Ideia da função de cientista-chefe emperra no governo Alckmin

O governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, em 16/dez/2014, anuncia para sua gestão a ter início no ano seguinte, a escolha do novo secretário da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econonômico, deputado e vice-governador eleito Marcio França. Foto: Guilherme Lara Campos/A2 Fotografia.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Apesar de ter avançado a passos largos em iniciativas polêmicas como a venda de áreas de estações experimentais de seus institutos de pesquisa, o governo de São Paulo andou com velocidade de tartaruga para pôr em prática uma ideia que o próprio Executivo estadual havia anunciado no ano passado como uma medida a ser tomada para melhorar sua articulação na área de ciência e tecnologia: a criação da função de cientista-chefe nas secretarias estaduais.

A ideia foi anunciada em agosto do ano passado pelo vice-governador Márcio França (PSB) na abertura de uma reunião com representantes de todas as fundações estaduais de fomento do Brasil, na sede da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Em nota da assessoria de imprensa da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (SDECTI), da qual ele é também o titular, ele afirmou:

“Em conjunto com a Fapesp, o Governo do Estado vai elaborar um programa, onde cada secretaria contará com pesquisadores que identificarão as demandas e apontarão um formato de estudo em prol da população.”

A ideia surgiu em março do ano passado em uma reunião na Fapesp. O vice-governador reclamou à diretoria do órgão que o governo estadual não estava vendo investimentos em pesquisas em necessidades relevantes e urgentes da população, como o combate à dengue e a crise hídrica. Depois de ser esclarecido que a reclamação era improcedente, França e a fundação arredondaram a versão de que ele teria pedido a colaboração da entidade para “aproximar o que está sendo pensado na academia do que o Estado está precisando” (“Secretário de Desenvolvimento Econômico e CT&I visita a FAPESP”, 25/mar/2015).

Consultada por este blog, a SDECTI respondeu com seguinte nota na semana passada (4/jul).

A Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação e Fapesp elaboraram proposta de minuta de Decreto para estabelecer o Programa Cientista-Chefe, cujo o texto encontra-se em análise pela Assessoria Jurídica do Governador. 
Em paralelo, a proposta já foi encaminhada às Pastas envolvidas com o tema, para que se manifestem sobre a viabilidade e interesse, entre outras medidas de caráter protocolar. 

Inspirada em exemplos do Reino Unido e de Israel, a sugestão de instituir um cientista-chefe em cada secretaria estadual foi explicada pelo diretor-científico Carlos Henrique de Brito Cruz. Nessa mesma nota da Fapesp de março do ano passado com a versão sobre a reunião com França, ele afirmou:

“Na Inglaterra, por exemplo, esse trabalho é feito por professores de boas universidades, que permanecem no cargo por um ou dois anos e depois são substituídos. Aqui também seria possível licenciar um professor da área por um ou dois anos para exercer a função de constantemente procurar como a ciência e a tecnologia poderia ajudar uma determinada secretaria em seu trabalho. Se o Estado de São Paulo fizesse isso, seria um exemplo para o Brasil sobre como conectar pesquisa com ações de governo.”

A reclamação do vice-governador e secretário foi uma preliminar de outra, por parte do governador Geraldo Alckmin no final de abril deste ano, que rendeu uma enorme repercussão negativa de âmbito nacional. Ao abordar essa derrapada do governador paulista, o artigo “O canal entupido de Alckmin com a ciência” (27/abr), de Direto da Ciência, já havia observado que a ideia de implantar a função de cientista-chefe estava travada.

Além de ser uma boa alternativa para políticos, a SDECTI tem uma situação peculiar e privilegiada em relação às demais secretarias estaduais, como Direto da Ciência já observou no artigo acima citado. Todos os órgãos vinculados a essa pasta são autarquias, como a  própria Fapesp, o Centro Paula Souza — das prestigiadas ETECs e FATECs —, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), a Junta Comercial do Estado,  o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), que é gerido em conjunto com o governo federal, e as três universidades estaduais Unesp, Unicamp e USP.

