Estudo aponta ‘forte desequilíbrio’ na revisão de artigos científicos

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

“O crescimento da produção científica pode ameaçar a capacidade da comunidade científica de lidar com a crescente demanda por revisão por pares de publicações científicas.” Apesar dessa afirmação em tom de alarme logo no início do resumo de seu estudo publicado há duas semanas, quatro pesquisadores da França concluem que a capacidade do chamado “peer review” ainda é sustentável.

Publicado no dia 10 deste mês no periódico PLOS One, o estudo “O fardo global da revisão por pares na literatura biomédica: forte desequilíbrio no empreendimento coletivo” indica que durante 2015, na área da pesquisa biomédica, a demanda por revisores foi maior que a disponibilidade, variando de 15% a 249% em diversos cenários considerados no estudo.

A pesquisa mostrou também um grande desequilíbrio na divisão do “peer review” entre pesquisadores que se dedicam a esse trabalho. Cerca de 20% dos revisores realizaram de 69% a 94% de todas as avaliações dos artigos na área da biomedicina em 2015, segundo o trabalho dos pesquisadores do Inserm.

Foram considerados nesse estudo cerca de 1,1 milhão de artigos publicados no ano passado, inclusive todos os indexados na plataforma eletrônica internacional Medline, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, segundo os quatro autores, que trabalham no Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm), de Paris.

Esse desequilíbrio foi contabilizado também na carga horária dos revisores. Também em 2015, enquanto cerca de 5% deles dedicaram pelo menos 13% de seu tempo total de trabalho ao “peer review”, aproximadamente 70% não chegaram a aplicar 1% de sua carga horária nessa atividade.

No entanto, é justamente esse desequilíbrio que indica, em termos de volume de trabalho, que ainda é possível considerar a revisão por pares “sustentável”. Ou seja, a comunidade de pesquisadores na biomedicina tem numericamente capacidade para dar conta da demanda por revisão de artigos publicados nessa área; o problema é a distribuição do trabalho.

Os dados empíricos considerados no estudo foram analisados por meio de modelos matemáticos elaborados por Michail Kovanis, Raphaël Porcher, Philippe Ravaud e Ludovic Trinquart, do Inserm, autores do estudo. Os três primeiros são também professores da Universidade Paris-Descartes.

Em sua reportagem “Heróis fazem a parte do leão do trabalho de ‘peer review'”, publicada na Nature News na terça-feira, a jornalista Brigitte Osterath afirmou que o estudo de Kovanis e seus colaboradores mostra que não há necessidade do alarme feito em 2010 por dois outros pesquisadores, segundo os quais o sistema de revisão por pares estava “quebrando” e que em breve estaria em crise. A repórter se referiu a Jeremy Fox e Owen Petchey, autores de um estudo publicado em 2010 no Bulletin Ecological Society of America.

Kovanis e seus colegas apontaram em seu estudo diversos aspectos particulares que podem levar a imprecisões em seus resultados, mas que não invalidam sua conclusão sobre o desequilíbrio na distribuição do “peer review” e a “sustentabilidade do sistema”.

Seja como for, ainda que esses números possam refletir adequadamente a capacidade do chamado “sistema da revisando por pares”, o problema dessa atividade não se limita aos aspectos quantitativos. “Quantidade não é qualidade”, como bem lembrou à Nature News o neurocientista Martijn Arns, da Universidade de Utrecht, na Holanda.

Enquanto isso, aqui no Brasil a comunidade acadêmica e também agências de fomento continuam fazendo vista grossa à proliferação de pesquisadores que engordam seus currículos Lattes com qualificações de revisores de publicações de péssima qualidade. Mas essa é uma história que ficará para outro dia.

Na imagem acima, balança para ouro da cultura Akan, da África Ocidental, doada em 2010 pelo botânico francês Jean Baur ao Museu de Toulouse. Foto: Roger Culos, sob licença Wikimedia Commons.


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7 Comentários

  1. Roberto Berlinck said:

    A questão da revisão por pares é muito séria, para não dizer muito grave. Apesar de parte da comunidade acadêmica se beneficiar de uma boa revisão por pares quando submete seus artigos, não oferece “contrapartida”. Tal atitude compromete o bom funcionamento de todo o sistema científico/acadêmico.

  2. Marcus Cianciaruso said:

    Maurício, tudo bem?
    Realmente o desequilíbrio que esse estudo aponta é um problema quando pensamos que a ciência deveria ser um esforço coletivo. Isso ocorre, provavelmente, em todas as áreas e o que eu acho importante é que a comunidade científica busque soluções para descentralizar a “massa crítica”. Por exemplo, o que eu e alguns colegas fazemos é aceitar emitir parecer em dois ou três artigos para cada artigo que publicamos. A ideia do PubCreds (Jeremy Fox e Owen Petchey) era algo parecido. Quem revisa mais artigos teria um incentivo das revistas: seus artigos teriam preferência em termos de tempo para revisão. E, aproveitando, o texto, eu desconheço formas de valorizar o CV com o acúmulo de pareceres em revistas. Vale a pena olhar os critérios de área para bolsas PQ do CNPq (eu sou PQ 2 na área de Ecologia). Talvez isso conte em alguma área, mas acho pouco provável. Na área de Ecologia não conta nada (http://cnpq.br/criterios-de-julgamento). Abraços e parabéns pelos textos.
    Marcus

    • Maurício Tuffani said:

      Caro Marcus, agradeço por suas observações.
      Foi legal você ter comentado a proposta dos PubCreds de Fox e Petchey. Essa é uma discussão que vale a pena retomar.
      Quanto aos Lattes, eu não me referi à valorização, mas a engordar mesmo. É preocupante ver acadêmicos que se colocam na lamentável posição de revisores de muitas publicações picaretas.
      Obrigado e abraço!

  3. João Bacelo said:

    Tem citação ou fonte para o último parágrafo?

    • Maurício Tuffani said:

      Caro João Bacelo, agradeço pela observação. Não, não tenho uma referência específica sobre engordamentos de currículos no item “Revisor de periódico”, mas é o que tenho constatado em minhas prospecções desde meus trabalhos sobre periódicos predatórios em meu blog anterior na Folha e em minha reportagens no mesmo jornal. Mas sua observação me fez ver a necessidade de acrescentar a frase final do texto. Obrigado.

    • John Smith said:

      Basta fazer a seguinte busca avançada no Google e voce encontra 83 resultados com origem na USP.

      “university of sao paulo” site:.waset.org filetype:pdf

      A maioria destes resultados revela pesquisas que receberam financiamento público (FAPESP, CNPQ, CAPES) e que resultaram em artigos publicados por uma editora onde até o ISSN é falso, como mostrado na reportagem “Eventos científicos “caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros” em 03/03/2015.

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