USP deixa imprensa sem respostas sobre denúncias de irregularidades

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Solicitar informações à Universidade de São Paulo sobre assuntos sensíveis que envolvam sua administração tem sido um trabalho desgastante para jornalistas, inclusive por meio da Lei de Acesso à Informação. Apesar de ser mantida por recursos públicos, a universidade tem agido muitas vezes como uma instituição sem compromisso com a transparência pública de seus atos administrativos.

Desta vez é o próprio Informativo Adusp, da Associação dos Docentes da USP, que há meses aguarda por uma resposta da reitoria sobre denúncias de uso de um laboratório da Escola Politécnica e seus equipamentos não só para fins comerciais, mas também de modo a caraterizar “concorrência desleal” em licitações.

Não é a primeira vez em que a imprensa aborda esse tipo de problema. No ano passado, o jornal O Estado de S. Paulo publicou as reportagens “Fundação da USP paga empresas de docentes” e “Pesquisadores da USP são sócios de firmas beneficiadas por contratos”. A direção da Escola Politécnica defendeu os docentes citados e a reitoria limitou-se a afirmar que investigaria as denúncias.

Informativo Adusp se refere a uma licitação de um contrato para o porto de Suape, em Pernambuco, envolvendo docentes da Escola Politécnica, uso do laboratório Tanque de Provas Numérico e a participação da Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE). A entidade privada, que é controlada por docentes da faculdade. Em junho, a Poli forneceu para a reportagem alguns documentos e respostas. Mas a reitoria nada informou sobre se tomou providências, como a apuração de responsabilidades.

Direto da Ciência recomenda a seus leitores a ampla divulgação do assunto, por exemplo, por meio do compartilhamento do link da reportagem “Empresa denuncia FDTE e docentes da Poli por concorrência desleal. Reitoria silencia” (26/jun).

 

Também sem reposta

Direto da Ciência também aguarda por respostas da USP sobre se a universidade tomou ou não alguma medida em relação ao alerta que recebeu da Unicamp em 22 de fevereiro deste ano sobre os fatos relacionados à reportagem “Docente da USP foi aprovado por sócios em concurso público e em doutorado”, publicada por este blog em 11 de agosto.

 

Outro sigilo absurdo

Sobre a USP e fatos mantidos sob sigilo, mais um comentário. Ao contestar as críticas da Adusp à iniciativa da universidade de usar o trabalho da empresa de consultoria McKinsey, a Folha não deixou de recriminar a reitoria por não revelar os nomes de ex-alunos que hoje são os empresários que se teriam se responsabilizado pelos custos desse trabalho.

O “puxão de orelha” foi dado pelo editorial “A USP do futuro”, que comentou a  “Em crise, USP contrata consultoria privada para novo modelo de gestão”, do jornalista Paulo Saldaña, que no ano passado estava no Estadão e escreveu as duas matérias mencionadas no tópico anterior.

Assim como o jornal, também não concordo com o posicionamento do sindicato de professores da USP refratário a parcerias com o setor privado. Mas vale a pena conferir mais detalhes sobre a forma como a reitoria da universidade tratou do assunto, em um histórico publicado na sexta-feira (4) pelo Informativo Adusp na reportagem “Doadores anônimos, papéis secretos, incógnitas. Eis o caso USP-McKinsey”.

 

Silêncio das ONGs

Ainda sobre sigilo, mas desta vez sobre a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (SMA), um leitor deste blog encaminhou ontem (domingo, 6) o seguinte comentário sobre o post “A suspeitável ‘leveza’ das ONGs com o sigilo da secretaria ambiental de SP”, de sexta-feira (4), comentando uma das tema implicações de minha reportagem “SP põe sob sigilo nomes de proprietários rurais de cadastro ambiental”, publicada pelo UOL no dia anterior.

“Maurício Tuffani, você reparou que desta vez não teve nenhum ambientalista ou ongueiro compartilhando esse seu artigo no Face? Porque será? Rsssssss!!!!!!!”

De fato, percebi que aconteceu mais ou menos isso, mas não sei dá para generalizar. Vieram também mensagens privadas “apimentadas” sobre o assunto, inclusive se referindo a projetos ambientais de algumas ONGs que contariam com apoio financeiro do agronegócio.

Na minha opinião, há diferentes formas possíveis de atuação de entidades ambientalistas, e a parceria com o agronegócio e a indústria é necessária, até porque sem o engajamento do setor produtivo não haverá como combater o desmatamento, prevenir o aquecimento global nem outras ações essenciais para o chamado desenvolvimento sustentável. Mas será muito ruim se todas as ONGs mantiverem um código de silêncio sobre assuntos sensíveis entre elas.

 

Opiniões e engano

Dois bons artigos do final de semana merecem ser lidos complementarmente um ao outro. No sábado (5), o Estadão publicou “Com mudamos de opinião”, do biólogo e colunista Fernando Reinach. No dia seguinte, foi a vez de “E se estivermos errados?”, na Folha, de autoria do articulista Hélio Schwartsman, graduado em filosofia e letras clássicas.

Reinach comentou um estudo publicado recentemente na Science sobre um modelo matemático aplicado a interações entre opiniões no nível individual após a inclusão de uma nova informação. Um aspecto interessante e o da rejeição da novidade, por mais comprovada que seja, em função de crenças já consolidadas. A ideia desse mecanismo não é nova, mas o algoritmo do estudo abre caminho para modelos matemáticos mais sofisticados, capazes de prever o impacto na opinião pública de uma nova informação.

Com base no livro “But What If We’re Wrong?” (Mas e se estivermos errados), de Chuck Klosterman, o artigo de Schwartsman explica como o autor, se baseando nas importantes teorias científicas que foram superadas por outras (por exemplo, a física de Newton pela de Einstein), cogita a rejeição de grandes crenças contemporâneas, especialmente na religião e na política.

 

Pesquisa Multiestratégica

Será realizado neste segunda-feira (7) das 14h às 17h e transmitido ao vivo pela internet o seminário “A Necessidade da Pesquisa Multiestratégica”, o oitavo da série “Investigação das Possibilidades e as Implicações da Pesquisa Multiestratégica”. Promovida pelo Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA), a série é organizada por Hugh Lacey, pesquisador visitante CNPq-IEA-USP, que estuda o princípio de precaução e a agroecologia.

A pesquisa multiestratégica foi proposta por Lacey como uma abordagem alternativa à predominante, que ele denomina de “Tecnociência Comercialmente-Orientada”, que, segundo ele, “tende a dar prioridade à geração das inovações tecnocientíficas que contribuam para o crescimento econômico e valores relacionados”. Tendo como comentadores os professores Marcos Barbosa da Oliveira, da Faculdade de Educação, e Pablo Rubén Mariconda, do Departamento de Filosofia da USP. A transmissão será realizada pelo canal do IEA.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde o final de semana.

 

Carlos Orsi

Época

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

Gene Repórter

O Globo

Nature News

Nexo

Observatório do Clima

Science

UOL

Valor Econômico

 

Na imagem acima, fachada do laboratório Tanque de Provas Numérico, da Escola Politécnica da USP. Foto: Marcos Santos/USP Imagens.


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