Secretário do Meio Ambiente de Alckmin deita e rola no Estadão

Entrevista de Ricardo Salles deixa de lado perguntas anteriores do próprio jornal que não foram respondidas


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Para o leitor habitual do Estadão, pode parecer que faltou a caracterização de informe publicitário na matéria que ocupa a parte superior da penúltima página de seu primeiro caderno da edição deste sábado. Infelizmente não é o que aconteceu. Destacado em foto posada em entrevista nesse alto de página do centenário diário paulistano, o secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Ricardo Salles, escapou ileso de perguntas que recentemente se recusou a responder ao próprio jornal.

A publicação da entrevista “Frequência no Villa-Lobos cresceu 30%” acontece justamente no momento em que era de se esperar alguma iniciativa de gestão de comunicação de crise para tentar desfazer a imagem negativa que o próprio Salles construiu em menos de um ano, desde que foi nomeado secretário em julho de 2016 pelo governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB).

Afinal, além de ser réu em uma ação de improbidade administrativa e de ser investigado em inquéritos do Ministério Público, Salles também tem sido constantemente criticado por pesquisadores e por ambientalistas por desrespeitar aspectos técnico-científicos, por contratações de políticos para chefias de unidades de conservação, entre outros motivos.

No entanto, assim como o tal jabuti no alto da árvore, é de se estranhar também não só a imagem impávida do secretário do Meio Ambiente nesse alto de página, mas também a abordagem amena da entrevista,  poupando-o de ser confrontado com questões sobre problemas que ele tem enfrentado. Em todo o texto não há nenhuma menção a ações na Justiça ou a contratações políticas e outros temas graves.  Contrastando com a prática do jornal, o entrevistado nem sequer é caracterizado como político, e que desde o ano passado começou a aparecer em vídeos de propaganda político-partidária do PP.

Dedicando a maior parte do texto ao tema das concessões em parques urbanos, a reportagem omite completamente a falta de autorização legislativa para o chamamento público para a venda de 34 áreas florestais, suspenso pela Justiça, e as acusações de impedimento de livre acesso à reunião com representantes de empresas interessadas nessa iniciativa em 26 de janeiro. No final das contas, tudo é reduzido na entrevista ao caráter de divergência de opiniões.

Por falar em opinião, no domingo (4/jun), o Estadão já havia despertado a atenção de ambientalistas e pesquisadores com o editorial “Quem preserva o meio ambiente”, em que a empresa que administra o jornal procurou defender o agronegócio de críticas por sua participação na devastação ambiental. Apesar da unilateralidade do texto baseado em controverso estudo do biólogo Evaristo Miranda, da Embrapa Monitoramento por Satélite, em Campinas (SP), tratava-se da opinião do jornal, e ponto final.

Na segunda-feira (5/jun), em pleno Dia Mundial do Meio Ambiente, no espaço opinativo do jornal foi publicado o artigo “Agricultura lidera preservação no Brasil”, do próprio Miranda, dando mais detalhes sobre sua pesquisa.

Independentemente dos diversos questionamentos que podem ser feitos ao estudo, a opinião do pesquisador da Embrapa causou espanto por se insurgir até mesmo contra um dos instrumentos da lei florestal aprovada em 2012, o Programa de Regularização Ambiental (PRA), ao qual ele se referiu como “inquisição informatizada”. (Confira na carta aberta de alunos do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP.)

Salles, que foi diretor jurídico da Sociedade Rural Brasileira, designou Miranda para integrar a Câmara de Compensação Ambiental da Secretaria do Meio Ambiente, que delibera sobre a aplicação de recursos financeiros pagos por empreendedores conforme decisões tomadas no licenciamento de obras e outras atividades geradoras de impacto ambiental.

Uma coisa é o Estadão ter sua opinião na área ambiental e reforçá-la enfaticamente em seu espaço opinativo – e, infelizmente, sem dar espaço para opiniões divergentes, como o fazem a Folha e O Globo. Outra coisa é o jornal contaminar seu espaço informativo com sua opinião. É muito importante que a estranha e atípica entrevista na edição de hoje com o secretário do Meio Ambiente de São Paulo seja apenas um ponto fora da curva, e não o começo de uma ruptura com a necessária separação entre essas duas atividades editoriais.

Na imagem acima, alto de página do jornal O Estado de S. Paulo, com entrevista do secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Ricardo Salles, em 10/jun/2017. Imagem: reprodução.

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2 Comentários

  1. Pingback: Guerra às drogas (e aos dados) – LAbI UFSCar

  2. GIULIO CESARE STANCATO said:

    O PSDB e os seus coligados estão acabando com a ciência, com os Institutos de pesquisa e com as universidades. Os vinte anos do governo tucano em SP foram suficientes para dar um golpe mortal…. Muito difícil será a reabilitação…
    ViAcordem paulistas, basta do falso moralismo….basta de “santos” !!!_

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