Grandes esperanças – para o CNPq

NAGIB NASSAR,
Especial para o Direto da Ciência*

Refiro-me ao título da obra de Charles Dickens para expressar minhas esperanças no novo presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e em sua administração para resgatar a qualidade da ciência e garantir eficácia na distribuição de recursos para a pesquisa no Brasil. Trata-se de uma situação em que o país ocupa o 50º lugar em 53 países analisados pela revista Nature.1,2,3

Uma de nossas esperanças é a nova administração tomar providências para melhorar o sistema de avaliação de projetos de pesquisa para que uma produção cientifica compatível com gastos possa levar nossa ciência a um melhor patamar.

Um dos passos para melhor distribuição de recursos não deverá acontecer somente no nível individual de cada pesquisador, mas também no de cada instituição. Durante vários anos, o CNPq privilegiou a concessão de recursos para universidades bem desenvolvidas em detrimento de instituições no início de crescimento carentes do apoio que precisam, fazendo ricos ficarem mais ricos e pobres, mais pobres. Pesquisadores com bom potencial dessas instituições têm ficado desprovidos da assistência que precisam. Isso foi motivo de muitos protestos. Fez até com que pesquisadores de uma universidade de Minas Gerais devolvessem suas bolsas ao CNPq.

Os editais nos últimos seis anos receberem duras críticas na forma e no conteúdo. Somente era dirigido a pesquisadores de todas as áreas o edital universal, com valores entre R$ 200 milhões a R$ 400 milhões, que foi dominante até doze anos atrás. Nos anos seguintes, surgiram tipos diferentes de editais, com temas específicos e pouco potencial para gerar resultados de impacto. Foram interpretados como se fossem dirigidos a determinados grupos de pesquisadores, sem considerar qualificações necessárias para a boa ciência e sem chances para a participação de outros cientistas com qualificação. As condições colocadas têm pouco mérito científico.

Um exemplo disso é o edital para segurança alimentar na União de Nações Sul-Americanas (Unasul), publicado no mês passado.4 Da mesma forma que outros editais dos anos anteriores, esse tem características comuns, como valor mínimo do projeto, de valor não inferior a algumas centenas de milhares de reais mas chegando a milhões, distribuídos em material de consumo, passagens aéreas, diárias e bolsas.

Os requisitos desse edital dão o exemplo do baixo potencial de produção cientifica de qualidade. Ele exige que a equipe interinstitucional tenha um integrante da instituição Unasul e seja constituída por pesquisadores de áreas de educação popular, nutrição, agroecologia, educação ambiental, educação de campo e desenvolvimento rural. Essa exigência combina especialidades que não são do próprio melhoramento, e esta área, que é a essencial, foi esquecida! Como é possível deixá-la de fora e combinar essas especialidades em uma equipe que se supõe capaz de melhorar alimentos? Além disso, o edital não exige experiência em melhoramento ou trabalhos de distinção anteriores em equipe para garantir resultados desse investimento milionário.

Editais como esse, que proíbem e impedem pesquisadores mais aptos de receber recursos públicos, não prometem resultados nem impacto nenhum, e colocam em dúvida se há realmente uma seleção independente e uma avaliação realista dentro de uma livre competição.5,6,7

Há outros problemas nesses editais Nos últimos anos eles passaram a restringir a participação aos pesquisadores com classificações 1A ou 1B no CNPq. Essa é uma classificação artificial, obtida por meio de critérios absurdos, como, por exemplo, o número de publicações, em vez de valores científicos universais, como a qualidade ou impacto desses trabalhos. Essa classificação ignora também o papel e a contribuição do pesquisador num trabalho publicado, atribuindo a ele um crédito que ele não merece. Um autor principal é tratado com o mesmo peso de outro em meio a até mais de uma dezena, parecendo depender de carona para publicar. Esse tipo de dependência é altamente rejeitada por analistas sérios de política cientifica. Mas, por meio dela, e graças à avaliação adotada pelo CNPq, não é raro encontrar um pesquisador 1A que nunca foi principal autor de uma publicação numa revista de alto impacto em toda a sua vida científica.

As distorções dessa classificação e as restrições estabelecidas em editais levam a uma distribuição de recursos nacionais a pesquisadores sem potencial de produção científica de qualidade ou de impacto. E deixa outros, com maior potencial, privados de ter oportunidades.

