Negacionismo do clima e também do desenvolvimento sustentável

Professor da USP mistura ataques pessoais a pesquisadores com desinformação sobre o aquecimento global e políticas de conservação ambiental

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Muitos leitores vêm pedindo há algum tempo para eu comentar a atuação do climatologista Ricardo Augusto Felício, professor do Departamento de Geografia da USP, que tem sido o mais destacado entre brasileiros contestadores do aquecimento global. Esses pedidos aumentaram mais recentemente devido à polêmica entre ele e o biólogo e vlogueiro Pirula por meio de vídeos no YouTube.

Felício considera falsa não só a concepção predominante entre os estudiosos do clima de que o aquecimento global tem sido provocado desde o século 19 pela ação humana. Ele rejeita também as próprias estimativas que apontam o aumento da temperatura média anual do planeta desde 1880 e projetam a continuidade desse crescimento para os próximos anos.

O professor da USP concedeu entrevista a um youtuber com mais de 1,3 milhão de seguidores, que foi publicada em 2 de julho. A polêmica recente veio com o biólogo e youtuber divulgador de ciência Pirula, que criticou o climatologista no vídeo “Papo reto: Ricardo Felício e o Aquecimento Global”. Em 18 de julho, Felício publicou sua réplica naquele mesmo canal em que fora entrevistado. E Pirula voltou à carga seis dias depois com o vídeo “Pirula ‘passando vergonha’ – respondendo Ricardo Felício (de novo)”.

 

‘Low profile’

Apesar da ousadia com que Felício apresenta suas contestações, seu currículo na Plataforma Lattes mostra uma produção acadêmica extremamente acanhada para um pesquisador que se dispõe a contestar a teoria do aquecimento global antropogênico. Dos onze os artigos que constam em seu Lattes, oito deles foram publicados em uma única revista, o Fórum Ambiental da Alta Paulista, entre 2010 e 2013.

Não bastasse, em desabono de Felício, essa revista ter classificações baixíssimas na plataforma Qualis Periódicos, da Capes, para as áreas de Geografia (B4) e Ciências Ambientais (B5) – respectivamente equivalentes a 2 e 1 em uma escala de 0 a 7 –, o climatologista foi membro de seu conselho editorial de 2010 a 2014. Seu nome não aparece mais entre os integrantes do conselho no site da publicação, que até o ano passado indicava as composições anteriores da equipe. (Confira em página de 10/ago/2016 registrada pela Internet Wayback Machine.)

Curiosamente, o próprio Felício não registra em seu Lattes sua atuação no conselho editorial desse periódico.

 

Desqualificação e desinformação

Uma coisa é contestar meritoriamente uma teoria científica. Outra coisa é não só qualificar como farsantes e pseudocientistas todos os adeptos da concepção da origem antrópica do aquecimento global, mas também apelar deliberadamente para a confusão de conceitos e informações sobre o tema. E é isso o que Felício tem feito em apresentações, palestras e entrevistas.

Essa forma de atuação do climatologista é bem exemplificada em sua entrevista a Felipe Moura Brasil, em 11 de junho (“Aquecimento global é fraude”), no canal de O Antagonista, no YouTube. Já nessa entrevista o professor da USP afirmou, sem nenhum questionamento pelo jornalista, asneiras como a seguinte (ver a partir de 8min55s).

Eu acho uma coisa antinatural combater o CO2, porque se você tira o CO2 da atmosfera, se fosse possível, imaginar, remover o CO2 da atmosfera, você acaba com a vida no planeta Terra. Então você tem que ter, sim, o CO2 na atmosfera para os oceanos utilizarem o CO2, para as plantas utilizarem o CO2, para a gente ter comida.

Ora essa, quem teria cometido o desatino de querer eliminar o gás carbônico da atmosfera terrestre? Desde quando essa estultice é uma das propostas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC)? Na verdade, tal acusação descabida é apenas uma entre tantas outras alegações que Felício tem usado em suas palestras para ridicularizar a concepção predominante entre estudiosos do clima em todo o mundo.

