Quais serão os escolhidos por Trump para a ciência?

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Não bastassem todas as notícias ruins deste que parece ter se tornado o mais longo dos anos — e não só no Brasil —, ainda poderemos ter péssimas novidades na área da ciência nos próximos dias. Pesquisadores dos Estados Unidos aguardam com ansiedade e temor os quatro nomes a serem escolhidos pelo presidente eleito Donald Trump para os cargos principais da admistração federal em ciência e tecnologia.

Ninguém certamente acredita que nessa escolha Trump conseguirá ser aplaudido como o então presidente eleito Barack Obama há exatamente oito anos, quando anunciou os  quatro nomes de sua equipe nessa área, como destacou ontem o jornalista Jeffrey Mervis em sua reportagem “Pesquisadores ansiosamente aguardam escolha de Trump para assessor científico”, na versão digital da revista Science.

Naquele 20 de dezembro de 2008, lembra o jornalista, Obama anunciou o físico John Holdren, da Universidade Harvard, como seu assessor de ciência e tecnologia e chefe do Escritório de Política Científica e Tecnológica, a ecóloga Jane Lubchenco para chefiar a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (Noaa), além do Nobel de Medicina de 1989, Harold Varmus, e do matemático e geneticista Eric Lander, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), para comandarem o Conselho do Presidente de Assessores de Ciência e Tecnologia.

Poucos dias antes, Obama também já havia demonstrado sua valorização da ciência ao indicar Steven Chu, ganhador do Nobel de Física de 1997, para o cargo de secretário —equivalente no Brasil a ministro — do Departamento de Energia. Trump, “em compensação”, nomeou para o mesmo posto o ex-governador do Texas Ricky Perry, presidente da petrolífera Exxon Mobil e negacionista do aquecimento global.

Aguardemos.

 

Enquanto isso, aqui no Brasil…

Quaisquer que sejam as escolhas de Trump para a área de ciência, antes de criticá-lo não podemos nos esquecer de que o então vice-presidente em exercício Michel Temer (PMDB) ameaçou nomear para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) o presidente nacional do PRB, Marcos Pereira, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. E tivemos nesse mesmo cargo Aldo Rebelo (PCdoB), um negacionista do aquecimento global, escolhido em dezembro de 2014 pela então presidente reeleita Dilma Rousseff (PT).

O pior é que tanto com Dilma como com Temer a pesquisa científica passou por drásticos cortes orçamentários. Sem falar que na gestão pós-PT o MCTI foi fundido com o Ministério das Comunicações, provocando longos protestos da comunidade científica.

Resultante dessa junção, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) acabou tendo rebaixadas para o quarto escalão da hierarquia da administração federal instituições que já foram diretamente vinculadas à Presidência da República, como a Agência Espacial Brasileira (AEB) e até mesmo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que durante décadas foi o órgão governamental máximo do setor (“Rebaixamento de órgãos da Ciência é resultado da fusão ministerial em maio”, 31/out).

 

Cresce número de pesquisadores

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) divulgou ontem, segunda-feira (19) os resultados de 2016 do Censo do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil (DGP). O número de pesquisadores em atuação no Brasil aumentou 11%, e o número de grupos de pesquisa, 6% em relação aos dados de 2014, como informou no mesmo dia o jornalista Herton Escobar em sua reportagem “Número de pesquisadores no Brasil chega a quase 200 mil”, em seu blog no Estadão. Os dados principais desse levantamento estando no quadro a seguir.

Fonte: Censo do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil (DGP), CNPq.

Além de apontar o aumento desses indicadores como “boa notícia”,  a reportagem destacou também, por outro lado, que “a quantidade de recursos disponível para esses cientistas fazerem pesquisa nas universidades e institutos federais só diminuiu”. E acrescentou: “Em valores corrigidos, o orçamento do MCTIC em 2016 (R$ 4,597 bilhões) foi cerca de 50% menor do que em 2014 (R$ 8,943 bilhões)”.

O jornalista faz outras importantes considerações a esse quadro. De minha parte, observo que ainda falta no Brasil equilibrar indicadores quantitativos oficiais como esses com dados sobre a qualidade dessa produção.

De 1987 a 2013 o número de artigos de cientistas brasileiros publicados em periódicos de padrão internacional cresceu de 2.662 para 38.523, segundo dados da Web of Science. Apesar desse aumento de 14,5 vezes em sua produção científica, o país não teve crescimento significativo nos indicadores de qualidade (impacto relativo à média mundial) de sua produção científica, que na verdade chegaram a estagnar de 2003 a 2013, como destaquei na reportagem “Produção científica no Brasil fica menos concentrada em SP”, publicada na Folha (13/10/2014).

Em outras palavras, reitero os mesmos questionamentos que apresentei em julho em meu post “Aumento do número de doutores é boa notícia?”.

 

Na imagem acima, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, em foto de Gage Skidmore (licença Creative Commons CC BY-SA 3.0). 


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