O fim da ‘pós-verdade’ do governo de SP sobre o volume do Cantareira

Após sucessivas derrotas na Justiça, Sabesp desiste de ‘bombear’ percentuais do maior sistema de abastecimento da Grande São Paulo


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Antes dos  chamados “fatos alternativos” que no ano passado beneficiaram a campanha eleitoral do então candidato Donald Trump, nos Estados Unidos, aqui no Brasil, já em 2014, em plena crise hídrica e perto do início da disputa que reelegeu o governador Geraldo Alckmin (PSDB), o governo paulista produziu “indicadores alternativos” para o armazenamento de água do sistema Cantareira.

Só que agora essa “pós-verdade” paulista acabou. Após três anos confundindo a sociedade, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) desistiu de usar artifícios aritméticos para aumentar os indicadores sobre a situação desse conjunto de reservatórios que abastece a maior parte da população da Região Metropolitana de São Paulo.

Nesta segunda-feira (15), em vez de divulgar também o enganoso percentual de 94,9% de armazenamento de água que ainda ontem era mostrado em seu site Situação dos Mananciais, a Sabesp passou a indicar – e corretamente – apenas um dado: 65,6% para o volume disponível do Cantareira. Se for para valer, a última edição dessa divulgação desinformativa foi o gráfico a seguir.

Fonte: Sabesp, “Situação dos Mananciais”, 14/mai/2017.

Segundo nota enviada à imprensa na sexta-feira (12) pela estatal de saneamento do governo paulista, a “simplificação” é resultado de três fatores: “a superação da crise hídrica com as diversas obras executadas pela Sabesp, a recuperação dos volumes armazenados nas represas e o retorno das condições hidrológicas normais”. Na verdade, porém, a Sabesp brigou muito na Justiça para continuar apenas* com seus “indicadores alternativos”. E perdeu em todas as instâncias às quais recorreu. [*Acréscimo às 19h11.]

 

Aberração matemática

Em maio de 2014, no auge da críse hídrica no estado e perto do início da campanha para reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB), a Sabesp “inventou” uma aberração matemática para divulgar o armazenamento do sistema: um percentual calculado por meio de uma fração que tinha no denominador somente o volume útil total regular dos reservatórios — ou seja, sem considerar a chamada reserva técnica ou volume morto —, mas computava no numerador toda a água armazenada, inclusive a do volume morto.

Para entender melhor o desatino matemático desse “método”: se o armazenamento desse conjunto de reservatórios estivesse no máximo de sua capacidade, o que já aconteceu em 2010, o percentual resultante não seria de 100%, nem de uma pequena variação para mais ou para menos. Seria o disparatado percentual de 129,3%, pois na parte inferior da fração de cálculo estará o volume útil total de 982 bilhões de litros, enquanto na parte superior haverá pelo menos 1,27 trilhão de litros de água – ou seja, o mesmo volume útil total somado com 287,5 bilhões de litros do volume morto.

A maquiagem aritmética começou logo após Alckmin anunciar, em 15 de maio de 2014, a instalação de 17 bombas flutuantes nos reservatórios Jaguari/Jacareí, em Joanópolis, e Atibainha, em Nazaré Paulista, além da construção de 3,5 km de canais de ligação, ao custo de R$ 80 milhões. Naquele dia, o site da Sabesp anunciava o minguado indicador de 8,2% de armazenamento. No dia 16, a contagem pulou para 26,7%, com o acréscimo, apenas no numerador, de 182,5 bilhões de litros da primeira parte do volume morto.

Em outubro daquele ano, já com Alckmin reeleito no primeiro turno, o truque aritmético estava afundando junto com o volume de água dos reservatórios. No dia 23, mesmo turbinado, o percentual “calculado” indicava 3,0%. Mas, no dia seguinte, pulou para 13,6% com mais um acréscimo ao numerador da fração de cálculo: 105 bilhões de litros da segunda parte do volume morto.

 

Correção coercitiva

Questionada pelo Ministério Público, a Sabesp começou a divulgar em 16 de março de 2015 um segundo indicador, cujo cálculo também computava o volume morto, mas corretamente, ou seja, tanto no numerador como no denominador. Foi uma forma de tentar responder ao promotor de Justiça Ricardo Manuel Castro, do Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente, que havia interpelado a companhia.

No entanto, apesar de não envolver o desatino aritmético do indicador anterior, que passou ser denominado Índice 1,  o Índice 2 não explicitava o nível do comprometimento do sistema pelo uso do volume morto. Foi o que explicou o o engenheiro hidráulico Antonio Carlos Zuffo, professor da Unicamp, para meu blog anterior, na Folha (“Índices do Cantareira desinformam população, dizem pesquisadores”, 25/fev/2015).

Essa forma que está sendo empregada para informar à sociedade o armazenamento do Cantareira equivale a um extrato bancário que não mostra o saldo devedor de uma conta corrente que está negativa no cheque especial.

Tendo a Sabesp se negado a indicar com percentual negativo o armazenamento do sistema, o promotor ajuizou uma ação civil pública. Em 24 de abril de 2015, o juiz Evandro Carlos de Oliveira, da 7ª Vara da Fazenda Pública do Estado, concedeu liminar que obrigou a companhia a acrescentar à sua divulgação diária um indicador de armazenamento do sistema Cantareira calculado somente com base no volume útil regular. No dia 26, o site Situação dos Mananciais passou a divulgar três indicadores: o Índice, que registrava 20%, o Índice 2, de 15,5%, e o Índice 3, que apontava 9,3% negativos.

