Crise hídrica assola todo o planeta, menos no Tucanistão

São Paulo já superou o problema, diz secretário de Saneamento e Recursos Hídricos de SP. Só que não.


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Nesta quarta-feira, 22 de março, em que se comemora o Dia Mundial da Água, a reportagem “Alertas de seca disparam no Brasil e crescem 409% em período de 13 anos”, do jornalista Guilherme Zocchio, na Folha, abre seu texto enfatizando que “não há muito o que se comemorar no Brasil. Ao contrário”. Por outro lado, no mesmo jornal, o secretário estadual de Recursos Hídricos, Benedito Braga, em seu artigo “Água verdadeira”, pergunte e responde a si mesmo com as seguintes palavras:

Com razão poderia o leitor perguntar: há o que comemorar? A resposta é um vigoroso sim, se levarmos em conta o esforço realizado pelo Governo de São Paulo no encaminhamento de soluções para a maior crise hídrica que se tem registro em nosso Estado.

Que maravilha! Nem parece que São Paulo é o mesmo estado ao qual, também na Folha, se refere a reportagem “‘Seguimos no limite’, diz especialista em crise hídrica sobre represas de SP”. Nessa matéria do jornalista Eduardo Geraque, o biólogo Samuel Barreto, especialista em recursos hídricos da ONG The Nature Conservancy no Brasil, não descarta “a possibilidade da estiagem voltar a atingir os paulistas no médio prazo, algo como cinco ou seis anos”.

Até parece que a capital de São Paulo e sua região metropolitana, a maior do Brasil, não tem nada a ver com a afirmação “Não podemos mais aceitar rios urbanos fétidos e contaminados, além represas e grandes reservatórios, como a Billings, indisponíveis para usos públicos por falta de saneamento ambiental”, de Malu Braga, especialista em Recursos Hídricos da Fundação SOS Mata Atlântica, em seu artigo “Cenário: Rios poluídos, cidades com sede”, na edição de hoje do Estadão.

A rede subterrânea que despeja esse esgoto nos rios que atravessam a capital paulista foi o motivo de uma crítica, em 2014, à intenção anunciada naquele ano, pelo governo paulista, de transpor água da bacia do rio Paraíba do Sul para o sistema Cantareira. São Paulo deveria começar a evitar o desperdício de águas de chuvas como veículo de esgotos na capital paulista antes de fazer essa captação, afirmou o engenheiro Jerson Kelman, professor Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutor em hidrologia e recursos hídricos pela Universidade Estadual do Colorado (EUA) e ex-presidente da Agência Nacional de Águas (2001-2004) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (2005-2008).

Em dezembro do mesmo ano, seis meses após essa afirmação, Kelman foi escolhido pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) para presidir a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). No mês seguinte, quando a Agência Nacional de Águas (ANA) autorizou a captação, Kelman não quis saber de comentar a opinião que havia expressado, deixando sem resposta sobre isso a reportagem “Antes de assumir a Sabesp, Kelman criticou captação do rio Paraíba do Sul”, na Folha (21/jan/2015).

Em outubro de 2015, na companhia de Braga e Kelman, Alckmin autorizou o início das obras de captação das água do Paraíba do Sul. Mesmo assim, o governo paulista ainda pretendia contar para sempre com o volume morto do sistema Cantareira, incorporando definitivamente essa reserva à capacidade convencional desse conjunto de reservatórios. No entanto, em março de 2016 a ANA deu sinal vermelho para a pretensão de transformar o “limite de cheque especial” em saldo positivo, revogando a autorização de uso da reserva de segurança que havia dado em julho de 2014.

Para evitar notícias do tipo “São Paulo não pode mais usar o volume morto do Cantareira”, Alckmin aproveitou um evento para “decretar” que a crise hídrica havia acabado. Na verdade, naquele dia o sistema Cantareira estar com apenas 28,7% de armazenamento do volume útil, percentual inferior aos dos anos anteriores, na mesma data, à situação crítica de 2014. (“O ‘fim da crise hídrica’ e a pirotecnia de Alckmin”, 8/mar/2016).

No entanto, apesar de não estar mais bombeando as águas do volume morto do sistema Cantareira, a Sabesp de Kelman, Braga e Alckmin continua bombeando para cima os números do armazenamento desse conjunto de reservatórios, usando para isso dois “percentuais alternativos”, um deles baseado em uma aberração aritmética adotada em 2014, em pleno ano eleitoral, no qual o governador tucano foi reeleito (“Estadão e Folha divulgam baixa do sistema Cantareira com índice distorcido da Sabesp”, 20/abr/2016).

Apesar de tudo isso, a única ressalva do secretário de Saneamento e Recursos Hídricos paulista em seu eufórico artigo de hoje na Folha se resume à afirmação de que “temos importantes desafios no âmbito do saneamento básico, o que nos leva a abrandar o vigor da resposta”.

À luz de tantos outros artigos e reportagens de hoje sobre o Dia Mundial da Água, fica evidente que o argumento central do artigo do secretário Braga de que “a crise está totalmente superada” não passa de conversa fiada.

Na imagem acima, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), à frente do secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, Benedito Braga (esq.), e do presidente da Sabesp, Jerson Kelman, na assinatura de autorização das obras de interligação entre as represas Jaguari (Bacia do Paraíba do Sul) e Atibainha (sistema Cantareira), em 2/out/2015. Foto: Gilberto Marques/Portal do Governo de SP/Divulgação.

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