Pressão política deixa Kassab sem respostas sobre demissão na CNEN e corte de verbas

Negociação do governo por apoio parlamentar à reforma da Previdência abala articulação de ministro com entidades científicas


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Diferentemente da atitude que teve nos primeiros meses de sua gestão, que teve início com o governo então interino do atual presidente Michel Temer (PMDB), o ministro Gilberto Kassab (PSD), da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, tem deixado reclamações e protestos de entidades da comunidade científica sem respostas. Mesmo sem poder atender às reivindicações que recebia, Kassab conseguia pelo menos se posicionar em nome do governo. Agora, não.

 

Carta e nota conjuntas

Foi o que aconteceu, por exemplo, com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC). Na quarta-feira (22), Luiz Davidovich e Helena Nader,  respectivamente presidentes das duas instituições, enviaram carta a Temer, manifestando apreensão com as previsões sobre cortes orçamentários, e também divulgaram nota conjunta contra a demissão de Renato Machado Cotta, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que havia resistido a pressões partidárias para endossar nomeações de dirigentes na Nuclebrás Equipamentos Pesados.

 

“Completo descaso”

Kassab também tem deixou sem resposta a Associação Nacional dos Pesquisadores das Unidades de Pesquisa do MCTI (ANPesq). Na quarta-feira, a entidade publicou seu “Manifesto contra a precarização das Instituições e Ciência e Tecnologia do País”, protestando contra a demissão de Cotta e o “completo descaso em relação ao questão orçamentaria e de manutenção das Unidades de Pesquisa e Laboratórios das Universidades”. Dois dias antes (20), Belita Koiler, presidente da Sociedade Brasileira de Física (SBF), enviou carta ao ministro, afirmando que a demissão do presidente da CNEN é “motivo de indignação para toda a comunidade ligada a ciência e tecnologia, revelando uma baixa prioridade para nossas atividades na agenda do atual governo”.

 

Nada a declarar

Na verdade, o MCTI não tem se posicionado nem mesmo para solicitações da imprensa sobre as cartas e notas oficiais das entidades científicas sobre a demissão na CNEN.

 

Loteamento de cargos

Diferentemente também do início de sua gestão, a situação de Kassab agora é outra. Naquele começo do governo interino de Temer, o ministro não estava enfrentando a pressão exercida agora pelos partidos que querem cargos em troca de apoio para a reforma da Previdência. E esse apoio parlamentar se torna ainda mais necessário na iminência da má notícia do contingenciamento do Orçamento da União, com nova previsão de recursos, que o governo pretende estabelecer nesta semana, como já anunciou o próprio Ministério da Fazenda.

 

Demanda do RJ

No caso do MCTI, a pressão vem PMBD do Rio de Janeiro, principalmente da ala ligada ao deputado federal Celso Pansera, que em outubro de 2015 foi nomeado por Dilma Rousseff (PT) para comandar a pasta, na qual ficou até ser licenciado em abril de 2016 para poder votar contra o afastamento da então presidente e não retornou. O governo nomeou pessoas ligadas também aos deputados Aureo (SD-RJ) e Alexandre Valle (PR-RJ), revelou Lucas Vetorazzo em reportagens na Folha (“Temer exonera servidor contrário a indicação que loteia órgão nuclear”, 19/mar, e “Por apoio no Congresso, Temer quer lotear estatal da área nuclear”, 16/mar).

 

Pressão irresistível

Kassab não queria a demissão de Cotta. No entanto, o ministro não teve condições de resistir às pressões decorrentes da negociação de cargos em troca de apoio parlamentar para o governo. Agora ele precisa orientar Temer na escolha de quem ficará na presidência da CNEN, para a qual já foi nomeado – ao que tudo indica em caráter provisório – o major-brigadeiro-do-ar Paulo Roberto Pertusi, da reserva da Força Aérea Brasileira, que desde junho respondia pela Subsecretaria da Coordenação das Unidades de Pesquisa (SCUP) do MCTI.

 

Na imagem acima, o Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, no programa A Voz do Brasil em 10/jan/2017. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

Apoie o jornalismo crítico e independente de Direto da Ciência

Você acha importante o trabalho deste site? Independência e dedicação têm custo. E conteúdo exclusivo e de alta qualidade exige competência e também investimento para ser produzido. Conheça o compromisso de Direto da Ciência com essa perspectiva de trabalho jornalístico e com seus leitores. (Clique aqui para saber mais e apoiar.)


Receba avisos de posts de Direto da Ciência.

Informe seu e-mail para receber avisos. Ele não será fornecido a terceiros.

Para sua segurança, você receberá uma mensagem de confirmação. Ao abri-la, basta clicar em Confirmar, e sua inscrição já estará concluída. Você sempre poderá, se quiser, cancelar o recebimento dos avisos.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

3 Comentários

  1. Carlos Antônio Cabral dos santos said:

    O caso CNEN mostra toda a fragilidade com que as questões de ciências e tecnologia são tratadas pelo meio político. A competência e todo histórico brilhante do professor Renato Cotta foi deixado de lado para que se pudesse cumprir a cota de distribuição de cargos, para atendimento político em detrimento do conhecimento técnico científico exigido para os cargos. É lamentável sob todos os aspectos que situação como esta ainda tenhamos que presenciar.

  2. Paulo heilbron said:

    Faltou dizer q o diretor de radioproteção e segurança nuclear juntamente com mais 16 chefes dá área de segurança nuclear junto com varios outros servidores se renome em cargos de chefia da Cnen pediram exoneração dos cargos.em.defesa do.presidente da Cnen Dr Renato Machado Cotta que simplesmente defendeu a lei das estatais. Posso garantir q tirando as aves de rapina de plantão mtos servidores dá Cnen estão revoltados

*

Top