A proposta indecente de uma editora acadêmica

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Cerca de 20 minutos após cadastrar seu número de telefone no site de uma editora acadêmica de Hyderabad, na Índia, um internauta nos Estados Unidos recebeu uma chamada. O código de área identificado era de Las Vegas, mas o som de fundo o fez perceber que era uma ligação de outro país. Ao atender, recebeu uma proposta para participar 15ª Conferência Mundial de Cardiologia e Angiologia, em Filadélfia, no mês seguinte. E, mesmo sem ser médico, foi convidado a enviar um artigo científico que seria aprovado em 24 horas com o pagamento de uma taxa “de estudante” de US$ 599. E pediram os dados de seu cartão de crédito.

A história foi contada na edição de quinta-feira (29/dez) do jornal The New York Times por Kevin Carey, cientista político de formação e diretor de política educacional do think-tank New America, sediado na capital Washington. Ele também é colaborador de várias publicações especializadas em ensino, entre elas a prestigiada Chronicle For Higher Education.

A editora contactada por Carey é a OMICS International, do OMICS Publishing Group. Carey relatou em seu texto diversos casos estranhos que envolveram essa empresa, entre eles a aprovação de um artigo em apenas três horas para publicação. E afirmou:

Este ano [2016], a Comissão Federal de Comércio acusou formalmente a OMICS de “enganar acadêmicos e pesquisadores sobre a natureza das suas publicações e ocultar taxas de publicação que variam de centenas a milhares de dólares.

Carey observou também que a OMICS faz parte da famosa lista de publishers predatórios do blog Scholarly Open Access, Jeffrey Beall, professor de biblioteconomia da Universidade do Colorado em Denver, do professor de biblioteconomia. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos na internet em acesso livre, ou seja, sem cobrança de assinatura ou taxa de download.

Em março de 2015, incluí a OMICS e 30 de suas publicações em minha reportagem “Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas predatórias”, no blog que eu mantinha no site da Folha. Questionada naquela ocasião, a editora afirmou seguir “uma política de padrão de revisão por pares onde cada artigo submetido sofre um processo de profunda revisão pelos peritos nos domínios relevantes”.

O artigo de Carey foi indicado por alguns leitores de Direto da Ciência enquanto eu escrevia a coluna de sexta-feira (30/dez). E foi incluída na seleção de links dessa que foi última postagem deste blog em 2016 com seu título original “Fake Academe, Looking Much Like the Real Thing”, modificado horas depois. Para quem ainda não leu, vale a pena conferir “A Peek Inside the Strange World of Fake Academia”. O artigo é imperdível para pesquisadores brasileiros e merece ser amplamente divulgado em nossas instituições de pesquisa e pós-graduação. E não só por causa desse publisher.

PS – Uma sugestão interessante: pesquisar em diários oficiais usando a palavra “OMICS”. O resultado dessa e de outras buscas será tema de outra conversa.

 

Destaques na internet

Seleção de artigos, reportagens e outros textos publicados on-line desde a coluna de sexta-feira, 30/dez.

 

Agência Fapesp

BBC Brasil

Carlos Orsi

Copy, Shake and Paste

O Eco

Época

O Estado de S. Paulo

Folha de S.Paulo

G1

O Globo

The New York Times

 


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