Secretaria ambiental de SP planeja fusão de seus três institutos de pesquisa

Secretário Ricardo Salles quer criar o Instituto da Biodiversidade para promover sinergia entre os institutos Florestal, Geológico e de Botânica


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

O secretário estadual do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Ricardo Salles, tem um plano para os três órgãos de pesquisa de sua pasta. Ele planeja a fusão dos institutos de Botânica, Florestal e Geológico. A ideia, diz ele, é “promover uma sinergia” para priorizar investimentos na atividade fim de pesquisa e enxugar recursos nas atividades meio, que são as administrativas.

O plano de fusão prevê juntar os três institutos inclusive fisicamente. O local mais adequado, afirma o secretário, é a região do Instituto de Botânica (IBt), na capital paulista, ao lado da Rodovia dos Imigrantes, onde é possível reformar e aproveitar as antigas dependências administrativas da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado, cuja sede foi transferida para o centro da cidade.

Salles ressalta que os três institutos têm muita sobreposição em suas atividades, principalmente nas áreas administrativas, com as de recursos humanos, finanças e compras. Ele disse também que a maior parte dos orçamentos dos três órgãos se concentra em atividades administrativas, em vez de ir para a atividade-fim de pesquisa.

O secretário afirma também que a ideia da fusão, que está sendo estudada por sua equipe, foi reforçada nos últimos dias ao examinar as propostas dos três institutos para o edital de Planos de Desenvolvimento Institucional de Pesquisa, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que conta com recursos de R$ 120 milhões. (É aquela parte da dotação da Fapesp que foi suprimida na Lei Orçamentária, mas depois retornou, sob críticas, carimbada para os institutos. Confira em “Dinheiro tirado da Fapesp não ajudará institutos, diz associação de pesquisadores”.) 

Os recursos solicitados pelos três institutos para a Fapesp, diz Salles, mostram uma clara sobreposição. “As propostas apresentadas mostram que não trabalhar em conjunto é uma grande perda de sinergia”, afirma o secretário.

 

Resistências

Sobre a possibilidade de sua proposta encontrar resistências nos institutos, Salles disse que a resistência já diminuiu muito e que “há questões inafastáveis” a serem enfrentadas pelos três órgãos. Questionado sobre quais seriam essas questões, ele afirmou:

O estado de inércia em que eles [os três institutos] se encontram é bastante decorrente dessa falta de visão de que é preciso preciso prestigiar a atividade fim em detrimento dos recursos gastos com as atividades meios. Só que sem haver uma mudança estrutural nesse sentido, tudo  vai ficar só no discurso. Eu e o [secretário-adjunto da SMA Antonio] Velloso fizemos uma radiografia financeira dos institutos lá atrás, quando fomos tratar do orçamento para 2017, e estamos fazendo de novo agora, por ocasião da renovação dos orçamentos para 2018. Você vê que, salvo com esse tipo de mudança estrutural que dá, de fato, margem para um ganho substancial na parte administrativa, na parte de recursos humanos, não há muito o que fazer. A única coisa que se poderia fazer, numa hipótese que não existe neste momento de crise, é injetar um recurso do Tesouro [do Estado] substancialmente maior que o atual, e isso não vai acontecer.

Pesquisadores dos institutos procurados por Direto da Ciência não quiseram dar entrevista. Alguns deles afirmaram, sob condição de anonimato, que vêm a proposta de fusão com receio de prejuízos, sobretudo para a pesquisa.

Um dos pesquisadores que elaboraram projetos para o citado edital da Fapesp afirmou que a crise dos institutos está de fato relacionada ao modelo de estrutura administrativa, mas ressaltou que essa situação se deve principalmente ao

sucateamento progressivo dos institutos nas últimas décadas pro meio da redução constante dos recursos pelo governo do Estado e por não terem sido realizados suficientemente concursos para repor aposentadorias e servidores que deixaram seus empregos.

Também sob condição de anonimato, uma pesquisadora do Instituto de Botânica declarou que

a ideia de unificação é positiva, uma vez que, além de estarem sucateados, todos os 19 institutos de pesquisa do estado têm estruturas administrativas muito arcaicas e ineficientes e que seu corpo técnico é muito corporativista e resistente a mudanças. Mas, se a proposta for implementada, será muito grande o risco de se limitar a enxugar a máquina sem aumentar os recursos para pesquisa.

 

Opiniões de diretores

“A ideia de unificação está bastante avançada”, afirma Salles, acrescentando que já a apresentou a proposta aos diretores dos três institutos e também ao presidente da Fapesp, o físico José Goldemberg, que também comandou a SMA (2002-2006), segundo o secretário, “é um entusiasta da unificação”.

