Em atrasos do governo, como o da sucessão no Inpe, quem paga somos nós

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Apesar de o sucessor do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já ter sido escolhido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Informações e Comunicações (MCTIC) no final de junho, o governo federal ainda não tem previsão para sua nomeação ser publicada no Diário Oficial da União, informou a Casa Civil da Presidência da República ontem (terça-feira, 20/set) por meio de sua assessoria de imprensa. Essa situação também está sendo noticiada hoje pelo jornalista Gabriel Alves, na Folha (“Inpe aguarda posse de novo diretor há 4 meses; pesquisadores se queixam”).

Em 1º de julho, como noticiou Direto da Ciência, o  MCTIC confirmou que já havia enviado para a Casa Civil a documentação para ser publicado o decreto de nomeação do físico e engenheiro Ricardo Magnus Osório Galvão para o mandato de quatro anos no cargo de diretor do Inpe, de São José dos Campos (SP). A reportagem de hoje da Folha informa mais precisamente que esse encaminhamento aconteceu em 16 de junho.

Por força do regimento interno do Inpe, seu diretor, o engenheiro mecânico e doutor em física teórica Leonel Fernando Perondi, teve de cumprir a obrigatoriedade reunir o Conselho Técnico-Científico do órgão, com pelo menos seis meses de antecipação ao término do período de quatro anos de seu exercício no cargo, para enviar ao ministério o pedido de criação de um comitê de busca encarregado de indicar uma lista tríplice para a escolha de seu sucessor pelo governo.

O comitê foi formado por Marco Antonio Raupp, ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação e ex-diretor do Inpe, Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Rogério Cezar de Cerqueira Leite, professor emérito da Unicamp e presidente do Conselho de Administração do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), Luiz Bevilacqua, ex-presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB) e professor emérito da UFRJ, e o tenente-brigadeiro-do-ar Reginaldo dos Santos, dirigente pelo lado brasileiro da Alcântara Cyclone Space (ACS), empresa binacional brasileiro-ucraniana em fase de extinção, vinculada ao MCTIC.

Encerrados seus trabalhos, o comitê de busca encaminhou em 27 de abril a lista tríplice com os nomes de Galvão e dos pesquisadores César Celeste Ghizoni e Thelma Krug para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que se fundiu com a pasta das Comunicações após o início do governo interino de Michel Temer (PMDB-SP). A secretária-executiva do MCTI, Emilia Ribeiro, então como ministra interina, acabou deixando a escolha para Gilberto Kassab (PSD-SP), que assumiu o MCTIC em 12 de maio.

Perondi informou a Direto da Ciência que ainda ontem esteve reunido com Galvão. Segundo o dirigente, essa foi mais uma das conversas de ambos sobre assuntos prioritários do órgão desde que foi anunciada a escolha do sucessor. Galvão, por sua vez, para facilitar os trabalhos Sociedade Brasileira de Física (SPF), deixou a presidência da entidade, para  a qual havia sido reeleito para o biênio 2015-2017.

É compreensível que Kassab, logo que assumiu o cargo em 12 de maio, não tenha feito de imediato a escolha a partir da lista tríplice. Mas pelo menos ele definiu Galvão cerca de um mês depois como sucessor de Perondi. Por outro lado, além de inexplicável, a protelação por parte da Casa Civil gera muitos problemas práticos, além de desconfianças. Por exemplo, a suspeita de desprestígio de Kassab frente ao governo, como afirmou à Folha o especialista em geoinformática Gilberto Câmara, que foi diretor do Inpe antes de Perondi.

É ótimo que exista o diálogo que Perondi informou estar mantendo com Galvão. Mesmo assim, um compasso de espera como esse, à espera por uma “canetada” anunciada e protelada, faz mal para qualquer instituição governamental. Até mesmo em transições de governo, a demora na escolha de sucessores de dirigentes gera um clima de desconforto, quando não de insegurança, não só para o começo de novas iniciativas, mas até para o prosseguimento de iniciativas que exijam novas avaliações. As consequências tendem a ser muito mais graves em áreas como saúde, educação, ciência e meio ambiente.