 

Advertência e retratação

A própria direção da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH), à qual está vinculado o Departamento de Geografia, já se posicionou contra essa forma de Felício atuar na divulgação de suas críticas ao aquecimento global antropogênico.

Em abril de 2013, em ofício aos pesquisadores José Antonio Marengo Orsini, do Centro de Monitoramento de Desastres e Acidentes Naturais (Cemaden), Philip Martin Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Ulisses Eugenio Cavalcanti Confalonieri, da a Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), a direção da faculdade se posicionou contra Felício por ter se referido aos três pesquisadores como pseudocientistas, além de ter feito outras ofensas no ano anterior na palestra “Os fatos da farsa do aquecimento global”. Segue transcrição parcial dessa correspondência.

Lamentamos profundamente os fatos ocorridos. Desde sua criação, a FFLCH/USP acolhe divergências de distinta natureza – científica, política, académica – entre seus corpos docente, discente e administrativo. Não obstante, é consenso de que as divergências jamais devem ultrapassar os limites éticos e o respeito mútuo. Comportamentos , como o relatado, além de agredirem a dignidade de respeitados pesquisadores, não contribuem sob qualquer hipótese para o avanço dos debates sobre o aquecimento global.

Através da Chefia do Departamento de Geografia, solicitamos que o docente fosse advertido de seu comportamento impróprio e que se buscasse se retratar junto a Vossas Senhorias.

Peço-lhe, em nome desta faculdade, imensas desculpas, cuidarei para que fatos desta ordem não se repitam.

Da mesma forma como não consta que os três destinatários tenham recebido qualquer pedido de retratação, Felício não deixou de apelar para ataques pessoais por meio de desqualificações.

 

Tese fracassada

A USP pode ter bobeado com o a continuidade dos ataques pessoais por parte de Felício, mas pelo menos não compactuou com as distorções em sua produção acadêmica sobre o aquecimento global. Sua tese de livre-docência “A geografia da Antártida e uma avaliação climatológica decadal dos ciclones extratropicais ocorridos no setor da península Antártica em verões e invernos” foi reprovada em julho de 2014.

De acordo com o relatório final da comissão julgadora, a redação da tese, “como um todo”, apresenta

alguns problemas que acabam por dificultar o entendimento do conjunto da pesquisa face a uma apresentação analítica descritiva extremamente detalhada e ao mesmo tempo prolixa, faltando conclusões parciais para cada um dos elementos climáticos analisados e em cada uma das três metodologias empregadas, conclusões parciais de síntese que permitiriam na conclusão final uma posição mais clara e objetiva dos resultados alcançados. Em síntese o trabalho de pesquisa foi extremamente bem executado, exaustivamente descrito e demonstrado, mas apresentou deficiência de clareza na formulação das questões/hipóteses que motivaram a pesquisa e consequentemente clareza nas conclusões finais.

 

Antiambientalismo

De minha parte, entendo que toda teoria científica pode e deve ser questionada, por mais hegemônico e esmagador que seja o contingente de seus adeptos em sua respectiva área de estudos. Sinto calafrios sempre que me deparo com o argumento, que é muito comum até mesmo entre cientistas, de que uma teoria é “provada cientificamente”.

(Na verdade, o que se entende por comprovação científica de uma teoria nada mais é do que sua corroboração por meio de sucessivas confirmações de suas previsões em aplicações ou experimentos.  No entanto, se uma previsão da teoria não é confirmada, ela pode ser refutada. Mas isso é assunto para outra conversa.)

No entanto, uma coisa é contestar meritoriamente uma teoria científica. Outra coisa é não só qualificar como farsantes e pseudocientistas todos os adeptos da concepção da origem antrópica do aquecimento global, mas também apelar deliberadamente para a confusão dos conceitos e informações sobre o tema, como o professor da USP tem feito em apresentações, palestras e entrevistas.

Além disso, a desinformação perpetrada por Felício vai muito além de confundir informações sobre o aquecimento global antropogênico. Na verdade, ele tem misturado suas críticas a essa teoria com distorções da própria noção de desenvolvimento sustentável, posicionando-se também contra outras medidas preventivas da degradação ambiental.

