O alerta que tentaram enviar a Alckmin pelos reis da Suécia

Pesquisadores tentaram alertar o governador sobre sua política florestal por meio do casal real sueco em visita a São Paulo


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Um grupo de pesquisadores paulistas tentou na semana passada fazer chegar uma mensagem ao rei Carlos XVI Gustavo e à rainha Silvia, da Suécia, antes de ambos serem recebidos pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), na segunda-feira (3/abr). O objetivo do grupo era lembrar ao casal real de sua simbólica presença em um evento em São Paulo há quase 25 anos, no Horto Florestal, no norte da capital paulista. E, além disso, fazer os reis levarem um alerta ao governador.

Em 29 de maio de 1992, às vésperas da Conferência das das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Rio-92, o rei sueco plantou uma árvore naquela unidade de conservação estadual. O ato cerimonial teve como uma de suas consequências, em janeiro do ano seguinte, a lei que deu ao Horto Florestal a denominação oficial de Parque Estadual Alberto Löfgren, em homenagem ao botânico sueco que foi um de seus fundadores e seu primeiro diretor em 1896.

Integrante de uma expedição botânica da Real Academia de Ciências da Suécia  — a mesma instituição que concede os prêmios Nobel —, em 1874, aos 20 anos, Albert Löfgren (1854-1918) chegou ao Brasil, onde viveu até o fim de sua vida. Além de se tornar um pioneiro nos campos da climatologia, fitogeografia e conservação da natureza em nosso país, o naturalista sueco teve também atuação destacada nas políticas públicas para o que depois passou a se chamar conservação da natureza.

Em 1886, Löfgren integrou a Comissão Geográfica e Geológica da Província de São Paulo, que se tornou o embrião da pesquisa científica que levou à criação de diversas instituições ligadas a secretarias do governo estadual, entre eles o Instituto Florestal (IF).

 

Sucateamento

Após uma reorganização administrativa que teve início em 2006, o IF tem hoje tem 47 áreas protegidas, totalizando cerca de 51,5 mil hectares. Grande parte de suas unidades foram transferidas para a Fundação Florestal, que hoje administra 38 parques estaduais (com cerca de 767,8 mil hectares), 17 estações ecológicas (240,5 mil hectares) e 30 áreas de proteção ambiental (1,5 milhão de hectares).

Esse grande conjunto de áreas protegidas já enfrentava dificuldades com restrições de recursos na época da cerimônia com o casal real sueco, em 1992. Sem falar que, longe de integrar as ações do instituto e da fundação, os governos estaduais exploraram ainda mais os conflitos entre as duas instituições – dividindo para governar – desde o período das gestões do PMDB (1987-2005), seguidas pelas do PSDB (desde 2005).

Após décadas de estrangulamento de recursos, falta de concursos para renovação de seus quadros e outras formas de sucateamento, Instituto Florestal e Fundação Florestal estão hoje com suas unidades em uma situação extremamente precária para manutenção e fiscalização de suas aéreas protegidas.

Ontem, quarta-feira (5), em um artigo distribuído por sua assessoria de imprensa, Joaquim Adelino de Azevedo, presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), afirmou que o IF ajudou a construir a indústria de base florestal, responsável pelo faturamento anual de mais de bilhões de reais, gerando milhões de empregos diretos e indiretos. E acrescentou:

Encontrar este patrimônio natural preservado e, sem a devida avaliação ecológica e estudos econômicos efetivos, colocado para concessão pela Secretaria do Meio Ambiente, é fraudar a sociedade e cometer crime de lesa-pátria.

Azevedo se refere não só às concessões autorizadas por lei em junho do ano passado para 25 unidades do IF e da FF, mas também ao chamamento voltado para a concessão e a venda de 34 áreas do instituto, das quais 25 não têm amparo legal para essa iniciativa (“Sem lei, governo de SP faz chamamento para venda de 34 áreas florestais”, 19/jan).

Esse era basicamente o alerta a ser levado ao governador.

 

Improbidade

Diferentemente do presidente da APqC, não faço objeções a concessões em unidades de conservação. No entanto, não há como evitar preocupação em face dos fatos estranhos e insólitos que envolvem o citado chamamento público promovido pelo secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Ricardo Salles, e por ele defendido sob o argumento de que estaria amparado pelos mais de 30 milhões de votos recebidos pelo governador Geraldo Alckmin.

Apesar do argumento do secretário, o Ministério Público do Estado de São Paulo instaurou inquérito de improbidade administrativa contra ele por seu chamamento (“MP abre novo inquérito de improbidade contra secretário de Ambiente de SP por venda de florestas”, Estadão, 24/mar, e  “Governo de SP fez reunião fechada sobre venda de florestas, dizem pesquisadores”, Direto da Ciência, 26/mar).

No final das contas, para a situação atual é irrelevante ser ou não ser contra concessões em parques ou outras unidades de conservação. Degradadas ao ponto em que chegaram após décadas de omissão dos governos paulistas, agravado pelo esvaziamento dos quadros técnicos e administrativos do instituto e da fundação, não há parceria público-privada que seja capaz de dar certo. Nem mesmo no capitalismo dos Estados Unidos se cometeu o desatino de sucatear áreas protegidas.

Enfim, não sabemos se os pesquisadores conseguiram levar sua mensagem para o rei Carlos XVI Gustavo e a rainha Silvia. E, muito menos, se sua articulação teria ainda resultado em uma abordagem do casal real da Suécia com o governador Alckmin. Só o tempo dirá. Talvez.

Na imagem acima, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), a primeira-dama Lu Alckmin, o rei Carlos XVI Gustavo e a rainha Silvia, da Suécia, no Palácio dos Bandeirantes, na segunda-feira (3/abr). Imagem extraída de vídeo de divulgação do Portal do Governo.

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Um comentários;

  1. Claudio Angelo said:

    Putz, só agora, depois de décadas, me dei conta do aptônimo: Löfgren, “Folha Verde”. Boa história, Tuffa, congrats!

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