Brasil já perdeu 19,5% da Floresta Amazônica, área igual a meio Amazonas

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Na verdade, o estrago é maior do que afirma o título acima. Os 19,5% se referem “apenas” ao total do corte raso da Floresta Amazônica no Brasil. Esse quase um quinto de devastação da parte brasileira da grande mata equatorial sul-americana não inclui as áreas atingidas por queimadas que não eliminaram completamente a vegetação nativa ou que foram degradadas por extração seletiva de árvores de madeira de grande valor comercial.

Esses 19,5% correspondem a 778.403 km2 de corte raso inventariados por meio de medições realizadas anualmente desde 1989 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O cálculo do percentual tem como base a área total de cerca de 3,99 milhões de quilômetros quadrados, considerada como a extensão original da Floresta Amazônica no Brasil.

O desmatamento acumulado é quase sempre esquecido pela imprensa e ofuscado pelas taxas anuais. Para se ter uma ideia do que significam esses 19,5%, ou melhor, os 778.403 km2 de corte raso total, basta considerar que eles correspondem a quase metade da área total do estado do Amazonas, que mede cerca de 1,56 milhão de quilômetros quadrados. Em comparação com a superfície de todo o Território Nacional, a devastação amazônica corresponde um décimo.

Essa devastação dobrou em menos de 30 anos. Ela se tornou 106% maior que o corte raso total da parte brasileira da Floresta Amazônica acumulado até 1988, que foi de 377,6 mil quilômetros quadrados, segundo o Projeto Desmatamento (Prodes), do Inpe, que a partir do ano seguinte passou a monitorar anualmente a devastação do grande bioma que se estende pela Região Norte e envolve também partes de Mato Grosso, Tocantins e Maranhão.

Atualização às 16h04 – Em atenção a este texto, o geógrafo Marcos Pedlowski, professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), publicou em seu Blog do Pedlowski o post “Desmatamento na Amazônia: números explosivos são apenas a ponta do iceberg”, no qual comenta a degradação não computada no corte raso.

 

O que significa o aumento?

Esse desmatamento total acumulado considera o número divulgado na terça-feira (29/dez) pelo Inpe, os 7.989 km2 de supressão total da Floresta Amazônica no período de agosto de 2015 a julho de 2016. Como foi anunciado, esse dado significa um aumento de 29% — mais exatamente de 28,7% — do corte raso em comparação com o que ocorreu no período anterior, e equivale a cinco vezes a superfície da cidade de São Paulo.

A notícia teve também grande repercussão internacional, principalmente no Reino Unido, onde foi destacada não só por meios de comunicação convencionais, como o jornal The Guardian, e a rede BBC News, mas também por veículos da comunidade científica, como a revista eletrônica Nature News.

Dessa vez não deu mais para o governo dissimular a tendência de crescimento, que foi considerada pelo governo de Dilma Rousseff (PT) como uma oscilação. A atuação do governo petista foi reconhecida internacionalmente pelo combate ao desmatamento no período de 2004 a 2012, desde a primeira gestão de Lula (PT), como mostra o quadro a seguir.

prodes_e-variacoes_2001-2016

Mais que reconhecer essa tendência, o ministro Sarney Filho (PV), do Meio Ambiente, vinculou o descontrole à aprovação em 2012 da lei que substituiu o Código Florestal. A conclusão não é novidade, pois tem sido afirmada por pesquisadores e ambientalistas desde 2012. Mas ela adquire um significado importante ao ser apontada pelo ministro, como destacou o jornalista Claudio Angelo no site do Observatório do Clima.

Segundo Sarney Filho, “uma série de elementos” colaborou para a elevação: “Tivemos problemas de gestão, uma transição de governo e a repercussão de três anos de mudança no Código Florestal”, afirmou. É a primeira vez que um ministro reputa ao código, enfraquecido por pressão da bancada ruralista durante o governo Dilma, a elevação na velocidade de destruição da maior floresta tropical do mundo.

Para tentar conter a sangria, o Ministério do Meio Ambiente anunciou nesta terça-feira uma medida que deve aumentar ainda mais a fúria dos ruralistas contra Sarney: a interface pública do CAR (Cadastro Ambiental Rural), instrumento criado justamente pelo Código Florestal para permitir o monitoramento das áreas de vegetação nativa em propriedades particulares (leia mais aqui).

Uma interessante interpretação matemática desse aumento que também aponta para a lei estabelecida em 2012 foi feita pelo biólogo Roberto Takata em seu blog Gene Repórter. Na palavras dele, em seu post “Desmatamento na Amazônia aumentou 29% em 2016. O que isso quer dizer?”,

É mais do que tentador associar esse ponto à entrada em vigor do Novo Código Florestal em 25/mai/2012 – não apenas pela coincidência temporal, mas também (e sobretudo) pelo mecanismo lógico da menor proteção ambiental introduzida com as modificações em relação ao Código Florestal até então vigente.

 

Livro de cosmologia gratuito

Está em acesso livre para download gratuito o livro “Exercícios de cosmologia”, do físico Mario Novello, professor emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro. Além de questões de cosmologia, a obra inclui exercícios sobre tópicos de gravitação, eletromagnetismo e de outras áreas.
O renomado pesquisador explica a publicação com acesso gratuito da seguinte forma:

Esse é o modo pelo qual resolvi retribuir o apoio recebido desde 1969 até os dias atuais do Centro Latino Americano de Física (CLAF); do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), hoje Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico; da Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Ensino Superior (CAPES) e da Fundação do Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

O livro está disponível no link “Exercícios de cosmologia”.

 

Na imagem acima, composição de imagens de satélite do projeto Prodes, que mostra em verde as áreas preservadas de floresta; em vermelho, áreas de cerrados e cerradões; e, em amarelo, as áreas originais de floresta desmatadas. Imagem: Prodes/Inpe/Divulgação.


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