Em outras palavras, por só lidar com órgãos da administração descentralizada, exceto seu próprio gabinete e suas coordenadorias, a SDECTI, que se encontra desde o início da atual gestão sob o comando do vice-governador, não precisa enfrentar o duro trabalho de outras secretarias estaduais, que têm tarefas pesadas decorrentes de suas responsabilidades por abranger órgãos da administração centralizada. Por essa e outras razões, não há motivos defensáveis para a ideia ter emperrado.

 

Vale a pena ler de novo

No ano passado, em 31 de agosto, este jornalista tinha seu blog na Folha de S.Paulo, onde publicou o post “Os cientistas-chefes e as verdades inconvenientes”, quase que simultaneamente com o colunista Marcelo Leite, do mesmo jornal, que já havia se adiantado com “Ciência no poder faz água? Faz chover?”. Vale a pena ler.

 

Bandidagem pesada na Amazônia

Entre as principais notícias de ciência desde o final de semana, destaca-se a série de reportagens especiais “Terra Bruta”, dos jornalistas  André Borges e Leonencio Nossa, no Estadão, que teve início na edição on-line no sábado com  “Pistolagem, devastação e morte no coração do Brasil” e seguida ontem com “Avião despeja agrotóxico em famílias de agricultores”. Em formato especial para internet, as matérias mostram a situação, no entorno da Floresta Amazônica de trabalhadores e suas famílias que

Estão marcados para morrer. Como eles, há centenas de outros na lista do crime organizado que avança sobre as terras da União rumo à Amazônia, maior reserva tropical do planeta. Ao mapear a grilagem em sete Estados do Norte e Centro-Oeste do País, o Estado identificou 482 focos ativos de tensão e violência conflagrados sob incentivo dos últimos governos e do Judiciário em 143 municípios, uma realidade descolada das mudanças de poder na política nacional.

 

Análises sobre Base Curricular

Os dois grandes diários paulistas publicaram interessantes análises da Base Nacional Curricular Comum. Ontem, na Folha, houve as avaliações específicas em biologia (“Temas sociais sobrecarregam nova base curricular para ensino médio”), de Marcelo Leite, e em física (“Texto de nova base avança, mas ainda tem trechos preocupantes”), de Salvador Nogueira. Hoje o Estadão trouxe a entrevista de Simon Schwartsman a  Gabriel Manzano (“Base curricular tem detalhes demais e lhe falta melhor visão do estudante”).

 

 Pesquisa parada por cortes

“Do supercomputador à nanotecnologia contra câncer: quatro grandes projetos científicos que estão parados no Brasil”, da jornalista Camilla Costa, publicada nesta segunda-feira (11/jul) pela BBC Brasil. A reportagem mostra exemplos lamentáveis do resultado d corte de verbas na área de ciência, tecnologia e inovação.

 

Existe situação pior

Nos próximos dias Direto da Ciência mostrará que existe também pesquisa com recursos garantidos, mas que está atrapalhada por politicagem.

 

Governo reconhece 133 cursos

A Secretaria da Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação publicou nesta segunda-feira no Diário Oficial da União sete portarias de reconhecimento de 133 cursos de ensino superior.

 

Em cima da hora: acidente com Raupp

Notícia do G1, hoje às 11h42:

O ex-ministro de Ciência e Tecnologia do governo Dilma Rousseff, Marco Antônio Raupp, sofreu um acidente de carro na BR-354, em Caxambu (MG), e está internado no Hospital Cônego Monte Raso, em Baependi. Raupp, de 78 anos, está na UTI do hospital, que não passou mais informações.
(“Ex-ministro de Dilma é internado em UTI após acidente de carro em MG”).

