A distorção quântica volta ao Brasil

Amit Goswami diz ser criador de ‘novo paradigma da física’, mas não debate com cientistas

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Um dos grandes legados do pensamento de Paul Feyerabend (1924-1994) é o ensinamento de que os avanços da ciência muitas vezes ocorrem graças às transgressões dos preceitos rígidos do conhecimento. Autor de importantes obras da filosofia da ciência, entre elas “Contra o método” e “Adeus à razão”, o pensador austríaco tem sido frequentemente citado por aqueles que propõem novas interpretações das teorias científicas.

O mesmo acontece com a obra do físico teórico e historiador da ciência norte-americano Thomas Kuhn (1922-1996), autor de “A estrutura das revoluções científicas”. Esse livro, que define o conceito de “paradigma” como um conjunto de compromissos conceituais, metodológicos e instrumentais compartilhados pelos membros de uma especialidade científica durante um determinado período, tem sido amplamente invocado para justificar toda e qualquer proposta para a ciência como “novo paradigma”.

O apelo a interpretações distorcidas de obras como as de Feyerabend, Kuhn e de outros pensadores tem sido frequente para “justificar”, por exemplo, desde a negação dos fatores antropogênicos — ou seja, gerados pela humanidade — no aquecimento global à recusa da seleção natural das espécies proposta por Charles Darwin, propondo, ao mesmo tempo, a chamada teoria do design inteligente (TDI), que é uma versão sofisticada do criacionismo.

Infelizmente uma outra distorção da ciência também tem se apoiado indevidamente no pensamento desses pensadores, seja por seu formulador, seja por seus defensores. Trata-se da obra do físico indiano Amit Goswami, que em novembro, no Brasil, será uma das principais atrações do 1º Congresso Internacional: Felicidade, Prosperidade, Abundância e Física Quântica.

Autoajuda

Doutor pela Universidade de Calcutá e professor emérito da Universidade do Oregon, Goswami se apresenta como “referência mundial em estudos que buscam conciliar ciência e espiritualidade”. Mas não é uma referência científica, como tenta fazer parecer o aparato de propaganda por trás dele.

Autor de best sellers que cada vez mais têm muito mais a ver com autoajuda do que com ciência, como “O Universo Autoconsciente”, “A Física da Alma”, “O Médico Quântico”, “O Ativista Quântico” e outros, Goswami se tornou muito mais conhecido mundialmente por sua participação nos filmes “Quem Somos Nós?” (2004) e “O Segredo” (2006) e por suas palestras organizadas em vários países pelos editores de seus livros.

Existem muitas diferentes sobre a mecânica quântica, algumas delas muito heterodoxas, e um interessante estudo sobre isso foi publicado em agosto de 2013 pelos físicos Maximilian Schlosshauer (da Universidade de Oregon, nos EUA, a mesma de Goswami), Johannes Kofler (do Instituto Max Planck de Óptica Quântica, em Garching, na Alemanha), e Anton Zeilinger (do Instituto de Óptica Quântica e Informação Quântica, em Viena, na Áustria, um dos principais pesquisadores de experimentos com teletransporte).

Publicado no periódico Studies in History and Philosophy of Science  com o título “A Snapshot of Foundational Attitudes Toward Quantum Mechanics”, o artigo nem sequer cita Goswami. (Uma versão preliminar do estudo, de janeiro de 2013, pode ser acessada gratuitamente na base de dados arXiv.org.)

Ciência e religião

Embora não caiba à ciência tratar de questões de fé, não quer dizer que cientistas e religiosos não podem abordar a relação entre a ciência e a religião. É possível, tratar o tema com honestidade intelectual, como fez, por exemplo, com seu livro A Linguagem de Deus” (2006), o médico e geneticista Francis Collins, diretor dos NIH (Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos), que foi líder internacional do Projeto Genoma Humano de 1993 a 2008.

Tive a oportunidade de questionar Goswami em agosto de 2007 no “Roda Viva”, da TV Cultura. No programa, que foi exibido apenas em fevereiro de 2008, comprovei que não havia repercussão de seus trabalhos para a comunidade científica, ao contrário do que pregavam os divulgadores de seus best sellers. Apresentei registros da base de dados Web of Science, que indicavam nove trabalhos publicados por Goswami desde janeiro de 1986e que tiveram, até a véspera da entrevista, apenas 46 citações em todo o mundo —quase todas dele mesmo ou de seus colaboradores— em artigos indexados nessa base de dados. Em outras palavras, o trabalho dele é irrelevante para a ciência.

‘Novo paradigma’

Questionei Goswami também por ele articular ideias científicas descartando aspectos que não são convenientes para as teses dele. Cheguei na ocasião a registrar dezenas de trechos em seus livros com considerações sobre Albert Einstein e a mecânica quântica, mas omitindo que esse cientista combateu essa teoria nas três últimas décadas de sua vida. Iniciando sua resposta com o chavão de dizer que a pergunta era muito importante, o físico indiano fugiu da questão. Segue parte da resposta.

“Eu não acho que bater de frente em debates com cientistas específicos fará alguma coisa a favor da nossa causa de mudança de paradigma. O paradigma será mudado a partir do peso de evidências em favor dele. Atualmente, o que nos ajuda muito é que temos aplicações práticas na área da medicina, da psicologia… Infelizmente, eu acho que você não consultou quantas vezes a minha obra é citada em trabalhos de psicólogos, de profissionais da saúde e de outros, ainda, não-pertencentes às ciências puras. Sim, é verdade que aqueles das ciências puras, os físicos, os químicos e até mesmo os biólogos, preferem oferecer a chamada ‘negligência benigna’. Eles não se envolvem com essa questão, pois fazendo isso acabarão dando maior publicidade para mim, algo considerado por eles prejudicial à sua causa. Então, deixá-los viver do modo deles e nós do nosso é agora a melhor abordagem.”

