Brasil já fez sua parte para ‘ponto sem retorno’ da devastação da Amazônia

Com cerca de 20% da floresta já desmatados, alerta sobre limite pode até estimular políticos a criarem fato consumado 


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Em seu artigo “Um ponto sem retorno”, publicado neste domingo na Folha, o biólogo Thomas Lovejoy, um dos criadores do conceito de biodiversidade, afirma que a devastação da Floresta Amazônica poderá se tornar irreversível quanto tiver atingido 20%. Se isso é verdade, vale a pena observar que o Brasil já garantiu sua parte esse estrago. Apenas com o corte raso, ou seja, sem contar outros tipos de degradação, em julho de 2016 já havíamos desmatado 19,5% do domínio original da parte brasileira dessa grande floresta sul-americana.

Parceiro de Edward O. Wilson nos estudos dos anos 1970 que consagraram o conceito de diversidade biológica, Lovejoy, que foi vice-presidente do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), conselheiro para assuntos ambientais do Banco Mundial e colaborador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) desde a década de 1960.

Ao se referir ao efeito cumulativo da crescente devastação, mencionando estudos que apontam o risco de se chegar a “um ponto de inflexão que levaria à morte da floresta amazônica”, Lovejoy faz as seguintes afirmações em seu artigo.

Hoje sabemos que, além do desmatamento, o uso amplo de queimadas e as mudanças climáticas estão todos empurrando o sistema amazônico em direção a um ponto sem retorno.

É difícil fazer uma estimativa precisa de onde se situa esse ponto, mas aqueles de nós que acompanhamos esses estudos pensamos que é provavelmente quando 20% da floresta tiver sido derrubada. 

O Brasil possui cerca de 60% dos cerca de 6,7 milhões de quilômetros quadrados estimados como sendo a extensão do domínio original da Floresta Amazônica, que é abrangida também pela Bolívia, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Suriname e Guiana Francesa.

Com o fechamento da estimativa do desmatamento completo (corte raso) no período de  agosto de 2015 a julho de 2016, a supressão cumulativa na parte brasileira desse bioma passou a contabilizar 778.403 km2, ou seja, 19,5% dos 3,991 milhões de quilômetros quadrados de seu domínio original. A maior parte dessa devastação, que equivale à metade da do estado do Amazonas, a mais que o dobro da Alemanha e a mais que o triplo do estado de São Paulo, aconteceu em menos de 30 anos, como mostra o quadro a seguir.

 

Devastação é ainda maior

Na verdade, a devastação da Floresta Amazônica é ainda maior. Medidas desde 1989 pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), as taxas anuais mostradas no gráfico acima correspondem somente às superfícies onde houve eliminação total da cobertura vegetal por meio de corte raso.

Esses números não incluem áreas muito degradadas pela extração seletiva de madeira e também por incêndios ocorridos anteriormente, como a da imagem a seguir, no norte de Mato Grosso, onde o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) desenvolve pesquisas sofre o efeito de queimadas.

Área da Floresta Amazônica em Querência, no norte de Mato Grosso. Degradada por queimadas, ela não é incluída nas estimativas de corte raso divulgadas anualmente. Foto: Maurício Tuffani.

Área da Floresta Amazônica em Querência, no norte de Mato Grosso. Degradada por queimadas, ela não é incluída nas estimativas de corte raso divulgadas anualmente. Foto: Maurício Tuffani.

Esse tipo de devastação não é registrado pelo Prodes, mas por outro projeto do Inpe, o Mapeamento da Degradação Florestal da Amazônia Brasileira (Degrad), que começou em 2007. Seus dados mais recentes apontaram que em 2011 que esse tipo de devastação chegou a 24.650 km2, uma área aproximadamente equivalente a 10% do Estado de São Paulo, como mostra o quadro a seguir.

Lovejoy foi cauteloso em seu artigo ao apontar como estimativa, e não como não como um dado preciso, o limiar de 20% de desmatamento que ele e seus colegas acreditam ser o ponto de inflexão para a destruição sem retorno da Floresta Amazônica. Mas isso já não faz diferença. O índice que a ciência ainda não definiu com precisão já caminha para se tornar um número superado pela voracidade com que parlamentares estão investindo conta a legislação do licenciamento ambiental e reduzindo áreas de unidades de conservação.

Na verdade, com o crescente cinismo antiambientalista, a simples ideia de um ponto sem retorno da devastação pode até acabar servindo como pretexto para o argumento de que não adianta mais fazer coisa alguma para preservar o que quer que seja. Ainda mais em um país onde 1.829 políticos de 28 partidos tiveram suas campanhas eleitorais em 2014 turbinadas ilegalmente com R$ 500 milhões da JBS.

Na imagem acima, toras de madeira extraídas ilegalmente da terra indígena Manoki, em Juína (MT) apreendidas pelo IBAMA em 19/mai/2016. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

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