Fala de Crivella sobre darwinismo constrange até criacionistas

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Leitores deste blog me questionaram por eu ter deixado “passar batido” o fato de um dos candidatos a prefeito do Rio de Janeiro, o senador Marcelo Crivella (PRB), ser criacionista. Ou seja, ele é contrário à teoria da evolução dos seres vivos por meio da seleção natural, apresentada por Charles Darwin em seu livro A Origem das Espécies, de 1859.

A principal referência apontada por esses leitores é um vídeo no YouTube que mostra um pronunciamento de Crivella no Senado em 2 de fevereiro de 2009. Esse dia foi a segunda-feira seguinte à publicação pela revista Veja de uma reportagem de capa sobre os 150 anos desde a publicação da obra A Origem das Espécies, de Charles Darwin.

Inconformado com o destaque crítico dado pela revista aos opositores à teoria da evolução, o senador do PRB fluminense foi à tribuna do plenário e fez um pronunciamento. Publicado originalmente em março de 2012 pelo UOL Mais, o vídeo de 2,5 minutos mostra de fato um posicionamento criacionista do senador. (Quem estiver com dificuldade de conexão para vídeos pode ouvir o áudio do UOL Mais.) Mas este post tem mais novidades sobre essa fala do parlamentar.

A imprensa já havia divulgado esse pronunciamento de Crivella, que também é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. O problema, porém, é muito maior que a posição criacionista expressada pelo atual candidato a prefeito. O vídeo de 2,5 minutos revela, na verdade, um enorme desconhecimento do senador do PRB até mesmo sobre rudimentos do assunto sobre o qual se dispôs a comentar na tribuna do Senado.

Na verdade, a fala do senador chega a ser desastrosa para o próprio esforço de criacionistas nas últimas décadas para dar um verniz com um mínimo de cientificidade em sua empreitada de negação do evolucionismo. Ao terminar de ouvir o áudio dessa gravação pela primeira vez, pensei de imediato na possibilidade de se tratar de uma montagem com finalidade satírica ou para desacreditá-lo.

Somente agora, fazendo mais uma pesquisa quase no fechamento deste post, notei que os aspectos mais graves desse caso, apesar de não terem sido  mostrados, ou pelo menos devidamente destacados pela imprensa, já foram bem explicados pelo biólogo Fabio Machado, em seu blog Haeckeliano, que recomendo (ver “Crivella, criacionista ‘arroz-com-feijão’, tenta criticar evolução e acaba criticando sus própria religião”, 13/mar/2012). Mas não é só isso.

 

‘Ameba primordial’

Segue a transcrição completa desse áudio, no qual destaco em negrito seu trecho mais insensato.

Há 150 anos, um inglês, naturalista, Charles Darwin, propôs uma teoria na qual haveria, segundo ele, a evolução de todos os seres vivos a partir de uma ameba e que as espécies iriam não só evoluir na sua gênese, no seu gênero, mas também criar novas espécies. Ele falava também numa transformação evolutiva de invertebrados para vertebrados. Todas essas teorias no mundo científico foram debatidas 150 anos. Não passam de teoria. E, portanto, senhor presidente, não há provas conclusivas de que haja qualquer indício na natureza de que uma espécie possa gerar outra espécie. Se a teoria de Darwin fosse uma realidade, teria o consenso da comunidade científica como têm as leis de Newton ou as leis de Einstein, mais recentemente.  Ela também é uma lei que depende das pessoas acreditarem no milagre, porque o surgimento da vida de uma ameba ou a partir de uma ameba traz o primeiro questionamento: E a ameba, surgiu de onde?  Ora, e se a doutrina do evolucionismo está correta, se um gênero se transforma em outro e a natureza assim evolui, por que não se encontrou até hoje um fóssil sequer em que seja metade anfíbio e metade ave, ou peixe? Ou um fóssil sequer que traga características de metade homem, metade macaco? Aonde está esse elo (…)?

Lamentavelmente, o áudio não é resultado de montagem. Crivella realmente fez essas afirmações que o mostraram completamente ignorante sobre o que são as mutações dentro de espécies em sua tentativa de explicação do evolucionismo. Apesar de o senador entender como uma outra coisa completamente absurda esses seres meio-a-meio, Fabio Machado, explica corretamente o assunto no trecho transcrito a seguir de seu post acima citado.

Mas tais fósseis foram achados! Na verdade a transição entre anfibios e aves não necessita sequer de fósseis, pois temos grupos vivos que são transicionais entre esses grupos: os lagartos e, principalmente, os crocodilos. De qualquer forma, temos uma infinidade de dinossauros (transição répteis-aves), tetrapodas basais (transição peixe-anfíbio) e uma multitude de interemediários meio-homem, meio-macaco que o ministro tão indignadamente demanda, sendo que inclusive falei em outro post sobre o mais recente deles: Ardi. É óbvio que o ministro, assim como a maioria dos criacionistas, conhecem esses fósseis, e sabem que eles são considerados transicionais. Eles sabem, mas negam de qualquer forma.