Um dos vários exemplos no YouTube de palestras de Felício com esse posicionamento misturado à sua negação do aquecimento global é sua apresentação em 2011 em Santiago (RS), organizada pelo Conselho Municipal de Proteção do Meio Ambiente da cidade e pelo Sindicato Rural de Santiago, Unistalda e Capão do Cipó. Nessa ocasião ele afirmou que o desenvolvimento sustentável é calcado em três grandes problemas, que seriam o “caos ambiental”, o aquecimento global e as mudanças climáticas. (Confira no vídeo da palestra.)

Na verdade, em sua formulação original por meio do relatório “Nosso Futuro Comum”, das Nações Unidas, em dezembro de 1987, o conceito de desenvolvimento sustentável nem sequer tinha em seu foco principal o aquecimento global, definindo-o como “o desenvolvimento que encontra as necessidades atuais sem comprometer a habilidade das futuras gerações de atender suas próprias necessidades”, e também como “processo de mudança no qual a exploração dos recursos, o direcionamento dos investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional estão em harmonia e reforçam o atual e futuro potencial para satisfazer as aspirações e necessidades humanas”.

Para o professor da USP, no entanto, o mundo não precisa de nada disso. Na palestra de 2011 acima citada ele afirmou:

A gente [ele e seu grupo de pesquisa] também não concorda com o desenvolvimento sustentável e outras formas de apropriação da natureza. A gente simplesmente gosta de dizer que a gente prega a  conservação da vida por si só, não imaginando que isso é um banco de recursos para o futuro – isso é um verdadeiro absurdo.

 

‘Teoria’ da conspiração

A desinformação com propósitos ambientalistas não se restringe a bobagens como essa, mas também a interpretações conspiratórias.

Para Felício, a teoria de que os CFCs provocaram o buraco na camada de ozônio foi inventada porque as patentes desses gases iam caducar e para evitar que Índia e outros países emergentes deixassem de pagar royalties para indústrias dos países mais ricos, como afirmou ele em uma palestra proferida em junho de 2015 para o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira. A entidade foi fundada em dezembro de 2006 por saudosistas do líder católico ultraconservador Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995), fundador em 1960 da Sociedade Brasileira de Defesa de Tradição, Família e Propriedade (TFP).

Desse modo, em atenção aos pedidos de leitores de Direto da Ciência, em face da tortuosa forma com que Felício apresenta suas críticas ao aquecimento global antrópico e principalmente após esforços louváveis de análise, como o de Pirula em seu meticuloso e já citado vídeo “Papo reto: Ricardo Felício e o Aquecimento Global”, o do físico Alexandre Costa, da Universidade Federal do Ceará, também no YouTube, e o de Philip Martin Fearnside na série de artigos “Céticos do clima no Brasil”, no site Amazônia Real, esclareço que prefiro acrescentar as informações de contextualização deste artigo e entendo não valer a pena gastar mais tempo analisando críticas propaladas por esse negacionista do clima.

Felício não é nenhum tolo, mas a ele se aplica o que sabiamente considerou o pensador verdadeiramente cético Michel de Montaigne (1533-1592) ao afirmar em seus Ensaios

É impossível discutir de boa-fé com um tolo. Não só meu julgamento se corrompe à mão de um dono tão impetuoso, mas também minha consciência.*

Bom domingo a todos.

*”Il est impossible de traiter de bonne foy avec un sot. Mon jugement ne se corrompt pas seulement à la main d’un maître si impetueux: mais aussi ma conscience.”
(Michel de Montaigne, Essais, Livro III, capítulo VIII, Éditions Gallimard, Paris, 1965, p. 189)
Os trechos em verde foram são correções gramaticais ou alterações se mudança de conteúdo feitas às 14h05.
Na imagem acima, apresentação em junho de 2015 feita pelo climatologista Ricardo Augusto Felício, organizada pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira. Foto capturada de vídeo no YouTube/reprodução.

