar de reconhecer que esse sucesso tem sido possível justamente devido à opção da entidade pela via da ação institucional no dia a dia, inclusive nos Anos de Chumbo.

Em que pesem a falta de investimento e outras formas de omissão e até mesmo de descaso do poder público com a pesquisa e o ensino superior no Brasil, não há como negar que a comunidade científica do país está em um ambiente privilegiado para o exercício da crítica. Professores de instituições de ensino superior federais e estaduais têm uma liberdade de manifestação que nem de longe pesquisadores e técnicos de órgãos governamentais têm condições de exercer. Mas muitas vezes têm feito um uso péssimo e irresponsável dessa liberdade, municiando cada vez mais as forças políticas contrárias à autonomia universitária que dizem combater.

Fazer oposição ao governo Temer é direito inquestionável de todo cidadão, e a SBPC em nenhum momento impediu em suas atividades a expressão desse direito, até mesmo por parte de membros de sua diretoria e inclusive em eventos oficiais com representantes do governo. Por exemplo, foi o que aconteceu na reunião promovida em São Paulo no dia 8 de junho com o ministro Gilberto Kassab (PSD-SP), da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações,  que teve seus argumentos para justificar a fusão que gerou sua pasta contestados pelo físico Ildeu Moreira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e vice-presidente da SBPC, com as seguintes palavras.

Esses argumentos são frágeis. Ciência tem interface com todas as demais áreas, não só Comunicações. Ninguém foi ouvido a respeito e até agora o governo não respondeu com clareza nossos questionamentos. Afinal, o que está por trás dessa fusão? Por que uma transferência tão drástica sem diálogo? Sem essas respostas, as pressões da comunidade tendem a se intensificar em todo o país.
(“Cientistas vão intensificar atos pela volta do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação”, de Cida de Oliveira, da Rede Brasil Atual)

Não sou um defensor incondicional da SBPC. Na verdade, em minha avaliação, a entidade tem sido incapaz de enfrentar problemas que são decorrentes do corporativismo das comunidades científica brasileira, a começar pela tolerância com publicações acadêmicas de baixo nível. Mas não dá para deixar de repudiar aqueles que dizem estar combatendo os erros dos atuais governantes mas, na verdade, até agora, além de não terem demonstrado competência nem responsabilidade para isso, nem para pelo menos sensibilizar uma mínima parcela da sociedade contra a fusão dos ministérios da Ciência e das Comunicações, estão atrapalhando aqueles que se esforçam no dia a dia para fazê-lo.

Nem de longe esse radicalismo de bravatas consegue ser verdadeiramente radical.

Referências

  1. Karl Marx, Crítica da filosofia do direito de Hegel, tradução de Rubens Enderle e Leonardo de Deus, supervisão e notas de Marcelo Backes, ed. Boitempo, 2005, pág 151.
  2. Karl Marx, Critique de la philosophie du droit de Hegel (edição bilíngue alemão-francês), ed. Auber, Paris, 1971, pág. 78.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

Amazônia Real

Agência Gestão de CT&I

Blog do Pedlowski

O Eco

Envolverde

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

G1

O Globo

Jornal da Ciência (SBPC)

The New York Times

Retraction Watch

Scholarly Open Access

Science

Science Daily

How solar energy can be transformed into fuel

Valor Econômico

 

Na imagem acima, ato contra a fusão dos ministérios da Ciência e das Comunicações, em 6/7, em Porto Seguro (BA), durante a 68ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Imagem do YouTube.


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9 Comentários

  1. Pedro Álvares said:

    Implodir o debate acadêmico maduro e republicano é tudo o que NÃO é necessário neste momento. O exemplo do editor deste blog é um farol no meio da tempestade atual.

  2. Rafael Garcia said:

    Não presenciei o que aconteceu em Porto Seguro, mas a impressão que os relatos passam é que realmente foi de um desrespeito tremendo com a profa. Helena Nader. O que essas pessoas fizeram inclusive prejudica o posicionamento de quem acha fraca a posição da SBPC diante da extinção/fusão do MCTI, mas a questiona com argumentos, não com bravatas.

    Apesar do esforço da profa. Helena, a atual direção da SBPC não têm conseguido confrontar à altura a decisão autocrática que foi aquela acabar com o MCTI. Não acho que entidade tenha que ter como papel engrossar o coro anti-impeachment, mas ela precisaria sim, ajudar o coro contra a extinção do MCTI, e o faz com muita timidez. Não ajudou manifestações, não se articulou com outros setores que têm a mesma posição, não planejou nenhuma ação mais ousada, não estimulou atos pacíficos de desobediência para confrontar essa medida do governo interino que foi tomada sem diálogo. Deixou-se convencer pela postura do ministro Kassab, que diz ser favorável ao diálogo, mas ignora demandas apresentadas pelo setor.

    A SBPC não precisa tomar partido contra ou a favor do impeachment, mas precisa, sim, pensar em uma maneira mais efetiva de confrontar o problema que representa a extinção/fusão do MCTI. Não vejo como fazer isso sem confrontar o governo interino que tomou essa decisão. Fazer isso não implica endossar o governo Dilma, que também foi ruim para a ciência. Implica apenas reconhecer a urgência de um problema presente.

    • Maurício Tuffani said:

      Caro Rafa,

      Também não presenciei as agressões verbais, mas o que pude assistir no YouTube foi mais que suficiente.

