Na surdina, governo indica que devastação no Cerrado superou a da Amazônia em 2015

Estrago foi na gestão Dilma, mas sua divulgação não é conveniente para o atual governo em meio à barganha por votos para impedir processo contra Temer no STF


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Apesar de os números do desmatamento no Cerrado serem esperados há mais de dez anos, e mesmo sem o estrago ter acontecido durante a gestão do governo do presidente Michel Temer (PMDB), os dados sobre a devastação desse bioma foram publicados pelo governo federal sem qualquer esforço de divulgação em uma página do site do Ministério do Meio Ambiente (MMA). A informação foi anunciada ontem pelo Observatório do Clima com a nota “Desmatamento do cerrado supera o da Amazônia, indica dado oficial”.

Calculado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o dado de 9.483 km 2 de vegetação nativa suprimida em 2015 corresponde a seis vezes a área do município de São Paulo e ultrapassa em 52% o corte raso na Floresta Amazônica brasileira no mesmo ano, como destacou a nota.

Não há muito a acrescentar, pelo menos por enquanto, a esse importante trabalho de divulgação feito pelo Observatório do Clima, que incluiu também declarações de Jair Schmitt, diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, Thelma Krug, pesquisadora do Inpe e ex-diretora do Departamento de Florestas e de Combate ao Desmatamento MMA, e Tiago Reis, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

O que vale destacar é a razão de essa informação esperada há tanto tempo não ter sido divulgada pelo governo, contrastando com a tradição de convidar a imprensa para entrevistas coletivas para anunciar as taxas anuais de desmatamento na Amazônia. Poderia, em princípio, ter sido uma boa oportunidade para o PMDB mostrar um estrago que aconteceu durante a gestão da presidente Dilma Rousseff (PT).

Só que não. Em meio à barganha para garantir o número máximo possível de votos na Câmara dos Deputados contra a autorização da abertura de processo criminal contra Temer, a informação até ontem inédita sobre a devastação no Cerrado é uma “verdade inconveniente” e prejudicial para o substitutivo do projeto de Lei Geral do Licenciamento Ambiental que está sendo tratorado pela bancada ruralista com o apoio do governo.

Superado em área apenas pela Floresta Amazônica, e ocupando cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados, que correspondem a cerca de 22% do território nacional, o Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil. E, assim como a Mata Atlântica, é um dos mais devastados e também um dos de maior diversidade biológica.

No entanto, o Cerrado tem sido tratado há muito tempo como uma espécie de matão sem nenhuma importância ambiental. Inclusive têm surgido “pesquisas” com a finalidade de provar que dá para desmatá-lo ainda mais. Mas isso será assunto para outra conversa. Em breve.

Na imagem acima, vereda, paisagem típica do bioma Cerrado, no Parque Estadual do Jalapão, no Tocantins. Foto: ICMBio/Divulgação.

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