O milagre da multiplicação de conferências ‘caça-níqueis’ no Rio na véspera do Carnaval

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Ontem, terça-feira (27), em seu blog Scholarly Open Access, o biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos Estados Unidos, mostrou o modus operandi de uma editora acadêmica de péssima reputação que não só organiza conferências acadêmicas “caça-níqueis” em série, mas também se apropria dos títulos de eventos existentes.

Aqui no Brasil, essa organização, que já havia sido notícia deste blog, aumentou ainda mais sua capacidade de multiplicação. Em junho deste ano já estavam marcadas para 23 e 24 de fevereiro de 2017, no Rio de Janeiro, 342 conferências acadêmicas, todas em um mesmo total, pertinho da Candelária (“Conferências científicas ‘caça-níqueis’ voltam a fazer ataque em massa no Brasil”, 28/jun). Agora o pacote registra 1268 eventos, com taxas de inscrição de 250 a 350 euros por participante.

Beall reportou ontem em seu post “Organizadora de conferências WASET continua copiando nomes de conferências legítimas” a ação dessa editora, a World Academy of Science, Engineering and Technology. Eu já havia postado que pesar do nome “academia”, trata-se de uma editora que, embora divulgue ter sede em Riverside, nos EUA, seu telefone para contato é dos Emirados Árabes Unidos. E, além de inválidos, os registros de suas revistas são da Turquia, segundo o cadastro internacional numérico de periódicos ISSN. Beall informou agora que ela tem sede também no Azerbaijão.

A Waset também está na lista de publishers predatórios do blog de Beall. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos na internet em acesso livre, ou seja, sem cobrança de assinatura ou taxa de download. Alguns publishers predatórios são também organizadores de conferências “caça-níqueis”, conhecidas internacionalmente como “bogus conferences” ou “scam conferences”.

O segredo do “milagre” da multiplicação de conferências e de salas de reuniões consiste, na realidade, em acomodar nos mesmos espaços pesquisadores inscritos em eventos diferentes. Os trabalhos apresentados ou simplesmente registrados são publicados pela Waset por seus dez periódicos predatórios, conforme a área de especialidade.

Essa forma adotada pela editora para atrair acadêmicos desavisados e cobrar deles taxas de inscrição tem sido denunciada há alguns anos na internet não só por instituições, como a Sociedade Europeia de Redes Neurais (ENNS), e por blogs de cientistas, mas também por bases de dados de periódicos, como a ResearhGate. Os depoimentos afirmam que as conferências em série se tornam uma só, juntando especialistas de áreas diferentes e servindo apenas para a editora lucrar com taxas de inscrição.

A Waset tem também incluído nos comitês científicos de suas conferências “caça-níqueis” nomes de professores e pesquisadores que afirmaram nem sequer saber da existência de tais eventos, como mostrei em minha reportagem “Eventos científicos “caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros”, publicada na Folha em 3 de março do ano passado. A matéria relatou também graves erros da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação, com os registros da Waset em sua plataforma Qualis Periódicos.

Beall afirma que todas as universidades devem deixar de conceder crédito acadêmico para trabalhos apresentados em conferências WASET ou publicados por essa editora. Concordo plenamente.

O pior é que há não só instituições acadêmicas brasileiras que autorizam afastamentos de pesquisadores e professores para participar de conferências da Waset, mas também agências de fomento que pagam auxílios para isso.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de ontem.

 

BBC Brasil

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

G1

O Globo

InforMMA

MCTI – Notícias

The New York Times

Pesquisa Fapesp

Retraction Watch

Scholarly Open Access

Valor Econômico

 

Na imagem acima, imagem usada na página de abertura de centenas  de sites de conferências agendadas pela World Academy of Science, Engineering and Technology (Waset) no Rio de Janeiro para 2017 a 2019. Foto: Waset/Divulgação.


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2 Comentários

  1. Nako said:

    Agora imagine aquele mapa da produção cientifica por pais, em que o Brasil aparece como uma tirinha minguada sem essa produção de lixo.

  2. John Smith said:

    UNICAMP, uma das melhores universidades do Brasil. CAPES, uma agência de fomento à pesquisa científica qualificando o curso de Pós-Graduação na nota máxima 7. Um professor no cargo máximo da carreira. Tudo isto, resultando num artigo já publicado na WASET em 2017 !!!

    International Journal of Electrical, Computer, Energetic, Electronic and Communication Engineering Vol:11, No:1, 2017

    http://waset.org/publications/10006002/simulation-of-surge-protection-for-a-direct-current-circuit

    Autor: Edmundo da Silva Braga
    Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq
    Professor Titular na UNICAMP num curso Conceito CAPES 7

Comentários encerrados.

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