 

Mais disparates

Eu teria me limitado a recomendar a leitura desse post do blog Hackeliano se Crivella, nesse seu desastrado pronunciamento, tivesse “apenas” propalado as tresloucadas afirmações registradas nesse vídeo. Mas as declarações disparatadas do senador do PRB foram mais além, como mostrou o registro da taquigrafia do Senado de toda essa sua fala na tribuna, que contêm trechos como o seguinte.

Falo isso da tribuna do Senado como engenheiro. A primeira lei da termodinâmica, cientificamente provada, não como teoria, não como tese, mas aceita por todo o meio científico, consagrada no mundo intelectual, é clara, dizendo que a energia não se cria e não se destrói. Portanto, Sr. Presidente, não há provas conclusivas de que haja qualquer indício na natureza de que uma espécie possa gerar outra espécie.

Mas o que tem a ver a Primeira Lei da Termodinâmica, também conhecida como Princípio de Joule — segundo a qual em um sistema fechado a energia total se conserva —, com o processo de mutações dentro de espécies, sua relação com o ambiente e a seleção natural dos indivíduos mais adaptados?  Absolutamente nada.

OK, mesmo tendo ele formação superior, de engenheiro, não se deve exigir dele um conhecimento consistente sobre a teoria da evolução por meio da seleção natural. Mas não dá para aceitar que um senador da República ocupe a tribuna não só para se pronunciar sobre o que não sabe, mas também para  expressar em poucos minutos sucessivas demonstrações de que desconhece mesmo superficialmente o que está falando.

 

Ensino nas escolas

No fim de setembro, antes do primeiro turno das eleições municipais, Crivella foi questionado pelo jornal O Globo sobre se ele é a favor do ensino religioso nas escolas municipais. Em entrevista aos jornalistas Maiá Menezes, Jeferson Ribeiro, Gustavo Schmitt e Bruno Góes, ele afirmou:

Eu acredito no criacionismo, mas o ensino é voluntário. Desde que os pais, os professores e a própria criança queiram. Eu acredito no que aconteceu comigo: aos seis anos de idade, eu tomei a decisão de ser metodista. Papai respeitou, mamãe respeitou.
(“A Universal não vai participar do meu governo’, diz Marcelo Crivella”, 24/set)

Em seu impetuoso pronunciamento em 2009, no entanto, ele não foi muito claro em relação a essa laicidade, e também deixou sérias dúvidas sobre sua concordância com ela, uma vez que afirmou.

Quero aqui parabenizar as escolas presbiterianas, as escolas metodistas e as escolas adventistas que colocam para os seus alunos tanto a teoria criacionista científica, como também a teoria evolucionista nas suas teses. E cabe a cada um, dentro da liberdade que deve haver no mundo científico, a decisão de crer naquilo que achar mais provável. Eu, criacionista, creio em Deus, creio que o Universo foi criado por uma força sobrenatural, por um Deus em quem creio de todo o meu coração.

 

Esquece isso!

Tenho boas relações com alguns criacionistas, apesar de minhas críticas ao criacionismo. (Na verdade, sou cético demais para ser um defensor do darwinismo, mas entendo que até o momento não há nenhuma outra formulação científica em condições de substituí-lo.) São pessoas cuja fé se sobrepõe aos preceitos da ciência, mas não ao ponto de fazê-los deixar de compreender a teoria que tentam rejeitar.

“Por favor, esqueça esse assunto. Lembrar essas posições de Crivella sobre o evolucionismo nos deixa tão constrangidos com elas quanto muitos dos republicanos nos Estados Unidos com os absurdos das falas de Donald Trump”, disse um pastor do Rio de Janeiro que pediu para que nem ele e nem sequer sua igreja fossem identificados pelo blog.

Questionado por este blogueiro, o senador Marcelo Crivella, candidato do PRB à Prefeitura do Rio de Janeiro, respondeu por meio meio de nota de sua assessoria de imprensa que “reitera que o Estado é laico e que as políticas públicas de seu eventual governo não terão qualquer influência de suas convicções religiosas”. A nota acrescentou que “em 15 anos de vida pública, Crivella nunca misturou política com religião”.

Na imagem acima, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), atual candidato a prefeito do Rio de Janeiro, em pronunciamento contra a teoria da evolução no Senado em fevereiro de 2009. Imagem de vídeo do UOL Mais/reprodução.


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