O secretário disse que Luiz Mauro Barbosa e Luiz Alberto Bucci, respectivamente diretores-gerais dos institutos de Botânica e Florestal, “já vislumbraram as vantagens” da proposta de fusão. E acrescentou que a diretora-geral do Geológico, Luciana Martin Rodrigues Ferreira, “está mais reticente” por que esse instituto enfrenta dificuldades desde a mudança em 2014 de sua sede administrativa. Nas palavras de Salles,

A Luciana, já conversei com ela sobre esse assunto. Ela está mais reticente. Aí tem o histórico do instituto quando eles foram para a Vila Mariana, o que os deixou mais desguarnecidos. Ali há uma sensibilidade maior por força dessa mudança.

Procurado pela reportagem, Luiz Mauro Barbosa, diretor do IBt, confirmou que vê boas perspectivas para a proposta de unificação, mas que é preciso avaliar cuidadosamente os riscos possíveis, como o de serem perdidos cargos, inclusive na atividade fim de pesquisa. “Alguma coisa é preciso fazer, pois está cada vez mais difícil a sustentabilidade institucional”, acrescentou. O IBt tem cerca de 380 funcionários, segundo os registros do Portal da Transparência do governo de São Paulo.

O diretor-geral do IF, Luiz Alberto Bucci, disse que reconhece as vantagens apontadas por Salles na fusão dos institutos, mas ainda não conhece profundamente a proposta. “Isolados, os três não têm vantagem nenhuma”, disse. O IF tem cerca de 700 funcionários, dos quais 230 lotados na Fundação Florestal, que administra quase todas as unidades de conservação do estado

Em contato por telefone no final da tarde de ontem (29), Luciana Martin Rodrigues Ferreira, diretora do IG, não respondeu às perguntas de Direto da Ciência, afirmando que na sexta-feira (28) recebeu ordem do gabinete da SMA para orientar a reportagem a encaminhar suas questões para ela somente por meio da assessoria de imprensa da secretaria.

Um pesquisador do IG, sob condição de anonimato, afirmou que a diretora-geral do instituto informou aos funcionários do órgão sobre as conversas que manteve com Salles a respeito da iniciativa de fusão e que, segundo ela, em junho o secretário teria lhe afirmado que estava com dúvidas sobre essa proposta. O instituto tem 95 funcionários ativos, segundo os registros do Portal da Transparência do governo estadual de São Paulo.

A reportagem não teve resposta do presidente da Fapesp, José Goldemberg, ao pedido de contato encaminhado por meio da assessoria de imprensa da fundação.

Sobre as críticas à proposta de fusão, o secretário Ricardo Salles afirmou que nos próximos dias começará a organizar, com os diretores dos três institutos, discussões em audiências com os pesquisadores.

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Na imagem acima, estufas que abrigam plantas típicas da Mata Atlântica e exposições temporárias no Jardim Botânico, do Instituto de Botânica da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo. Foto: Instituto de Botânica/Divulgação

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3 Comentários

  1. Fatima Anderson said:

    Realmente, os grandes beneficiários dessas mudanças serão os da iniciativa privada. A mudança dos institutos só prejudicará ainda mais o trabalho dos poucos servidores que ainda restam nas áreas. Devemos lembrar que existem alguns acervos nos institutos de pesquisa que não são móveis (ex.: Museu da Madeira) e que existem plantios em algumas áreas que apesar de algumas décadas de existência, ainda fazem parte da pesquisa.

  2. Antonio Luiz Teixeira said:

    É sempre assim. As “boas ideias”, que de novo nada têm, sempre voltam. Esta já era uma proposta do então secretário de meio ambiente, José Goldenberg, hoje na FAPESP. Foi rejeitada pela maioria dos funcionários das instituições envolvidas e, principalmente, pela diretoria do IG. Quando se proíbe o IG de aplicar seus recursos na melhoria de sua infraestrutura, inclusive recursos advindos da FINEP a quatro anos atrás, quando a possibilidade de concursos para o preenchimento de cargos vagos é barrada, os representantes do governo voltam com a balela da “sinergia” e outros chavões surrados com claro intuito da destruição do pouco que resta.
    Fomos expulsos da Água Funda pelo governo Alckmin, onde ocupávamos junto com a Secretaria da Agricultura área do Parque do Ipiranga que foi desafetada para a exploração da iniciativa privada, ao que consta nas mãos de franceses do Centro de Exposições.
    A duras penas conseguimos o prédio abandonado da Vila Mariana, pertencente a um antigo laboratório farmacêutico falido por dívidas trabalhistas e outras com os governos federais e estaduais, fazia mais de dez anos. Agora que o prédio se mostra em condições, ainda que precárias, de habitabilidade (e descontaminado) a suprema hierarquia novamente retoma “preocupadíssima” com o IG e seu futuro e, novamente, sua alternativa é agradar a especulação imobiliária.
    Espero, novamente, que a diretoria do IG não entregue os pontos e que não se poste sobre o muro, como parece acontecer com os diretores do IF e IBt.

  3. Brad Pitt said:

    Bom dia. O atual Secretário pode ser truculento e sem noção e até perigoso, mas todos os Institutos de Pesquisa do Governo do Estado precisam de um choque de gestão. Falo com conhecimento de causa pois sou funcionário administrativo de um dos Institutos de Pesquisa da SMA.

Comentários encerrados.

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