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12 Comentários

  1. Fernando M said:

    Como faço para saber se em 2012 ele foi financiado por extrativistas para ir na Globo alegar que dava pra desmatar a floresta amazônica inteira? Aparentemente o Governo adotou a ideia e vendeu a madeira da amazônia pra exportação. Você vê nos mapas como está cheio de “reserva extrativista” que foram usadas como política pra estabilizar a economia nacional. Quem são os donos de todas essas terras? Uma hora a madeira acaba e todo ecossistema que tava la fazendo a floresta ser o que ela era, não fara ela ser novamente. A amazônia vira uma grande fazenda de eucaliptos.

  2. Flávio Mello said:

    O fato é que uma questão tão séria virou uma bandeira assim como o ambientalismo, aparelhada ideologicamente com direito a desinformação e a perseguição de céticos, confirmando que para parte da academia, a única possibilidade é um “consenso cientifico” seja lá o que isso for, pois traduz uma condição em que se encerra a investigação e o aquecimento global passa a ser um dogma que nã pode ser contestado.

    Este artigo presta um desserviço a todos e em especial ao distinto publico que a cada dia vê com mais suspeição consensos politicamente corretos e busca fontes alternativas igualmente relevantes,como por exemplo Patrick Moore e seu depoimento sobre a questão e atuação da Nasa e IPCC por exemplo: https://www.youtube.com/watch?v=eEMnSlzfWxw

  3. Dimas said:

    Pseudo-cientista fracassado, visto que não consegue publicar nada relevante e até mesmo seu doutorado foi fraco. Um zé ninguém científico, incapaz de publicar seus estudos em um periódico relevante, desmerecendo cientistas de verdade, e promovendo a desinformação. Parece buscar visibilidade com polemica uma vez que como cientista é um total desconhecido. Que papelão.

  4. Pingback: Alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias – Meteorópole

  5. Pingback: Mais uma vítima da miopia atual: pensamento crítico ambientalista | geovest

  6. Pedro Augusto de Américo Brasiliense said:

    Ricardo de Felício, Marcos N. Eberlin, Enézio E. de Almeida Filho et caterva: tudo farinha do mesmo saco. Um bando de desonestos intelectuais. Inconcebível constatar que existem membros da comunidade científica que acreditam nesses farsantes.

  7. julio ottoboni said:

    Tuffani, ele promove ataques pessoais a qualquer cientista ( inclusive ex orientadores dele no mestrado do Inpe), como se diz alvo de inúmeros processos. Quanto as cientistas que ele ataca, conheço pessoalmente vários, e realmente se preocupam e se ocupam com ciência e com vastos trabalhos científicos publicados em periódicos reconhecidos internacionalmente. Aos processos, vale investigar se o professor da Usp andou prestando conta dos valores recebidos de financiamentos de suas pesquisas e outros esperneios na própria universidade. Em tempo, o especialista em Antártica só esteve uma vez no local…. Ele que diz desmascarar os ‘farsantes’, merece uma apuração sobre conduta e quais são seus reais interesses. Um deles já posso adiantar: publicidade !

  8. Edmilson said:

    “A prova cabal de que o mar não vai subir, é que continuam fazendo prédios de bilhões e bilhões de dólares em Dubai.”
    Felício, Ricardo

  9. Rodrigo Janot said:

    O problema começa quando uma das partes envolve ideologia política no meio de um assunto relacionado ao clima.

  10. Rodrigo said:

    Infelizmente esse tipo de postura influencia negativamente pessoas leigas, as quais são levadas a acreditarem em coisas que não são corretas, coisas sem fundamentos teóricos e práticos plausíveis, que estão “de acordo com suas próprias convicções ou necessidades”. Coisas mirabolantes relacionadas a sistemas complexos (como o climático e a saúde), que não são tangíveis à compreensão dos leigos, estão em alta justamente pela falta de compreensão do todo e como já citei, das convicções e necessidades prévias individuais. Muitos acreditam que órgãos governamentais mentem sobre tudo (de fato, há muitas mentiras, especialmente em coisas relacionadas ao mundo militar e de segurança interna) e isso gera desconfiança em todo e qualquer assunto, inclusive científicos, propiciando o surgimento dessa horda de negacionistas (inclusive de pessoas de má-fé).

Comentários encerrados.

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