Divulgação institucional não é divulgação científica

Sem preservação de seus limites, atividades de comunicação de universidades e de institutos de pesquisa são prejudicadas


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

O chefe da assessoria de comunicação de uma universidade pública situada fora do estado de São Paulo telefonou para mim nesta terça-feira pela manhã para reclamar que o Boletim de Notícias publicado diariamente por Direto da Ciência “tem privilegiado a USP e menosprezado outras importantes universidades públicas”. E questionou meu critério para proceder dessa forma. Na medida em que essa pessoa disse estar fazendo o contato sem aval de seus superiores, “apenas para ajudar a aperfeiçoar a divulgação científica” deste site, seu nome será mantido em sigilo e a ele me referirei como Assessor.

Em primeiro lugar, um esclarecimento. Este site não faz divulgação científica. Seu objetivo não é divulgar as novidades científicas que já são veiculadas pela imprensa em geral. O foco editorial de Direto da Ciência está nas decisões políticas, nos bastidores, nos conflitos internos e em temas de interesse público que em geral permanecem em nível restrito nos círculos acadêmicos e nos meios governamental e não governamental nas áreas de ciência e cultura, meio ambiente e ensino superior.

O Boletim de Notícias não faz divulgação científica. É apenas uma coletânea matinal dos títulos e respectivos links de reportagens, artigos e outros textos publicados desde a edição anterior sobre ciência, meio ambiente e ensino superior. É um subproduto de meu trabalho, o qual envolve a leitura – ainda que em alguns casos “na diagonal” – do que foi publicado nessas áreas desde o dia anterior, ou desde o final de semana no caso das segundas-feiras. É um subproduto compartilhado com as pessoas que lêem Direto da Ciência.

 

Público-alvo

O Assessor me solicitou a navegar durante nossa conversa telefônica no site de sua instituição. E deu exemplos de algumas notas publicadas nos últimos dias, afirmando que todas elas mereceriam ter sido indicadas no Boletim de Notícias. Expliquei para ele que alguns dos referidos textos são, na verdade, direcionados para o público interno de sua universidade, ao passo que outros se referiam a palestras e conferências com vagas limitadas e sem transmissão pela internet.

Nessa explicação, ao acrescentar para o Assessor que meu principal critério para seleção de notas é o de elas terem como tema a divulgação científica, percebi pela velocidade e pela ênfase de sua resposta e pela que ele já esperava por esse argumento. “Se isso fosse verdade você aproveitaria nossos podcasts e vídeos com entrevistas de professores sobre temas científicas”, sacou ele exultante.

Expliquei, então, que tenho privilegiado matérias em textos, pois não tenho tempo para ouvir áudios nem para assistir vídeos. E que eu não conseguiria realizar meu trabalho se eu me dedicasse a apreciar esse tipo de conteúdos.

 

Aviso aos Magníficos

Mas o que deixou o Assessor particularmente contrariado foi eu ter afirmado que grande parte – e eu não disse tudo – do que é chamado de atividade divulgação científica de muitas – e eu não disse todas – universidades e de instituições de pesquisa consiste, na verdade, em um trabalho de divulgação institucional e de relações públicas.

Mais que isso, eu disse também para o Assessor que o foco em RP muitas vezes contamina e prejudica o próprio trabalho de divulgação científica. E, aproveitando a visita ao site de sua universidade, mostrei para ele uma reportagem sobre um laboratório cujo título e primeiro parágrafo destacava a presença do reitor em uma cerimônia.

Tive a oportunidade de dizer isso diretamente para dezenas de reitores, vice-reitores e pró-reitores em outubro de 2009, em uma apresentação durante o 45º Fórum de Reitores da Associação Brasileira de Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (Abruem), em Manaus. Na época eu era assessor-chefe de comunicação e imprensa da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Onde, diga-se de passagem, não tive de enfrentar com os reitores Marcos Macari (2005-2008) e Herman Voorwald (2009-2010) problemas como os que apontei nessa apresentação.

Fui escolhido por colegas assessores de outras instituições para dizer nessa apresentação que muitas vezes a origem dos problemas para promover a divulgação da produção acadêmica estava justamente em Suas Magnificências. Dizendo melhor, estava no fato de que muitas das assessorias trabalhavam de modo a destacar o trabalho dos dirigentes das universidades, ainda que em matérias sobre divulgação científica ou outros assuntos.

Expliquei para os Magníficos que reportagens com títulos e lides do tipo “Reitor inaugura laboratório”, “Pró-reitora abre conferência” podem ser agradáveis para a cúpula de suas universidades, mas não para o público interno dessas instituições e, muito menos, para o público externo que paga os impostos que custeiam a pesquisa e o ensino superior públicos.

