Inovação: Finep reclama de dinheiro parado e Fapesp, sem Alckmin, festeja resultados

Governador com pretensão de ser presidente do Brasil desperdiça oportunidade incomum de associar seu nome a uma iniciativa de sucesso na área de inovação

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Em menos de uma semana, o tema do apoio governamental à inovação foi noticiado como motivo de reclamação e também de orgulho.

Nesta segunda-feira, na Folha, Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), reclama da falta de atratividade para empresas dos financiamentos para iniciativas de inovação. “Nos últimos 15 anos, foram arrecadados quase R$ 70 bilhões e liberados só R$ 20 bilhões. Se os recursos tivessem sido capitalizados, o fundo teria um saldo de mais de R$ 40 bilhões”, disse ele à coluna Mercado Aberto, editada por Maria Cristina Frias (“De R$ 7 bilhões disponíveis para inovação na Finep, 6% foram contratados em 2017”).

Por outro lado, na quinta-feira (29), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) comemorou não só os 20 anos do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), mas também seus números: 1.788 projetos de pesquisa apoiados em 1.100 pequenas empresas de base tecnológica situadas em 127 cidades no estado, tendo sido investidos R$ 360 milhões até 2016 (“FAPESP comemora 20 anos do PIPE, programa de apoio à pesquisa inovativa em empresas”).

Não dá para comparar os programas a que se referem o presidente da Finep e o evento da Fapesp, pois são iniciativas diferentes. A começar pelo fato de que o primeiro envolve financiamento e o segundo é voltado para investimentos não reembolsáveis. As duas divulgações evidenciam também aspectos distintos sobre a forma como o poder público tenta superar o limitado interesse em inovação por parte do empresariado brasileiro.

A coluna da Folha mostra o presidente da Finep destacando o peso negativo das taxas de juros que, segundo ele, podem chegar a até 16% e são elevadas demais para o mercado de inovação de longo prazo. O dirigente da agência afirma que alternativas de mudança já foram propostas ao ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab (PSD).

Na notícia do aniversário do programa da Fapesp, por sua vez, não faltaram resultados positivos, como o retorno de R$ 6 para cada R$ 1 investido em pesquisa para inovação. Mas o estranhamento ficou por conta de sua percepção pelo governo estadual.

Na véspera do evento, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) comunicou que não compareceria, apesar de ter confirmado sua participação. A ausência não parece ter sido motivo para reclamações. Mas não faltaram rápidos comentários de comparações entre muitos dos presentes ao auditório da Fapesp nos momentos em que o vídeo sobre os 20 anos do programa, repleto de boas histórias e depoimentos de empresários, mencionou a “presença simbólica e forte do governador Mario Covas” no lançamento dessa iniciativa em 1997 (“Pipe 20 Anos”, YouTube).

Alckmin optou por participar na manhã de quinta-feira da abertura do seminário “Semear Educação”, promovido pelo Tribunal de Contas do Estado e pela União dos Dirigentes Municipais da Educação do Estado de São Paulo. Agendada inicialmente para ser realizada no Memorial da América Latina, a cerimônia de abertura acabou sendo transferida para o Palácio dos Bandeirantes.

No final das contas, o evento não contou nem mesmo com a presença do titular da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, pasta à qual é vinculada a Fapesp. O secretário Márcio França, que também é vice-governador, estava em Brasília em reunião da executiva nacional de seu partido, o PSB.

Além disso, vale lembrar os dois desgastes que ambos, Alckmin e seu vice, protagonizaram perante a comunidade científica. No ano passado ao afirmarem, em ocasiões distintas, que a Fapesp financia “pesquisas acadêmicas sem nenhuma utilidade prática para a sociedade”. E também no início deste ano por terem endossado a redução do orçamento da fundação abaixo do mínimo previsto na Constituição do Estado.

O programa da Fapesp certamente não perdeu nada com a ausência do governador ao evento comemorativo. Mas é preocupante que um político como Alckmin, que tem a pretensão de ser presidente do Brasil, tenha desperdiçado uma oportunidade incomum de associar seu nome a uma iniciativa de sucesso na área de inovação.

Em tempo: no dia seguinte ao evento comemorativo da Fapesp, a Folha publicou o caderno especial “O Brasil que dá certo – inovação”.

Em tempo 2: Nesta segunda-feira, Kassab e Marcos Cintra anunciaram a instalação de um escritório da Finep em Fortaleza e a destinação de R$ 500 milhões para parcerias em projetos de inovação (“Finep amplia atuação no Nordeste e destina R$ 500 milhões para projetos de inovação”).

Na imagem acima, o físico José Goldemberg, presidente da Fapesp, em evento com empresários e pesquisadores em comemoração dos 20 anos do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas. Foto: Eduardo Cesar/Revista Pesquisa Fapesp.

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