Em outras palavras, o físico indiano alega que a ciência rejeita seu suposto “novo paradigma científico” porque há um complô de cientistas para não lhe dar visibilidade. Como eu já disse ao comentar Goswami e seus livros em outros textos — o mais recente em meu blog anterior, na Folha (28/fev/2015) —, o sucesso do físico indiano se deve principalmente ao descrédito geral das instituições e à esperança niilista de que todas elas, inclusive a ciência, desmoronem para dar a algo de novo.

Tomei conhecimento da nova vinda de Goswami ao Brasil por meio do post “Picaretagem quântica no congresso da felicidade”, no blog Tubo de Ensaio, do jornalista Marcio Campos, do jornal Correio do Povo, de Curitiba, no Paraná. Valeu, Marcio!

 

Links de destaques

Na semana passada eu disse que havia notado que, monitorando os acessos ao blog, poucos leitores estavam acessando as reportagens e outros textos de minha seleção de destaques na internet. Por essa razão e por ter estado naqueles dias com mais atividades externas, optei por não publicar esses links. A maior parte dos comentários sobre isso foi feita em particular. Todos os que se manifestaram pediram para continuar com a seleção diária. OK, publico hoje, mas ainda continuo à disposição para apreciar as opiniões das pessoas que quiserem opinar sobre isso, aqui neste mesmo post, no espaço de comentários abaixo, ou reservadamente no Fale Conosco.

 

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

Agência Fapesp

Agência Gestão de CT&I

Blog do Altino Machado

Blog do Pedlowski

Capes – Notícias

O Eco

Envolverde

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

Gene Repórter

O Globo

Jornal da Ciência (SBPC)

Nature News

The New York Times

Pesquisa Fapesp

SciELO em Perspectiva

Science

Valor Econômico

 

Na imagem acima, o físico indiano Amit Goswami em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, gravado em agosto de 2007 e transmitido em 28 de fevereiro de 2008. Imagem: Reprodução.


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4 Comentários

  1. Maria Luiza de Oliveira said:

    Maurício, nesse evento da ‘felicidade quântica’, de 19 e 20 de novembro, será anunciada a criação da Universidade Livre de Saúde Quântica, alegadamente já aprovada no Mec. É muito abuso da credulidade alheia! Basicamente o mesmo pessoal dessa universidade já tem na Uninter uma especialização em saúde quântica aprovada pelo Mec — conferi no site do Mec. A Uninter anuncia como pós-graduação e atrai terapeutas em geral com o discurso de que terão um título. Isso é muito grave, não sei quem deu assessoria ao Mec. Isso não é física. Pode até ter resultados porque se ajusta a várias linhas terapêuticas (acupuntura, reiki, massagem etc.). O discurso quântico seria totalmente descartável se não atríasse a freguesia.

    Um dos apoiadores disso tudo é a Fisioquantic, que produz medicamentos ‘quanticamente dinamizados’ e vende para massagistas, acupunturistas etc. Para encurtar, seguem aqui 2 links: http://www.fisioquantic.com.br e http://www.revistasaudequantica.com.br/Videos/1623-Dra.-rosangela-arnt-falando-sobre-terapia-vibracional-quantica/ .
    Nestes dias, enviei mensagem para você pelo Facebook. Estou repetindo aqui para ter mais certeza de que chegará a você.
    Parabéns pelo seu trabalho.

  2. Sandro Lambert said:

    Meu nome é Sandro Lambert. Eu debato com vc quando e onde quiser, vou sozinho…. marque o debate, escolha a midia….estou totalmente a disposição e o desafio. Derrubo todos os seus argumentos pacificamente, sem luta, arrogancia, impertinencia ou desvalorização de sua pessoa… meu objetivo é justamente defender, expor e explicar de forma clara e inquestuiionavel não só o que o Amit divulga, mas dar uma amplitude, cor e sólidos argumentos de que a mecanica quantica verdadeira tem por objetivo explicar que o pensamento e a emoção humana criam toda a realidade a nosso redor…

    aguardo a data dia e hora deste debate….

    Atenciosamente: Sandro LAmbert

  3. Leila Marrach said:

    Tenho observado um forte componente milenarista nas propostas de novos paradigmas, isto é, anunciam um tempo de justiça, paz, saúde, felicidade… que chegará, como o título do congresso mencionado no artigo. Algumas sugestões no campo da metodologia científica, que prometem capturar o objeto na sua complexidade, também padecem desse mesmo problema. São anunciações para um novo tempo, pós-apocalipse.

  4. Roberto Berlinck said:

    Prezado Maurício,
    Ótima postagem. Como sempre. Mostra que Goswami é mais um membro da comunidade dos pseudo-cientistas que, por um lado se acham donos da verdade, e de outro, se fazem de “vítimas do sistema”.
    Quanto à postagem de Marcos Pedlowski da qual você incluiu o link (https://blogdopedlowski.com/2016/07/23/jeffrey-beall-desmonta-um-dos-mitos-do-trash-science-revistas-predatorias-e-a-transferencia-da-propriedade-intelectual/), nada mais verdadeiro. Em 2014 dei um parecer para um artigo submetido para uma revista que se diz não-predatória. Muito bem, meu parecer foi longo e detalhado, pois rejeitei o artigo. Os autores tomaram meus argumentos, converteram nos argumentos deles e re-submeteram o artigo para a mesma revista que, para meu profundo espanto, aceitou. Conhecendo o editor, escrevi diretamente à ele, que respondeu dizendo que o artigo havia sido reformulado e por isso foi aceito. Porém, com base nas minhas considerações. Fiquei tão indignado que nunca mais dei parecer para qualquer artigo daquela revista.

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