Nessa mesma apresentação expliquei também que imagens de laboratórios e de atividades de pesquisa em páginas impressas ou na internet de veículos  de comunicação de universidades são mais atrativas para o público em geral do que as sequências monotemáticas de fotos de autoridades em cerimônias ou de pessoas atrás de mesas com microfones.

Ou seja, o problema não se restringe à confusão entre as divulgações científica e institucional. A distorção acaba prejudicando até mesmo a eficiência comunicacional, independentemente do objetivo.

Finalizando, e voltando ao assunto do Assessor, a conversa com ele terminou rapidamente após eu explicar para minha maior dificuldade para acompanhar a divulgação de universidades e institutos de pesquisa é não ter tempo para ir atrás de informações que muitas dessas próprias instituições poderiam enviar para mim.

 

Marketing institucional

Há cerca de três anos abordei este mesmo tema, no blog que eu então mantinha no site da Folha de S.Paulo, com o post “Centros de pesquisa fazem divulgação científica ou relações públicas?”.  Nesse texto comentei um artigo então recém-publicado no periódico Journal of Science Communication (JCOM).

Escrito por Rebecca Bru Carver, assessora de comunicação do Instituto Norueguês de Saúde Pública, o artigo questiona se as notícias produzidas por institutos de pesquisa para o público em geral têm como objetivo principal divulgar a ciência ou fazer o marketing dessas instituições, servindo ao seu trabalho de captação de recursos ou de promoção de imagem em sua disputa por prestígio. Segue transcrição de parte desse estudo.

“Há uma competição crescente entre institutos e universidades mantidas com recursos públicos para atrair funcionários, estudantes, financiamentos e parceiros para a investigação científica. Como resultado, houve maior ênfase em atividades de divulgação científica em institutos de pesquisa ao longo da última década. Mas essas instituições estão comunicando a ciência simplesmente para melhorar sua imagem? Neste conjunto de comentários, exploramos a relação entre as atividades de comunicação científica e relações públicas (RP), numa tentativa de esclarecer o que os institutos de pesquisa estão realmente fazendo. A opinião geral dos autores é que atividades de divulgação científica são quase sempre uma forma de RP. O press release ainda é a ferramenta de comunicação de ciência e RP mais popular. Há, porém, divergências sobre a utilidade do press release e se é realmente bom para a ciência ele ganhar ou não a atenção do público.”

 

Limites

É razoável que órgãos de comunicação de instituições de pesquisa e ensino superior também atuem na  divulgação institucional. Há bons exemplos de trabalhos nessa atividade profissional, que, no entanto, é distorcida quando profissionais de comunicação – principalmente jornalistas – ou dirigentes dessas instituições perdem a noção dos limites de o que é divulgação científica e o que é divulgação institucional. Escrevi a respeito dessa questão em um estudo que escrevi em 2009, “Jornalismo científico e mudanças conjunturais da comunicação”.

No final das contas, o telefonema do Assessor abordou um tema que importa não só para as universidades e institutos de pesquisa, mas para toda a sociedade. Inclusive porque grande parte do que chamamos de imprensa – e eu não disse toda a imprensa – muitas vezes simplesmente copia e cola o material de divulgação que recebe dessas instituições, renunciando à obrigação profissional jornalística de verificar as informações que recebem.

Na imagem acima, reunião de reitores de universidades estaduais e municipais na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em Brasília, em 2014. Foto: ACS/Capes/Divulgação.

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6 Comentários

  1. Pedro Augusto de Américo Brasiliense said:

    Caro Maurício,
    Além de ser um ótimo texto, e uma discussão muito pertinente, eu acrescentaria que atualmente muitas universidades, senão a maioria, dá mais importância às atividades meio do que às atividades fim. Ao destacar a atuação de seus dirigentes em vez de professores e pesquisadores, a atividade meio (administrativa) ganha tudo, e a atividade fim muito pouco. A tal ponto que hoje muitos jovens professores/pesquisadores de universidades brasileiras têm um sonho: de se tornar grandes gestores. Pergunte aos grandes pesquisadores das universidades estrangeiras se têm esse sonho.
    Enfim, ao relegar as atividades fim a segundo plano, e valorizando mais RP do que DC, as universidades cometem um verdadeiro suicídio: porque acreditam que as ações de reitores irão atrair melhores alunos?
    Se o tal assessor e outros estão insatisfeitos com o conteúdo do “Direto da Ciência”, que contratem um profissional para divulgar suas instituições com a sua competência, Maurício. É essa a resposta que eu teria dado. Afinal, eles estão fazendo crowdfunding para manter suas instituições, como você faz campanha para angariar assinantes?
    Sinceramente, esses ASPONEs deveriam ter o mínimo de simancol e não encher o saco de quem está fazendo um trabalho sério. Que trabalhem para suas instituições eles mesmo, ora essa!