Aqueles que ocupam cargos nos níveis mais altos da hierarquia governamental, como é o caso da Casa Civil da Presidência da República, cujo ministro-chefe é o ex-deputado e ex-ministro dos transportes e da Aviação Civil Eliseu Padilha (PMDB-RS), precisam entender que exercem atividade-meio, e que quem paga por seus erros, omissões e atrasos são aqueles que estão na atividade-fim, nas linhas de frente e, principalmente, toda a sociedade.

 

Corporativismo acadêmico

O Correio Braziliense publicou na segunda-feira (19/set) em seu site o artigo “A universidade: entre academia e politização”, do agrônomo e geneticista Nagib Nassar. O autor, que é professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), destaca que após os regimes militares e a democratização na década de 1980, as universidades latino-americanas se tornaram ambientes onde não houve inserção social, mas partidarização, principalmente no Chile, na Argentina e no Brasil. Seguem dois trechos do artigo.

A universidade perdeu qualidade de ensino quando a direção dos órgãos universitários passou a ser definida por eleição direta.
(…)
Numa eleição direta na universidade, as promessas corporativas, partidárias têm precedência sobre as acadêmicas, pois respeitar o uso do dinheiro público implica mais trabalho para todo mundo.

 

Resistir é preciso

Fiquei sabendo pela newsletter de segunda-feira (19/set) do Jornal da Ciência, da SBPC, do editorial “It Is Necessary to Resist” (Resistir é preciso), da edição de outubro próximo do Journal of the Brazilian Chemical Society. Assinado por Aldo José Gorgatti Zarbin, presidente da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), o texto destaca que enquanto governos de diferentes países aumentaram os investimentos públicos em ciência e Tecnologia como estratégia para superar crises econômicas globais — inclusive a China, que anunciou um impulso em seu programa de C&T, aumentando em quase 9% do investimento em 2016 —, “o Brasil está remando no lado oposto da história, e tendo em conta as recentes acções, o cenário para o futuro próximo tende a piorar”. Segue um trecho do editorial, em tradução livre.

O Brasil não pode retroceder. O Brasil está passando por uma crise econômica, política e institucional, e um investimento robusto em educação e C&T é um meio natural e barato para iniciar a reversão deste quadro. A prevenção desse retrocesso é responsabilidade de todos os atores diretamente envolvidos no Sistema Nacional de Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação. Estudantes, professores, pesquisadores, pós-docs, técnicos e seus sindicatos representativos deve lutar com urgência contra o aperto do orçamento destinado a C&T.

 

Sem seleção de destaques

Além de viagens deste editor, nas últimas semanas Direto da Ciência tem se concentrado em atividades de apuração de informações, inclusive externas para reportagens. Por essa razão, não têm sido possíveis as publicações diárias de colunas nem da seleção de destaques da internet. Agradecemos antecipadamente pela compreensão.

 

Na imagem acima, o presidente Michel Temer (PMDB-SP) e o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB-RS), no Palácio do Planalto, em Brasília, em 13 de setembro. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.


Apoie o jornalismo crítico e independente de Direto da Ciência

Você acha importante o trabalho deste site? Independência e dedicação têm custo. E conteúdo exclusivo e de alta qualidade exige competência e também investimento para ser produzido. Conheça o compromisso de Direto da Ciência com essa perspectiva de trabalho jornalístico e com seus leitores. (Clique aqui para saber mais e apoiar.)


Receba avisos de posts de Direto da Ciência.

Informe seu e-mail para receber avisos. Ele não será fornecido a terceiros.

Para sua segurança, você receberá uma mensagem de confirmação. Ao abri-la, basta clicar em Confirmar, e sua inscrição já estará concluída. Você sempre poderá, se quiser, cancelar o recebimento dos avisos.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

Top