Dinheiro para pesquisa da Unicamp foi pago a empresa de professores

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Cerca de R$ 782 mil do total de aproximadamente R$ 2,46 milhões de um contrato de serviços de pesquisa a serem prestados pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foram pagos pela concessionária de energia elétrica AES Tietê S/A de outubro de 2010 a agosto de 2012 à Hidrasoft Engenharia e Comércio Ltda., em que eram sócios os professores proponentes e executores do projeto. Encerrada em setembro de 2015, a empresa é a mesma que pertenceu aos membros de bancas examinadoras e seus candidatos citados na reportagem “Docente da USP foi aprovado por sócios em concurso público e em doutorado”, publicada por Direto da Ciência em 11 de agosto.

Apesar de não constar no contrato de prestação de serviços que a AES Tietê S/A assinou com a universidade e a Fundação para o Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp) para a realização do projeto de pesquisa intitulado Gestão Integrada de Riscos em Sistemas Hidro-Eletro-Energéticos (Gishele), a empresa Hidrasoft Engenharia e Informática Ltda. foi indicada como participante do trabalho contratado em uma página do site da concessionária de energia que não está mais acessível, mas permanece registrada no repositório de dados Archive.org.

O valor exato pago à Hidrasoft foi de R$ 782.399,94 no item correspondente a despesas com “recursos humanos”, segundo informação prestada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em 23/10/2015 com base na Lei de Acesso à informação registrada no site da CGU. O valor total desembolsado pela AES Tietê S/A foi de R$ 2.459.840,67.

Esses recursos são previstos na lei 9.991, de 2010, que obriga as empresas concessionárias, permissionárias e autorizadas do setor de energia elétrica a investir 0,75% de sua receita operacional líquida em atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) em sua área de atuação.

 

Nenhuma menção

O projeto Gisheli foi executado pelos professores Paulo Sérgio Franco Barbosa, ex-diretor da da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp e atual coordenador de Pesquisa da unidade,  e Alberto Luiz Francato, atual vice-diretor, que foram sócios da Hidrasoft, encerrada em setembro de 2015.

Após ser proposta por Barbosa, a iniciativa foi aprovada inicialmente pelo Departamento de Recursos Hídricos e, em seguida por outras instâncias da universidade, entre elas a Agência de Inovação (Inova Unicamp), o Conselho de Extensão e a Procuradoria Geral. Em nenhuma dessas manifestações constou qualquer menção à empresa Hidrasoft.

O projeto Gishele consta também, e sem nenhuma menção à empresa dos dois professores que o executaram, nas edições do Anuário de Pesquisa da Unicamp de 2010 (item 27), 2011 (item 25), 2012 (item 24), 2013 (item 30) e 2014 (item 29).

 

Aditivos ao contrato

O Conselho Universitário da Unicamp, órgão máximo da universidade, aprovou termos aditivos ao contrato celebrado em julho de 2010 com a AES Tietê. Em 27 de setembro de 2011, o colegiado aprovou retroativamente o primeiro termo, assinado em 4 de janeiro do mesmo ano, que acrescentou R$ 1.645.064,00 ao valor inicial de R$ 1.538.504,00. Em 6 de agosto de 2013 o conselho aprovou também retroativamente o segundo aditivo, firmado um ano antes (09/ago/2012), que acrescentou seis meses ao prazo de vigência de 24 meses incialmente previsto.

Nenhuma menção consta à empresa Hidrasotf Engenharia e Informática Ltda nos extratos dessas duas deliberações do Conselho Universitário da Unicamp, publicados no Diário Oficial do Estado respectivamente em 18 de agosto de 2011 e em 15 de agosto de 2013.

O valor final aprovado na Unicamp para o contrato do projeto Gishele foi de R$ 3.183.568,00. Há uma diferença de R$ 6.459,34 entre esse valor e o total de R$ 3.177.108,66, indicado na planilha “Projetos de P&D Propostos pelas Empresas de Energia Elétrica”, do site da Aneel, onde também consta o valor total realizado de R$ 2.459.840,67.