      Por outro lado, presenciei a reunião do dia 8 de junho em São Paulo, com a presença de Kassab, em que nem de longe a SBPC, assim como a ABC, “se deixou convencer pela postura do ministro”, como você afirmou. Confira as reportagens dos dias seguintes sobre essa reunião: “Kassab anuncia liberação de R$ 1,4 bilhão, mas não consegue atenuar críticas à fusão” (minha), “Contra críticas à fusão de ministérios, Kassab promete recriar conselho” (Gabriel Alves, Folha), “Cientistas vão intensificar atos pela volta do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação” (Cida de Oliveira, Rede Brasil Atual), “Cientistas endurecem críticas contra fusão de ministérios” (Fábio de Castro, Estadão) e “Novo ministro promete liberar dinheiro contingenciado” (Bruno de Pierro, Pesquisa Fapesp).

      As bravatas às quais me refiro não são os argumentos contra a atitude da SBPC, nem poderiam ser. Elas consistem não só nas contumazes e brancaleônicas afirmações do tipo “vamos fazer e acontecer”, que, salvo exceções, são recorrentes por parte desse “radicalismo”, mas também, especialmente no caso em questão, em vincular a rejeição à fusão ministerial a um “vamos fazer e acontecer” em relação ao governo Temer, que até agora também não passou de conversa fiada regada a recordações de 1968.

      Com toda a sua “expertise” em manifestações e protestos e com a estrutura de seus próprios sindicatos e associações, a comunidade acadêmica não necessita de suporte de outras entidades para confrontar o MCTIC e o governo Temer.

      Abraço,

      Maurício Tuffani

    • Leandro Moraes said:

      Fico contente por ver um jornalista da golpista Folha de São Paulo como o Rafael Garcia se posicionar a favor da SBPC confrontar nas ruas o Governo Temer e o Ministro Kassab. O Otavinho deixa? (rsss) Mas concordo com Mauricio Tuffani: só faltava a SBPC gastar o pouco dinheiro que tem com organização de manifestações. Não pode. Temos sindicatos de docentes e servidores tecnicos e administrativos que podem e devem fazer isso. Sem falar nos DCEs, que estranhamente estão dormindo no ponto.
      Parabéns pelo Direto da Ciência, Mauricio Tuffani! Você não consegue disfarçar que é meio conservador, mas consegue ser bem equilibrado.

  3. Marcia Xiló said:

    O articulista se mostra como profundo conhecedor de Marx mas sua análise é muito rasa e descontextualizada do conjunto da obra desse filósofo, economista e sociólogo alemão cujo pensamento é insuperável. Ele pode espernear à vontade contra os que não se deixam envolver pelos aparelhos de dominação. O mundo que o cerca será inexoravelmente implodido pelas suas próprias contradições internas, dando origem a uma nova humanidade, que enterrará definitivamente esta Pré-História. Como disse Marx em sua “Contribuição para a Crítica da Economia Política”,

    “Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali.
    De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social.
    Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela.”
    e
    “As forças produtivas, porém, que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para a solução desse antagonismo.
    Com esta formação social se encerra, portanto, a pré-história da sociedade humana.”

    • Maurício Tuffani said:

      Senhora Marcia,

      Seu comentário distorce a realidade logo de início com sua afirmação de que eu teria me mostrado como “profundo conhecedor” do que quer que seja. Mas, a julgar por seu comentário, não deve ser maior que a de um pires a profundidade de sua compreensão sobre o alcance da Crítica da filosofia do direito de Hegel. Deixando esse ponto de lado, faço apenas uma observação sobre sua interpretação da obra que cita — e que, na verdade, possui todo um a priori sobre a civilização que o marxismo jamais questionou e nem sequer tematizou. Percebe que sua leitura não difere muito da visão messiânica do Juízo Final?

      Atenciosamente,

      Maurício Tuffani
      Editor
      Direto da Ciência

  4. Nagib Nassar said:

    Mauricio, parabéns pela intelectualidade e visão ampla. Sua interpretação é mais cientifica do que a de qualquer um dos que gritam slogans sem conteúdo nenhum. Você mostrou para todo mundo que você leu e entendeu clássicos de Marx e Hegel mais do que os que gritam. Espero que tenha dado uma lição para que eles leaim antes gritar e entendam antes de protestar !!
    Acredite: um dos falam de leituras marxistas disse que a mudança climática é falsa porque não se enquadra no materialismo dialéctico! É completamente ignoranca, pois nada pode fortalecer o principio hegeliano dialéctico de transformação quantitativa a qualidade nova como a mudança climática.

  5. Flavio Abrão said:

    Mauricio Tufanni matou a cobra e mostrou o pau.

  6. Gilberto Camara said:

    Maurício, parabéns pelo comentário sensato. O que aconteceu em Porto Seguro foi um espelho de uma doença séria da universidade brasileira: o esquerdismo sem limites. Quando operários fazem greve, eles tem o salário descontado e podem ser demitidos do emprego. Fazer baderna na fábrica levaria a punições severas. Os gestores são escolhidos por mérito e não por filiação partidária. Na universidade, ao contrário da fábrica, não há controles e nem punições. Pode-se ser inconsequente e irresponsável à vontade, pois nada acontece. Reitores escolhidos por voto, professores que não são avaliados, bolsas que são dadas para quem não tem mérito. Resultado: tudo é permitido e não há limites. Estamos jogando fora nosso futuro por conta de um esquerdismo inconsequente e um uso indevido dos limitados recursos públicos aplicados no setor.

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