Sem voar há 8 anos, avião-laboratório do Inpe será doado à FAB

Avião Bandeirante EMB 110 B1, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), fora de operação desde 2009 e estacionado desde então na pista do aeroporto de São José dos Campos. Foto: Lucas Lacaz Ruiz, autorizada especialmente para Direto da Ciência.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Há oito anos desativado e estacionado à beira da pista do aeroporto de São José dos Campos (SP), o avião-laboratório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) está prestes a ser doado para a Aeronáutica. Custos elevados de manutenção e pareceres jurídicos contrários a realizar esse tipo de despesa foram os principais motivos para a direção do instituto optar por desativar seu Bandeirante, que realizava missões científicas de sensoriamento remoto e coleta de dados atmosféricos.

“Em 2012, o custo total para a manutenção foi orçado por empresas especializadas em montante superior a R$ 2,5 milhões, enquanto o valor da aeronave era estimado em aproximadamente R$ 600 mil”, afirmou em nota a direção do Inpe sobre o Bandeirante EMB 110 B1, que foi fabricado pela Embraer em 1980, adquirido em 1981 pelo instituto e agora está coberto de poeira.

A comparação entre esses valores, no entanto, foi criticada por pesquisadores do Inpe.

“Não dá para comparar o valor desse avião com o de uma aeronave qualquer”, disse Paulo Cesar Gurgel de Albuquerque, engenheiro cartográfico aposentado desde março de 2016. “O que perdemos, na verdade, foi um laboratório especializado em aerolevantamento e aquisição de dados sobre clima, ambiente, cartografia e outras áreas, inclusive simulação e ensaio de sensores”, acrescentou.

“O Bandeirante não era só do Inpe. Ele ajudou a integrar trabalhos de várias instituições brasileiras e também do exterior”, disse um pesquisador do instituto sob condição de anonimato, que destacou a participação do avião no Experimento de Larga Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), um grande projeto internacional que envolveu mais de 300 especialistas da América Latina, da Europa, Israel Austrália e Estados Unidos.

 

Ao relento

Enquanto esteve em operação, de 1981 a 2009, o Bandeirante do Inpe “dormia” em um hangar do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), da Aeronáutica, que, segundo a direção do instituto, posteriormente necessitou do local para outra finalidade.

O Inpe informou que, após estudos e reuniões com pesquisadores e usuários em potencial, iniciou processo  no primeiro semestre de 2015 para a doação da aeronave, que, em fevereiro de 2016, já estava disponível no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), do governo federal, para possíveis interessados. em dezembro, o DCTA manifestou interesse.

Em nota, o DCTA informou que o objetivo do Comando da Aeronáutica é “transferir a aeronave Bandeirante EMB 110, prefixo PP-FFV, para o Parque de Material Aeronáutico da Lagoa Santa (PAMA-LS)”. Entre as atribuições desse centro da Força Aérea Brasileira está a manutenção de aeronaves.

 

Prejuízo para a pesquisa

A Consultoria Jurídica da União (CJU) passou a recomendar a doação da aeronave devido aos altos custos de manutenção, ressaltou a nota do Inpe, acrescentando: “Em 2015, uma revisão completa foi estimada em cerca de R$ 5 milhões e implicava na desmontagem das turbinas e recondicionamento de vários subsistemas do avião”.

A Embraer deixou de fabricar o Bandeirante em 1995. No entanto, mesmo em países ricos, aeronaves fora de linha são mantidas para pesquisas. É o caso do Douglas DC-8 e do Lockheed P-3B, da Nasa, que com o avião-laboratório do Inpe participaram do LBA .

A desativação do Bandeirante inviabilizou várias iniciativas de pesquisa do Inpe e de outras instituições, que para terem continuidade passariam a depender de contratações de serviços com custos elevados, e demora nas licitações, sem falar na burocracia para isso. “Era tudo mais rápido e com baixo custo quando se podia contar com nosso avião-laboratório”, afirmou Gurgel.

O prejuízo devido à falta do Bandeirante do Inpe para a pesquisa do clima e do meio ambiente em geral tem sido inestimável, segundo o físico Paulo Artaxo, da USP, que foi um dos coordenadores do projeto LBA. O avião-laboratório possibilitava vôos a baixa altitude, proporcionando excelente condições para captação de dados atmosféricos e com uma boa relação custo-desempenho, afirmou o pesquisador, que é membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) e um dos pesquisadores brasileiros de maior projeção internacional.

“O Brasil tem cerca de 7.500 quilômetros de costa e conta com cinco navios oceanográficos. Não dá para um país como o nosso, com uma área de mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, deixar de ter uma plataforma de pesquisas como esse avião”, disse Artaxo. Ele e alguns pesquisadores do Inpe acreditam que a FAB poderia restaurar o Bandeirante e, dentro de uma boa relação custo-benefício, fazê-lo voltar a ser o laboratório que era. Afinal de contas, dizem eles, a aeronave tinha poucas horas de vôo para a idade que atingiu.

 


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