Pesquisador que publica em periódico predatório nem sempre é vítima

Associação Mundial de Editores Médicos e diretor editorial da Oxford University Press alertam instituições acadêmicas


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Estava demorando para surgirem alertas incisivos não só contra os chamados periódicos predatórios, mas, sobretudo, contra a tolerância e até mesmo a cumplicidade dentro das instituições de pesquisa e ensino superior com essas revistas que desrespeitam padrões editoriais acadêmicos e vivem às custas da cobrança de taxas de publicação de autores – muitas vezes custeadas por suas faculdades, laboratórios universidades, inclusive com recursos públicos.

As instituições acadêmicas precisam agir para conter o avanço dos periódicos predatórios, alertou em 18 de fevereiro a Associação Mundial de Editores Acadêmicos (Wame). Universidades e centros de pesquisa devem identificar integrantes seus listados como editores ou membros do corpo editorial dessas publicações e exigir sua desfiliação, acrescentou a entidade no documento “Identifying Predatory or Pseudo-Journals”.

Assinado por Christine Laine, vice-presidente da Wame e editora-chefe do periódico Annals of Internal Medicine, e por Margaret Winker, secretária da associação, o texto da Wame ressalta que em alguns casos, os autores que publicam nos periódicos predatórios estão cientes das graves irregularidades dessas revistas – entre elas nem sequer realizar revisão por pares –, mas optam por publicá-los de qualquer maneira. Portanto, afirma o documento, esses autores não são exatamente presas ou vítimas da predação desses editores.

 

“Conspiradores decididos”

“A solução para isso deve vir de instituições acadêmicas. Acabem com o incentivo para esses comportamentos de publicação e os publishers predatórios perderão o nicho de mercado ao qual servem”, afirmou ontem (terça-feira, 28/fev) David Crotty, diretor editorial da Harvard University Press em seu artigo “Predatory Publishing as a Rational Response to Poorly Governed Academic Incentives”, publicado no site The Scholarly Kitchen. No texto, ele acrescentou:

Então, quando pensamos em publicações predatórias, não podemos simplesmente pensar nos autores como vítimas. Em alguns casos, é claro que eles são conspiradores decididos. As verdadeiras vítimas são o movimento OA [Open Access] (que é injustamente manchado pelas práticas indigentes desses editores), pesquisadores honestos (pois a pesquisa legítima é vista como menos confiável devido à enxurrada de material não revisado e questionável mascarado como real) e o público em geral (que tem confiança na ciência minada).

O texto da Wame que foi foi revisado e aprovado pela diretoria da entidade, informa que seu objetivo é fornecer orientação para ajudar editores, pesquisadores, financiadores, instituições acadêmicas e stakeholders a distinguir periódicos predatórios de publicações legítimas”. O documento relaciona  diversas referências de estudos sobre a proliferação dos periódicos predatórios nos últimos anos.

O número de artigos dos periódicos publicados por publishers predatórios cresceu de cerca de 53 mil em 2010 para 420 mil em 2014 – ou seja, se tornou sete vezes maior em quatro anos–, segundo um estudo na edição de 1º de outubro de 2015 da revista BMC Medicine.

O fato de um trabalho científico ser publicado em um periódico predatório não implica que ele seja de má qualidade. Bons estudos também têm sido publicados em periódicos predatórios. No entanto, isso torna o problema ainda mais grave, pois significa que salários de pesquisadores, seu tempo de trabalho e recursos para pesquisas acabaram em publicações não só desprestigiadas, mas também consideradas “lixo acadêmico” pela comunidade científica internacional.

 

Silêncio no Brasil

No caso do Brasil, esse desperdício é agravado pelo fato  de que quase todo o recurso para pesquisa é dinheiro público. Comentei esse assunto no site da Folha de S.Paulo no artigo “O Qualis e o silêncio dos pesquisadores brasileiros” (1º/abr/2015).

Também em 2015 divulguei que mais de 200 periódicos predatórios estavam classificados na plataforma Qualis Periódicos, cujos dados são empregados não só como subsídios para contratações e promoções, inclusive salariais, mas também em avaliações de produtividade individuais e institucionais, concessões de bolsas e auxílios (“Publishers ‘predatórios’ e seus periódicos no Qualis”).

O documento de Christine Laine e Margaret Winker e o artigo de David Crotty, com suas orientações preventivas sobre periódicos predatórios, merecem ser amplamente divulgados nas instituições de pesquisa e pós-graduação brasileiras. Aqui, por enquanto, nossas universidades, faculdades, centros de pesquisa e também agências de fomento só têm evitado o assunto. Lamentavelmente.

Na imagem acima, cabeçalho de artigo publicado no site da Associação Mundial de Editores Médicos (Wame). Imagem: Wame/Reprodução.

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5 Comentários

  1. Ruy Barbosa said:

    No meu entendimento, o Qualis deveria usar critérios objetivos para definir como avaliar periódicos. Scopus, Web of Science e Scielo têm indicadores de desempenho e impacto dos periódicos em cada uma das áreas consideradas no qualis. Porque então não são utilizados esses critérios para definir o Qualis, de uma maneira clara e transparente?

  2. Antônio Gonçalves said:

    Caro Maurício,

    Infelizmente quem “faz” as pseudo-revistas, ou revistas predatórias, são membros da comunidade acadêmica. Enquanto não houver consciência disso, membros da comunidade acadêmica continuarão publicando nessas revistas.
    Porém, algumas editoras de periódicos considerados predatórios na lista de Beall estão se empenhando em melhorar a reputação de suas revistas. Isso é particularmente verdade para algumas revistas do grupo MDPI.
    Por outro lado, autores brasileiros deveriam considerar a publicação de resultados em revistas brasileiras não-predatórias do que em periódicos estrangeiros predatórios. Com o pretexto de se publicar em periódicos internacionais é que muitas vezes se publica em periódicos predatórios.
    Não acredito que as instituições acadêmicas brasileiras tomarão qualquer providência para alertar seus pesquisadores, quanto mais punir, para não publicarem em periódicos predatórios. Apenas a FAPESP alerta para este fato, em várias reportagens da revista Pesquisa FAPESP.

  3. Marcos Bianchi said:

    Sim, as instituições acadêmicas precisam tomar providências, como dizem Christine Laine, Margaret Winker, David Crotty e desde 2015 o próprio Maurício Tuffani. Mas, como sua próprias matérias desde então demosntraram, enquanto a CAPES continuar a aceitar predatórios em sua classificação no QUALIS Periódicos, ainda que em baixos estratos, sempre haverá energúmenos justificando a publicação de papers em predatórios com a afirmação “Tá no QUALIS!”.

  4. Marcelo Hermes-Lima said:

    Mauricio, vc está de parabéns por bater tanto nessa tecla das revistas oportunistas. E sim, muito pesquisador brasileiro é cúmplice dessa coisa asquerosa, que atenta contra a ciência.

    • José Reis said:

      Não é todo professor ou pós-graduando que tem oportunidade de participar das panelinhas em torno das revistas com maior fator de impacto. Todo mundo que tratalha honestamente com pesquisa tem o direito a ter um lugar ao sol.

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