Diretora de combate a desmatamento no MMA cai por criticar ‘falta de transparência’

Reclamações persistentes de Thelma Krug sobre a forma como o governo anuncia dados de devastação da Amazônia levaram à sua demissão


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Por suas críticas internas e persistentes ao governo sobre atrasos e falta de maior clareza nas divulgações dos dados oficiais sobre o desmatamento da Amazônia, a pesquisadora Thelma Krug passou a ficar cada vez mais fragilizada como diretora do Departamento de Florestas e de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Os rumores desde o final de março de que ela estava prestes a perder seu cargo se confirmaram nesta quarta-feira (19) com o decreto de sua exoneração, assinado pelo ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB), e publicado no Diário Oficial da União.

Em nota, o MMA afirmou que a ex-diretora teria manifestado interesse em deixar o cargo “para dedicar-se com ainda mais afinco às funções de vice-presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC)”, que ela exerce desde outubro de 2015.

No entanto, além de o decreto de exoneração não informar que teria sido feito “a pedido” – como ocorre nos casos de ser solicitada a demissão e aconteceu com um procurador-regional da União na mesma página do Diário Oficial da União – , a pesquisadora não pediu para deixar o cargo, segundo informação confirmada por Direto da Ciência com três fontes do governo.

Desde o início dos boatos sobre sua demissão, Thelma Krug não tem se pronunciado publicamente sobre o assunto. Os atos de nomeação e exoneração expedidos pela Casa Civil são encaminhados pelos respectivos ministérios, que no caso da ex-diretora é o MMA, comandado pelo ministro Sarney Filho (PV).

A ex-diretora deverá, segundo amigos, retornar à sua função de pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), de onde esteve afastada desde março de 2016, quando assumiu a direção do departamento no MMA.

As críticas de Thelma Krug ao governo com relação à divulgação de dados de desmatamento foram mais enfáticas no início do segundo semestre do ano passado. Concluídos em maio pelo Inpe, os dados da revisão do total do corte raso na Floresta Amazônica brasileira entre 2014 e 2015 ficaram retidos até o final de setembro no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), à espera de o ministro Gilberto Kassab (PSD) liberar a divulgação. A revisão mostrou que o corte raso nas florestas da região alcançou 6.207 km², reajustando de 16% para 24% o aumento da devastação na Amazônia em comparação com o período anterior, de 2013 a 2014, que foi de 5.012 km².

Em julho do ano passado, com cerca de três meses no cargo, a então diretora de Combate a Desmatamentos chegou a ser demitida e “desdemitida” no mesmo dia. O episódio, que foi explicado como um “mal-entendido” e assimilado externamente como uma “trapalhada”, aliviando suspeitas de que haveria realmente essa intenção, já revelava que a situação da pesquisadora não era confortável no MMA.

Na mesma nota, o MMA afirmou:

O Ministro do Meio Ambiente José Sarney Filho agradece à Dra. Thelma Krug pela contribuição que prestou enquanto esteve à frente do Departamento e deseja continuado sucesso nas suas elevadas funções como vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). O Ministério do Meio Ambiente espera seguir contando com a colaboração da Dra. Thelma Krug a partir do INPE, instituição para a qual retorna ao finalizar seu período no MMA, nos assuntos relativos aos instrumentos de monitoramento do desmatamento na Amazônia e em outros biomas brasileiros, nos quais ela tem reconhecida competência científica e técnica.

Formada em matemática pela Universidade Roosevelt (1975), nos Estados Unidos, e doutora em estatística espacial pela Universidade de Sheffield (1992), no Reino Unido, Thelma Krug ingressou no Inpe em 1982, onde chegou a chefiar a Divisão de Sensoriamento Remoto e a Coordenação Geral de Observação da Terra. De 2002 a 2015 foi co-presidente da Força-Tarefa em Inventários Nacionais de Gases de Efeito Estufa do IPCC, quando foi eleita vice-presidente pelo painel intergovernamental.

Para o lugar de Thelma foi nomeado o biólogo Jair Schmitt, que é coordenador-geral de Fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Na imagem acima, Thelma Krug, pesquisadora do Inpe e vice-presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC). Foto: Inpe/Divulgação.

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