 

Outros sócios

Conforme informações de seus próprios currículos Lattes, também teriam participado do projeto Gishele os professores Mario Thadeu Leme de Barros e Renato Carlos Zambon, da Escola Politécnica da USP, que também foram sócios da Hidrasoft Engenharia e Informática Ltda. Nesses registros, ambos apontam a participação na pesquisa de outro sócio, o pesquisador-colaborador João Eduardo Gonçalves Lopes, da Unicamp, que, no entanto, nada menciona sobre esse trabalho em seu Lattes.

Outro docente que registra em seu Lattes a participação no projeto Gisheli de todo o quadro societário da extinta Hidrasoft é o professor Tiago Zenker Gireli, da Unicamp, que também afirma ter atuado no citado trabalho, embora nenhum dos demais mencione esse docente como participante dessa pesquisa em seus currículos naquela plataforma.Mario Thadeu Leme de Barros, da USP, associa também em seu Lattes o Gisheli ao diretor-presidente da AES Tietê S/A, o engenheiro Ítalo Tadeu de Carvalho Freitas Filho. A menção ao dirigente aponta sua coautoria em dois trabalhos apresentados em conferências, um deles referente à ferramenta de informática SolverSIN, desenvolvida no âmbito do projeto, e outro mais conceitual, conforme os registros transcritos a seguir.

LOPES, João Eduardo G ; Barros, M.T.L. ; Zambon, R. C. ; FREITAS FILHO, I. T. C. . SolverSIN: A Practical Model for Large Hydrothermal System Analysis.. In: In: World Environmental & Water Resources Congress, 2013, Cincinnati. SolverSIN: A Practical Model for Large Hydrothermal System Analysis., 2013.

BARBOSA, Paulo Sergio Franco ; FREITAS FILHO ìtalo Tadeu de Carvalho ; FRANCATO, A. L. ; LOPES, João Eduardo G ; Zambon, R. C. ; Barros, M.T.L. . Gestão Integrada de Riscos em Sistemas HidroEletroEnergéticos..  In: In: VII Congresso de Inovação Tecnológica em Energia Elétrica CITENEL, 2013, Rio de Janeiro. Gestão Integrada de Riscos em Sistemas Hidroqletroenergéticos., 2013.

No entanto, Barbosa e Francato, que foram os próprios executores do projeto na Unicamp, não o mencionam eu seus próprios currículos na plataforma Lattes, atualizados respectivamente em 6 de dezembro e em 5 de setembro de 2015. E também não esclareceram o motivo dessa omissão.

 

Sem respostas

Na segunda-feira (22/ago) pela manhã, dois dias antes de esta reportagem ser publicada, todos os professores e pesquisadores aqui citados foram comunicados por e-mail por Direto da Ciência sobre todas as informações detalhadas acima. As mesmas informações foram submetidas no mesmo dia às assessorias de imprensa da Unicamp e da AES Tietê. Apenas a Funcamp, por falha de envio, recebeu o e-mail ontem (terça-feira, 23/ago).

Os professores Paulo Sérgio Franco Barbosa e Alberto Luiz Francato não responderam às perguntas encaminhadas pelos e-mails endereçados para eles e informados por recados por telefone com suas secretárias. Também foi deixado recado para Barbosa na caixa de mensagens de seu celular. Francato atendeu ligação telefônica, mas afirmou que não conversaria com a reportagem e que a assessoria de imprensa da Unicamp se encarregaria de responder, o que não ocorreu.

O professor Tiago Zenker Gireli e o pesquisador-colaborador João Eduardo Gonçalves Lopes, ambos da Unicamp, não responderam às perguntas enviadas por e-mail e não atenderam às tentativas de ligações para seus telefones. Os docentes Mario Thadeu Leme de Barros e Renato Carlos Zambon também não responderam aos e-mails para eles encaminhados, que foram informados por meio de recados deixados com a secretaria do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental.

