Consultoria lança lista negra de periódicos, mas acesso é pago

Base de dados Cabell Blacklist indica 4.750 publicações acadêmicas consideradas enganosas ou predatórias


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Estava difícil obter informações atualizadas sobre publicações acadêmicas de má qualidade desde janeiro deste ano, quando Jeffrey Beall havia desativado seu blog Scholarly Open Access, com suas listas de publisher e periódicos predatórios. Desde junho, um serviço mais ou menos semelhante a esse passou a ser oferecido pela consultoria Cabell International, dos Estados Unidos, mas com acesso pago.

Mais conhecido já como Cabell Blacklist, o Journal Blacklist contava em maio, antes de entrar em operação comercial, com cerca de 3.900 periódicos cadastrados. Para o acesso a essa lista negra, que nesta terça-feira (25) indica 4.750 periódicos, a empresa, sediada em Beaumont, no Texas, cobra assinaturas de valor variável de acordo com as características de porte, complexidade e uso do cliente.

A Cabell, que já tinha sua Whitelist, define seu novo produto nos seguintes termos.

A Blacklist é um banco de dados pesquisável de periódicos acadêmicos enganosos e predatórios – o único desse tipo. Nossos especialistas analisam publicações suspeitas com base em mais de 60 indicadores comportamentais para manter a comunidade a par das ameaças crescentes e manter os pesquisadores protegidos das operações de exploração. Os assinantes têm acesso ao banco de dados de relatórios detalhados para cada periódico que nossos especialistas avaliaram e sinalizaram como uma ameaça provável. Cada relatório fornece formas de identificar a revista e enumera os comportamentos predatórios específicos que a avaliação revelou.

Uma avaliação sobre a Cabell Blacklist foi publicada hoje por Rick Anderson, pró-reitor de Coleções e Comunicação Acadêmica da Universidade de Utah, em seu artigo “Cabell’s New Predatory Journal Blacklist: A Review”, publicado no blog The Scholarly Kitchen.

Segundo Anderson, a Blacklist da Cabell tem vários postos positivos, a começar pelos critérios de inclusão – exatamente 64 –, que são claramente definidos e disponíveis publicamente. Sobre isso, o articulista afirma:

Vale a pena notar que, na escala de práticas predatórias ou enganosas, muitas dessas violações das normas de comunicação acadêmica são, embora preocupantes e talvez irritantes, não especialmente notáveis. É precisamente por isso que uma lista negra precisa ser transparente sobre os motivos para inclusão de um periódico ou publisher para que o leitor possa decidir por si mesmo o quanto o comportamento da revista realmente é preocupante. Esta transparência é um dos aspectos positivos mais importantes do produto da Cabell.

Anderson destaca, no entanto, alguns pontos negativos do produto da Cabell, entre eles a dificuldade no mecanismo de busca, que ele considera fácil de resolver, e o fato de que a Blacklist “perpetua o problema comum de confundir publicações periódicas de baixa qualidade com publicação enganosa ou predatória”. Assim como ele, que solicitou acesso temporário à lista para poder avaliá-la, também fiz o pedido, mas ainda não tive resposta.

 

Listas de Beall

Jefrey Beall desativou seu blog com as famosas listas de publishers e periódicos predatórios em 15 de janeiro. Mas elas foram guardadas em alguns repositórios, como registrou Direto da Ciência dias depois (“Listas de editoras e periódicos predatórios somem da internet, mas aqui estão as cópias”).

O próprio Beall destacava ao início de suas listas a seguinte advertência.

Recomendamos que os estudiosos leiam as revisões disponíveis, as avaliações e as descrições fornecidas aqui e, em seguida, decidam por si próprios se querem enviar artigos, atuar como editores ou em comitês editoriais.

Foi justamente considerando como ponto de partida o trabalho de Beall que, após a aplicação de critérios adicionais, e com a ajuda de pesquisadores brasileiros, publiquei em 2015 em meu blog anterior, no site da Folha de S. Paulo, a relação dos “Publishers ‘predatórios’ e seus periódicos no Qualis”.

Quando Beall desativou seu blog, circulou a versão de que ele estaria em negociações com a Cabell, que no início de 2015 já estava interessada em ter sua lista negra. Entrei em contato hoje com ele, que por e-mail me disse que não mantém nenhuma ligação com a Cabell, que nunca recebeu propostas  da empresa e nem sequer chegou a fazer consultorias para ela.

Beall afirmou também que não tem como opinar sobre a Cabell Blacklist, uma vez que a Universidade de Colorado em Denver, onde ele trabalha, não tem acesso a esse produto.

Será que a Capes tem interesse em contratar acesso a essa lista negra para a comunidade acadêmica brasileira por meio de seu Portal de Periódicos?

Na imagem acima, Imagem parcial da página de entrada do Journal Blacklist, da Cabell International.

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