Em 9 de junho daquele ano, ao dar sua sentença, mantendo a determinação da liminar, o juiz afirmou:

Ora, se Volume Útil do Sistema é negativo, por que não informar o consumidor do bem corretamente sobre referido fato? Será que os consumidores e a sociedade não devem ser informados sobre os reais riscos existentes?
O Estado de São Paulo vive um momento singular de escassez de água e, portanto, todas as medidas possíveis e úteis para a conscientização do consumidor devem ser adotadas; dentre elas a devida e real informação quanto ao nível do sistema.

Os percentuais do Índice 3 só passaram a ser positivos na virada de ano de 2015 para 2016, quando as chuvas recompuseram o volume morto do sistema Cantareira, como mostra o gráfico abaixo.

 

Imprensa engoliu

Após recorrer ao Tribunal de Justiça contra essa sentença judicial ainda em 2015, a Sabesp teve sua apelação negada pelos desembargadores Paulo Galizia (relator) e Antonio Carlos Villen (revisor), da 10ª Câmara de Direito Público em 19 de outubro. A estatal recorreu novamente, mas teve seus pedidos de embargos recusados pela mesma câmara em 14 de dezembro. A estatal ainda apelou em 2016 com um recurso especial, mas foi novamente derrotada em 24 de junho, quando o desembargador Ricardo Dip, presidente da Seção de Direito Público do TJ, também negou atendimento.

É curioso que a Sabesp tenha apelado a tantos recursos judiciais para prosseguir com sua divulgação desinformativa, mesmo após o governador paulista, em 7 de março do ano passado, ter “decretado” que a crise hídrica havia acabado.

No final das contas, a persistência da “pós-verdade” com dados oficiais da Sabesp e do governo de São Paulo sobre o Cantareira mostrou um outro aspecto muito ruim. Em grande parte, nem mesmo a imprensa, que tem se afirmado como fonte segura contra os chamados “fatos alternativos”, escapou de vender para seu leitor da mesma forma como comprou da estatal paulista de abastecimento a enganação do absurdo “Indicador 1”.

 

Sabesp responde (atualização de 18/mai)

No início da noite de quarta-feira (17), a Sabesp enviou a seguinte nota a Direto da Ciência.

Em relação ao texto “O fim da pós-verdade do governo de SP sobre o volume do Cantareira”, a Sabesp não quis confundir a sociedade nem criar uma aberração matemática ao utilizar as reservas técnicas do Sistema Cantareira. O objetivo foi garantir o abastecimento de mais de 21 milhões de pessoas durante a inédita e severa crise hídrica de 2014-2015. A água captada das reservas foi fundamental no esforço para manter a população abastecida, associada a obras de novas captações, ao bônus e às interligações com outros sistemas, entre outras ações. Os três índices retratavam o volume de água disponível para atender à população durante a crise. Como não existe volume negativo, os índices visavam retratar o estoque disponível para o abastecimento.

Não existe volume negativo? Que bom! Então também não deve existir saldo negativo de conta corrente. No final das contas, a nota da Sabesp fugiu completamente ao fato de que seu disparatado “Indicador 1” é um absurdo matemático. Disparatado e deseducativo. Merece ser usado como mau exemplo em aulas de matemática, devidamente associado ao nome da companhia.

Leia também:

Na imagem acima, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), acionando o sistema de bombas de captação de água da reserva técnica do Sistema Cantareira, na represa Jaguari/Jacareí, em Joanópolis (SP), em 15 de maio de 2014. Foto: Vagner Campos/A2 Fotografia/ Divulgação.

Apoie o jornalismo crítico e independente de Direto da Ciência

Você acha importante o trabalho deste site? Independência e dedicação têm custo. E conteúdo exclusivo e de alta qualidade exige competência e também investimento para ser produzido. Conheça o compromisso de Direto da Ciência com essa perspectiva de trabalho jornalístico e com seus leitores. (Clique aqui para saber mais e apoiar.)


Receba avisos de posts de Direto da Ciência.

Informe seu e-mail para receber avisos. Ele não será fornecido a terceiros.

Para sua segurança, você receberá uma mensagem de confirmação. Ao abri-la, basta clicar em Confirmar, e sua inscrição já estará concluída. Você sempre poderá, se quiser, cancelar o recebimento dos avisos.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

6 Comentários

  1. Ricardo Moura said:

    Ótima análise! Partindo de dados disponíveis publicamente, resultou em um bom exemplo de jornalismo analítico-investigativo.

  2. Renato Mendes said:

    Tuffani, esse seu artigo deve ter estragado a divulgação do Alckmin com a Sabesp na Bolsa de Nova York…

  3. Marcos Bianchi said:

    Na mosca, Maurício Tuffani. Perfeito. Parabéns!

  4. Karina said:

    Olha, o texto é muito bom, mas peca por uma questão conceitual e crucial: nunca existiu “crise hídrica” e sim “crise de gestão hídrica”.

    • Pablito said:

      Enfim uma voz lúcida e cerebral da colega aí acima.

    • Robson said:

      Crise de gestão hídrica = culpa do Santo.
      Crise hídrica = culpa de outro santo, o Pedro.

Comentários encerrados.

Top