  2. Pingback: C&T 170 – Jornal Pensar a Educação em Pauta

  3. Simone P de Figueiredo said:

    Muito bom o texto, Tuffani. Temos dito muito isso em nossas aulas.

  4. Juliane Duarte Camara said:

    Existe diferença entre comunicação institucional e divulgação científica, mas, também existe complementaridade entre elas.
    No entanto, percebi que o texto acaba reduzindo a atividade de Relações Públicas a meros press releases ou divulgação das autoridades, enquanto na verdade, as instituições que levam a área de Relações Públicas a sério estão buscando neste profissional a articulação e a coesão das estratégias de comunicação, sempre focando no melhor equilíbrio entre a percepção do público (dos públicos, na verdade) e àquilo que a Instituição quer comunicar.
    Infelizmente, as universidades (e muitas empresas também) ficaram por muito tempo focadas em divulgar as estruturas universitárias e suas autoridades (ainda vemos isso), embora muitas dessas “divulgações institucionais” e “assessorias de imprensa” fossem conduzidas por jornalistas.
    Assim como “jornalismo” não abarca toda a complexidade das atividades jornalísticas, gêneros jornalísticos e campo de atuação; “relações públicas” também não deve ser reduzida ao envio de press releases ou a “marketing institucional”.
    O ponto é que os heads dessas instituições precisam refletir sobre os modelos de comunicação adotados institucionalmente e criar diretrizes para uma comunicação mais próxima da sociedade. Muitas vezes, as áreas de comunicação têm características operacionais e pouco prestígio e isso diz respeito à diretrizes e políticas institucionais (ou à falta delas) e não à área de formação e campo profissional do comunicador.
    Uni-vos (Jornalistas, RPs e quem mais estiver bem intencionado) para termos sucesso no grande desafio de abrir as estruturas universitárias e suas produções para que a sociedade participe, entenda, se beneficie, se orgulhe e legitime nossas universidades e centros de pesquisas públicos. (Juliane Duarte Camara, é Relações Públicas e Assessora de Comunicação Institucional do ICB-USP).

    • Maurício Tuffani said:

      Cara Juliane, meu artigo não se refere à discussão sobre o que seria de competência de jornalistas e de RPs. Por favor, “inclua-me fora” da questão da “área de formação e campo profissional do comunicador” à qual você se refere em seu comentário. A diferença em pauta é entre divulgação institucional e divulgação científica, sejam elas feitas por jornalistas, RPs ou até mesmo por pesquisadores.
      E repare, por favor, que na frase anterior à que transcrevo a seguir eu me referi genericamente à atividade de comunicação.

      Há bons exemplos de trabalhos nessa atividade profissional, que, no entanto, é distorcida quando profissionais de comunicação – principalmente jornalistas – ou dirigentes dessas instituições perdem a noção dos limites de o que é divulgação científica e o que é divulgação institucional.

      • Juliane Duarte Camara said:

        Olá Maurício,
        Conheço seu trabalho e sei de toda sua importante contribuição para aproximação do jornalismo e da ciência. Certamente, não é meu objetivo discutir sobre as competências do campo profissional de RP e Jornalista, por exemplo. Tanto que termino meu comentário enfatizando a questão do trabalho multidisciplinar e integrado.
        Mas, foi preciso abordar a questão profissional para desmistificar a visão reducionista em que, por vezes, o termo “RP” é empregado: como ferramenta/prática de comunicação ao invés de abarcar toda a complexidade inerente a uma profissão que tem diferentes campos de atuação. Em seu texto, a visão negativa de RP e o entendimento do termo como ferramenta (em detrimento a uma profissão) fica mais evidente em dois trechos:
        1) “Mais que isso, eu disse também para o Assessor que o foco em RP muitas vezes contamina e prejudica o próprio trabalho de divulgação científica”.
        2) ” …A opinião geral dos autores é que atividades de divulgação científica são quase sempre uma forma de RP. O press release ainda é a ferramenta de comunicação de ciência e RP mais popular… ”
        Na verdade, assim como você, acredito que a comunicação das universidades não deva enaltecer autoridades e estruturas universitárias, mas sim, deva pautar temas de interesse público e buscar a aproximação com a sociedade. Talvez, por isso eu tenha ficado ligeiramente ofendida com o uso da expressão “RP” naquele contexto (risos).

Comentários encerrados.

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