A Unicamp não respondeu às questões encaminhadas à sua assessoria de imprensa, entre elas a pergunta sobre se a universidade teve conhecimento dos pagamentos feitos pela AES Tietê à empresa dos professores executores do projeto Gishele. O pedido de respostas foi reforçado por telefonemas à assessoria na segunda-feira e na terça-feira. As questões encaminhadas à Funcamp foram copiadas para a assessoria de imprensa da Unicamp.

A AES Tietê S/A e seu diretor-presidente Ítalo Tadeu de Carvalho Freitas Filho não responderam às questões encaminhadas por meio de mensagens para sua assessoria de imprensa, que foram reiteradas por telefonemas na segunda-feira e na terça-feira. Assim como a concessionária de energia, a Unicamp e a Funcamp não responderam às perguntas sobre se tinham conhecimento de que os executores do Gisele foram sócios da Hidrasoft Engenharia e Informática Ltda e sobre quem solicitou e quem aprovou inclusão da Hidrasoft Engenharia e Informática como participante do projeto, de modo a viabilizar sua remuneração.

Além de enviar os pedidos de respostas às perguntas aos professores, pesquisadores à Unicamp, à Funcamp e à AES Tietê S/A, Direto da Ciência também se colocou à disposição para apreciar quaisquer considerações sobre essas questões e as informações acima que lhes foram previamente comunicadas.

 

Na imagem acima, entrada principal do campus da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foto: Unicamp/Divulgação..


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12 Comentários

  1. Ana Carolina said:

    A UNICAMP não respondeu ainda? Nem sequer uma nota de posicionamento da Reitoria? O Conselho Universitário – CONSU precisa tomar uma atitude. Esse silêncio vergonhoso aponta para a suspeita de culpa no cartório.

  2. Barão de Itararé said:

    Essa “Gisele” já teve outro nome, certo professores?

  3. Inacreditavel said:

    O mais interessante é a “Análise Jurídica” feita pela UNICAMP: … Embora à Administração seja vedada a formalização de Contratos com efeitos retroativos, entendo que no presente caso tal situação possa ser aceita …

    É ilegal, mas nós vamos assinar!!! É isso mesmo, confere produção?

  4. Brasileiro said:

    A Dilma já falou que tinha doutorado pela Unicamp e a universidade não desmentiu. A Dilma está envolvida em corrupção e grande parte dos professores e alunos dessa universidade acha que é golpe. Agora, aparece fraude acadêmica e fraude com dinheiro público e o Reitor acha que não é com ele. Onde está o Ministério Público? É o caso de privatizar e parar de jogar dinheiro fora. Continue puxando o fio da meada, o que será que virá?

    • Bruno said:

      Seu comentário pode (veja bem, pode) ter alguma dose de verdade, mas não condiz e não acrescenta em nada a reportagem

  5. Marcos said:

    Muito mais do que essa omertá acadêmica, o que me me deixa sem esperanças para o futuro é a indiferença dos estudantes. Fazem greve, cadeiraço, trancaço, intimidação, mas não se vê eles se promoverem um mísero ato de protesto contra essa bandalheira.

  6. Sergio Soares said:

    A UNICAMP respondeu para a matéria sobre as bancas examinadoras com os mesmos professores sócios da mesma empresa citada no artigo de hoje. Disse que abriu Sindicância e Processo Administrativo. Qual é a dificuldade agora para a UNICAMP responder que:
    – Não sabia do caso até agora e vai apurar os fatos.
    – Ficou sabendo dos fatos depois que aconteceram e já tomou providências.
    Ou não foi uma coisa nem outra?

  7. Thiago said:

    Oi gente, desculpe aí minha ignorância, mas não consegui entender bem o rolo. Alguém pode simplificar a estória?

  8. Unicampineiro Indignado said:

    É revoltante a UNICAMP e a FUNCAMP não terem respondido as perguntas do jornalista. Essa matéria precisa ser mandada para o Ministério Público Federal e o Estadual.

Comentários encerrados.

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