Fundação Florestal de SP compra por quase R$ 500 mil equipamento para a Cetesb

Sob restrição de recursos para suas unidades de conservação, FF faz despesa para beneficiar estatal com dotação muito maior


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Funcionários da Fundação Florestal de São Paulo reagiram com indignação ao constatar nesta quinta-feira, no Diário Oficial, que, apesar da carência de investimentos em seus parques estaduais, estações ecológicas e outras unidades de conservação, a instituição acabou de realizar a aquisição de um equipamento no valor de R$ 489,5 mil para outro órgão, cuja dotação orçamentária é mais que duas vezes maior.

O órgão beneficiado pela compra é a estatal Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), que, assim como a fundação, é ligada à Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (SMA). O equipamento comprado é um cromatógrafo portátil, um instrumento que serve para analisar a composição de substâncias de uma amostra de material.

Não há dúvida sobre a utilidade desse equipamento. Segundo o edital da licitação, que foi publicado em 24 de maio, a finalidade do uso do cromatógrafo é dar “agilidade no atendimento e melhoria na capacidade técnica de atuação em ocorrências envolvendo produtos perigosos, seja em áreas urbanas ou áreas ambientalmente protegidas”.

O problema é a Fundação Florestal, cuja despesa autorizada para este é de cerca de R$ 205 milhões, adquirir um equipamento no valor de quase meio milhão de reais – que daria para comprar pelo menos uns seis veículos de vigilância para suas unidades de conservação – para uma estatal, cuja dotação é de aproximadamente R$ 444 milhões (Lei Orçamentária Anual 2017, pág. 480) e que já vem usando rotineiramente instrumentos desse tipo há muitos anos em emergências químicas.

A situação é agravada pelo fato de que nem mesmo os funcionários da FF, que vivem a escassez de recursos para  suas unidades de conservação, sabem dos critérios para a priorização de recursos. Nos últimos anos o corpo técnico da fundação já não vinha sendo informado internamente sobre as decisões de sua diretoria. As incertezas pioraram desde julho do ano passado, com a nomeação do secretário Ricardo Salles (PP) para a SMA pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Em 24 de maio, mesmo dia em que foi publicado o citado edital, questionei a SMA. Não houve resposta.

 

Em tempo

A coisa é pior. Na semana passada, no feriado de Corpus Christi (15/jun), o Diário Oficial publicou o extrato da compra, no valor de R$ 1,48 milhão, pela Fundação Florestal, de “Duas Viaturas (Caminhões) Devidamente Aparelhadas e Adaptadas para Atuar no Atendimento a Emergências Químicas pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo – Cetesb”.

Na imagem acima, técnicos da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) usam cromatógrafo portátil para analisar compostos em trabalho de campo. Foto: Cetesb/Divulgação.

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Um comentários;

  1. Anônimo said:

    É inacreditável e inconcebível como a pasta de Meio Ambiente, que até poucos anos atrás era sinônimo de agenda e feitos positivos, passou a integrar o noticiário político dantesco em voga no país, apresentando um cenário negativo para o governo do PSDB e do governador Alkimim. A partir do momento em que o governador impôs políticos sem perfil ambiental algum à SMA, iniciando-se a saga por Bruno Covas, que reduziu a Fundação Florestal e as UCs paulistas a comitês de campanha de 5a categoria, as notícias veiculadas pela mídia só demonstram os conflitos gerados, que a cada dia tornam-se escândalos. Antagônicamente, por incrível que possa parecer, a gestão de um ruralista-ambientalista, o Agrônomo Xico Graziano, detém entre os técnicos da SMA a avaliação de melhor secretário desde a criação da SMA em 1986, pelo fato de desenvolver um programa ambiental que se estendeu a todo o Estado, não se limitando às áreas de maior visibilidade, notoriamente capital, Serra do Mar e Litoral paulista. O profissionalismo e as realizações do Xico e sua trupe foram substituídos por uma inércia geral, em que os interesses ambientais foram deixados à parte, adotando-se uma cartilha em que os gestores de UCs foram indicados por amigos, compadres, por partidos políticos, prefeitos, … A gestão por resultados, a eficiência e a eficácia foram abandonados, o que foi revelado primariamente em 2013 numa ampla cobertura jornalística do Estadão. Este ímpeto arrefeceu, ainda que não tenha parado, e voltou com força renovada com a ascensão de Ricardo Sales, que o ‘Direto da Ciência’ tem acompanhado e revelado. Quiçá um dia a SMA (a FF, a Cetesb e os Institutos de Pesquisa) retorne ao seu bom caminho, pois seu quadro técnico é dos melhores do Brasil, com exceção dos muitos indicados políticos em cargos comissionados e os ruralistas que a tomaram em troca de apoio político ao governo do Estado.

Comentários encerrados.

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