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

 

Agência Fapesp

Agência Gestão de CT&I

Amazônia Real

BBC Brasil

Carlos Orsi

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

O Globo

InforMMA

Jornal da Ciência (SBPC)

Nature News

The New York Times

Science

Valor Econômico

Na imagem acima, o governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, em 16/dez/2014, anuncia para sua gestão a ter início no ano seguinte, a escolha do novo secretário da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econonômico, deputado e vice-governador eleito Marcio França. Foto: Guilherme Lara Campos/A2 Fotografia.


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4 Comentários

  1. Donizete Ramos said:

    Prezado Mauricio Tuffani, além do já dito por você neste artigo, a explicação para essa “lerdeza” da SDECTI está completamente desvendada em três parágrafos de seu outro artigo, “O Canal entupido de Alckmin com a ciência”. Esse outro artigo foi a primeira análise que pegou no cerne do papel político-partidário da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação nos últimos anos. Parabéns! Copio abaixo esses três valiosos parágrafos.

    http://www.diretodaciencia.com/2016/04/27/o-canal-entupido-de-alckmin-com-a-ciencia/

    AGENDA POSITIVA
    Além de não ter o ônus do dia a dia das outras secretarias com a burocracia da Fazenda e de outros órgãos centrais, a SDECTI leva ainda outra vantagem sobre elas: sua agenda predominantemente positiva, com muitas inaugurações outros eventos relacionados a projetos de desenvolvimento econômico, atendimento de prefeitos e deputados, sempre com direito a muitas fotos e destaques na imprensa do interior do estado.

    TRAMPOLIM DE POLITICOS
    Em vez de ser confiada a gestores com perfil de planejamento ou de inovação, a SDECTI passou a ser nos últimos anos entregue a políticos, geralmente em campanha eleitoral. A começar pelo próprio Alckmin no período de 2009 a 2010, quando se elegeu para o mandato de governador de 2011 a 2014. Também foram titulares da pasta o então deputado estadual pelo PSDB Paulo Barbosa (2011-2012), prefeito de Santos desde 2013, o atual deputado federal pelo DEM Rodrigo Garcia (2013-2014) e o atual vice-governador Marcio França, também secretário desde o início da atual gestão em 2015, que tem sido apontado como candidato do PSB para o Palácio dos Bandeirantes em 2018.

    CANAL ENTUPIDO
    Desde que Alckmin inaugurou essa tradição politiqueira na SDECTI, a pasta passou a ter uma interlocução deficiente com seus órgãos vinculados, em vez de ser uma instância de efetiva articulação como foi em anos anteriores. Dentro desse espírito, a secretaria teve titulares como Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo (1988-1991), Roberto Müller Filho (1993-1994), Emerson Kapaz (1995-1996), Flávio Fava de Moraes (1998-1999), Ruy Martins Altenfelder Silva (2001-2002) e o próprio João Carlos de Souza Meirelles (2003-2006), já na primeira gestão de Alckmin como governador eleito.

  2. Welbi Maia Brito said:

    As manifestações de 2013 exigia dos governos o gasto responsável do dinheiro público e qualidade dos serviços prestados. E é isso que o Governo Alckmin tem feito. O objetivo é economizar dinheiro e pesquisas. Não haverá nenhum prejuízo para as atividades de pesquisa no Estado. Uma gestão moderna e responsável age assim, economiza recursos, sem perder a qualidade dos serviços, para aplicar o dinheiro onde é mais importante.

    • Leandro Moraes said:

      “O objetivo é economizar dinheiro e pesquisas.” É isso mesmo? Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!! Confesse, meu caro Welbi: você é um inimigo de Alckmin que se faz passar por defensor dele! Quem tem aliados como você não precisa de inimigos!

    • KATIA MAZZEI said:

      Com todo respeito pela sua opinião Welbi, mas não se economiza “dinheiro e pesquisa”. Pesquisa é investimento, portanto não “gastar é o mesmo que não investir”. Não vejo gestão moderna por qualquer ângulo de raciocínio, pois não há planejamento para aumentar a produção de conhecimento com a infraestrutura atual ou sua substituição por outro modelo. Insistir no estado mínimo dessa forma é gerir em direção ao nada. Lamentável!

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