Um dos critérios principais de classificação A1 ou A2 para pesquisadores é o número de alunos pós-graduados, mestres e doutores orientados por ele, sem qualquer menção a publicações originadas de suas teses. É mais uma distorção que levou à formação deficiente de pós-graduados e de uma geração inteira de doutores inaptos, mal preparados. É frequente encontrar esse pesquisador 1A, que formou mais de 50 mestres e doutores sem uma única publicação em um periódico de impacto.8,9

O julgamento de projetos é mais uma parte dramática desta história. Nessa atividade, consultores ad hoc são escolhidos pelo técnico da área sem controle ou acompanhamento de autoridade superior. Ocorrem, frequentemente, pedidos consulta, de um bioquímico especialista em transformação molecular para julgar um assunto de anatomia botânica ou vice-versa, o que pode acarretar pareceres injustos levados ao comitê assessor.6,7

Se o consultor ad hoc tem impedimento ético ou conflito de interesse com o autor do projeto, seu parecer cheio de erros será levado ao comitê assessor sem qualquer acompanhamento pelas autoridades competentes. E se esse consultor der um parecer desfavorável contrariando sua consciência, não haverá nenhuma cobrança da administração da instituição para corrigir o prejuízo causado para o pesquisador e para a distribuição dos recursos. Há queixas e reclamações de centenas de pesquisadores sobre situações desse tipo.7,8,9

A falta de follow-up e controle por parte dos dirigentes é alvo de muitas reclamações de pesquisadores. Tem sido comum nos últimos anos diretores das áreas principais, que moram distante da instituição, no Rio ou em São Paulo, virem ao CNPq um dia ou dois a cada semana somente para assinar a papelada e deixar suas responsabilidades e atribuições aos técnicos e funcionários menos qualificados para tal decisões.8,9

Há uma expectativa por ações que se concretizem em passos positivos para mudar os rumos do CNPq. E para que a esperança não se transforme em desilusão.

*NAGIB NASSAR, Ph. D. em genética pela Universidade de Alexandria (1972), no
Egito, é professor emérito da Universidade de Brasília. Recebeu em 2014 o
prestigiado Prêmio Kuwait Internacional e o dedicou integralmente ao apoio de
pesquisas de jovens cientistas sobre mandioca e à Fundação Nagib Nassar para o Desenvolvimento Científico e Sustentável.

 

Referências

  1. “Nature Index 2014, Middle & south America”. Nature 515, págs 91-92, 12/11/2014.
  2. Gabriel Alves, “Gasto brasileiro com ciência é muito pouco eficiente, diz Nature”, Folha de S.Paulo, 17/nov/2014.
  3. Rogério Cezar de Cerqueira Leite, “Produção científica e lixo acadêmico no Brasil” , Folha de S.Paulo, 6/jan/2015.
  4. Chamada CNPq/MCTIC nº 016/2016, Segurança Alimentar e Nutricional no Âmbito da Unasul, CNPq, setembro de 2016.
  5. Nagib Nassar, “Critérios de produção científica no CNPq”, JC Notícias, nº 3771, 28/mai/2009.
  6. Nagib Nassar, “Os mistérios do CNPq”, JC Notícias, nº 5190, 3/jun/2015.
  7. Nagib Nassar, “Professor da UnB comenta questão dos critérios para concessão de bolsas de produtividade do CNPq”, JC Notícias, nº 3499, 28/abr/2011.
  8. Nagib Nassar, “CNPq: A configuração e os desafios”, JC Notícias, nº 4254, 10/5/2011.
  9. Nagib Nassar, “Por novos rumos na ciência”, Folha de S.Paulo, 24/jun/2016.

Na imagem acima, edificio-sede do CNPq, em Brasília. Foto: Marcelo Gondim e Carlos Cruz/CNPq/Divulgação.


* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Apoie o jornalismo crítico e independente de Direto da Ciência

Você acha importante o trabalho deste site? Independência e dedicação têm custo. E conteúdo exclusivo e de alta qualidade exige competência e também investimento para ser produzido. Conheça o compromisso de Direto da Ciência com essa perspectiva de trabalho jornalístico e com seus leitores. (Clique aqui para saber mais e apoiar.)


Receba avisos de posts de Direto da Ciência.

Informe seu e-mail para receber avisos. Ele não será fornecido a terceiros.

Para sua segurança, você receberá uma mensagem de confirmação. Ao abri-la, basta clicar em Confirmar, e sua inscrição já estará concluída. Você sempre poderá, se quiser, cancelar o recebimento dos avisos.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

2 Comentários

  1. José Castro Aguiar said:

    Péssimo artigo de quem não entende que distribuição de recursos em Ciência no mundo todo se dá por mérito acadêmico e não para ajudar os pobres…

    • Maurício Tuffani said:

      Não há no artigo nenhuma afirmação que sustente seu comentário. Pelo contrário, o texto critica justamente o desprestígio da valorização do mérito.

*

Top