13 critérios para saber se um periódico de biomédicas é predatório

Estudo ajuda a fechar o cerco contra publishers oportunistas e merece ser considerado leitura obrigatória para autores de todas as áreas


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Baseados na análise de cerca de 300 revistas da área de ciências biomédicas, dez pesquisadores publicaram um artigo na revista BMC Medicine na quinta-feira (16), apontando 13 características baseadas em evidências pelas quais, segundo eles, as publicações predatórias podem ser distinguidas das que são presumidamente legítimas.

“Estas [características] podem ser úteis para autores que estão avaliando periódicos para possível submissão ou para outros [interessados], como universidades na avaliação das publicações dos candidatos como parte do processo de contratação”, afirmam os pesquisadores na conclusão de seu estudo “Potential predatory and legitimate biomedical journals: can you tell the difference? A cross-sectional comparison”.

Os periódicos predatórios são revistas editadas por empresas que exploram sem rigor científico o modelo de publicação de artigos acadêmicos em acesso livre, o Open Access, que é mantido por meio da cobrança de taxas de autores ou pelo custeio por parte de instituições científicas.

Tanto no Open Access como no modelo tradicional mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos considerados “legítimos” demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os publishers predatórios não só reduzem a poucas semanas o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo.

 

Instituições devem agir

Realizado por dez pesquisadores, o estudo foi idealizado e liderado por Larissa Shamseer e David Moher, professores da Escola de Epidemiologia, Saúde Pública e Medicina Preventiva, da Universidade de Ottawa, no Canadá.

Um dos outros oito autores é Virginia Barbour, presidente do Comitê de Ética na Publicação (Cope), a principal associação internacional de editores acadêmicos. Professora de medicina da Universidade Griffith, em Queensland, na Austrália, atualmente ela é também diretora-executiva do Australasian Open Access Strategy Group e foi fundadora do periódico PLOS Medicine e diretora editorial de biologia e medicina da PLOS.

O trabalho Shamser, Moher, Barbour e seus colegas reforça argumentos semelhantes de publicações recentes que enfatizam a necessidade de as instituições de pesquisa e ensino superior fecharem o cerco contra a cumplicidade acadêmica com publishers predatórios e seus periódicos.

Em 18 de fevereiro, a Associação Mundial de Editores Médicos (Wame) afirmou que instituições acadêmicas precisam agir para conter o avanço dos periódicos predatórios. Universidades e centros de pesquisa devem identificar integrantes seus listados como editores ou membros do corpo editorial dessas publicações e exigir sua desfiliação, acrescentou a entidade no documento “Identifying Predatory or Pseudo-Journals”.

Dez dias depois foi a vez de David Crotty, diretor editorial da Oxford University Press, em seu artigo “Predatory Publishing as a Rational Response to Poorly Governed Academic Incentives”, publicado no site The Scholarly Kitchen. “A solução para isso deve vir de instituições acadêmicas. Acabem com o incentivo para esses comportamentos de publicação e os publishers predatórios perderão o nicho de mercado ao qual servem”, disse Crotty.

 

O joio e o trigo

O trabalho analisou 93 periódicos predatórios e outros 199 considerados “legítimos”, dos quais 99 são do modelo Open Access e, os 100 restantes, acessíveis para assinantes.

Os 93 predatórios foram obtidos a partir de uma lista inicial de 100 periódicos de publishers da famosa lista do blog Scholarly Open Access, que foi desativado em janeiro deste ano pelo seu editor Jeffrey Beall, bibliotecário e professor da Universidade do Colorado em Denver. Submetido ao BMC Medicine em novembro do ano passado e aceito para publicação em fevereiro, o estudo mantém os links para o citado blog. (Repositórios como o Archive.org guardam as listas de publishers e de periódicos isolados de Beall.)

A partir de sua análise, os autores definiram “uma lista de características evidentes e notáveis de publicações predatórias suspeitas que são simples de avaliar”. Ressaltando que “esses critérios provavelmente não são suficientemente sensíveis para detectar todas as revistas predatórias potencialmente ilegítimas”, mas que eles “são um bom ponto de partida”, o estudo os reuniu em uma tabela.

Os autores não comentam no estudo se todos os 13 critérios acima devem ser considerados para definir um periódico como predatório. No entanto, a leitura do paper deixa claro que publicações inequivocamente predatórias não correspondem a todas essas características.

A conclusão do estudo chama a atenção para o fato de que publicar em periódicos predatórios é um desperdício de recursos, entre outras razões porque que muitas dessas revistas não são indexadas em bases de dados que permitam identificar e acessar consistentemente a pesquisa veiculada por elas. Os autores acrescentam que

“(…) se uma pesquisa de baixa qualidade em revistas predatórias é descoberta e incluída em uma revisão sistemática, pode poluir o registro científico. Em biomedicina, isso pode ter resultados prejudiciais no atendimento aos pacientes”.

Nunca é demais lembrar que no Brasil esse desperdício é agravado pelo fato  de que quase todo o recurso para pesquisa é dinheiro público, como já comentei no site da Folha de S.Paulo no artigo “O Qualis e o silêncio dos pesquisadores brasileiros” (1º/abr/2015) e reiterei no início deste mês em “Pesquisador que publica em periódico predatório nem sempre é vítima”, aqui em Direto da Ciência (1º/mar).

 

Na imagem acima, diagrama de fluxo de identificação, seleção e inclusão de periódicos nos grupos de estudo de publicações predatórias (à esquerda), revistas legítimas em Open Access (centro) e de acesso por assinaturas (direita) no estudo “Potential predatory and legitimate biomedical journals: can you tell the difference? A cross-sectional comparison”, BMC Medicine, 16/mar/2017. Imagem: Larissa Shamseer et al./Reprodução.

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2 Comentários

    • Maurício Tuffani said:

      Excuse me, David.
      I already corrected it. I had correctly written “Oxford University Press” in the previous article in which I mentioned you, but now I have misused my memory.
      Congratulations for this and your other articles in The Scholarly Kitchen.
      Thank you!
      Maurício Tuffani

Comentários encerrados.

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