Temer mascara na ONU retrocessos ambientais de seu governo

Discurso do presidente se apoia em retórica genérica para causar impressão positiva nas Nações Unidas


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Em seu discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nesta terça-feira, o presidente Michel Temer creditou a seu governo avanços na proteção do meio ambiente que não correspondem à realidade. A começar por ele ter afirmado que “retomamos o bom caminho” no combate ao desmatamento, apesar ele ter reduzido a proteção de unidades de conservação, entre elas a Floresta Nacional de Jamanxin, subsidiando ocupações ilegais de produtores rurais grileiros em mais de R$ 600 milhões.

Transcrevo a seguir a parte do discurso em que Temer tratou sobre esses assuntos.

Em todas as frentes, o Brasil procura dar sua contribuição para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Contribuição que, necessariamente, inclui o combate à mudança do clima. Seguiremos empenhados na defesa do Acordo de Paris. No ano passado, aqui mesmo em Nova York, depositei o instrumento de ratificação do Acordo pelo Brasil. Essa é matéria que não comporta adiamentos. Há que agir já.
Meu país – e é com satisfação que o digo – está na vanguarda do movimento em direção a uma economia de baixo carbono. A energia limpa e renovável no Brasil representa mais de 40% de nossa matriz energética: três vezes a média mundial. Somos líderes em energia hídrica e em bioenergia.
O Brasil, senhoras e senhores, orgulha-se de ter a maior cobertura de florestas tropicais do planeta. O desmatamento é questão que nos preocupa, especialmente na Amazônia. Nessa questão temos concentrado atenção e recursos. Pois trago a boa notícia de que os primeiros dados disponíveis para o último ano já indicam a diminuição de mais de 20% do desmatamento naquela região. Retomamos o bom caminho e nesse caminho persistiremos.
Discurso do Presidente da República, Michel Temer, na Abertura do Debate Geral da 72º Sessão da Assembleia Geral da ONU

Nenhuma menção, é claro, ao desastrado decreto de extinção da Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca), gerador de um imbróglio que levou o governo às raias do ridículo.

Mal o presidente terminou sua fala, surgiram as primeiras reações. Seguem as avaliações de três especialistas em meio ambiente.

André Ferretti, gerente na Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, coordenador-geral do Observatório do Clima e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza:

Ao afirmar que o Brasil deve se preocupar em desenvolver uma economia de baixo carbono e com a proteção da cobertura de florestas, o presidente Temer oculta as recentes atividades realizadas por seu governo. Nossas florestas e áreas protegidas nunca foram tão ameaçadas como nos últimos meses, seja por Medidas Provisórias que propõem a redução de unidades de conservação, seja por decretos que permitem atividades de mineração em plena floresta amazônica. Essas ações, que atendem ao interesse de uma minoria que detém poder no Congresso, põem em risco justamente o que se diz ser a maior riqueza do Brasil – o agronegócio. São exatamente os produtores rurais que necessitam dos serviços prestados por áreas naturais preservadas. Não se pode ignorar também a questão de segurança da sociedade, diante dos recentes eventos climáticos extremos. A melhor maneira de amenizar seus danos é por meio de de proteção e do restauro de ecossistemas. E a conduta de Temer não parece estar alinhada com seu discurso.

Maurício Voivodic, secretário-executivo do WWF Brasil:

O Brasil é o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, e as últimas medidas propostas ou sancionadas pelo presidente Temer não contribuem para mudar esse cenário. Muito pelo contrário, colocam o país e o mundo em risco. Os dados oficiais produzidos pelo Inpe apontam que no ano de 2016 tivemos a maior alta do corte raso na Amazônia desde 2008 – perdemos quase 8.000 quilômetros quadrados de floresta – e boa parte em Unidades de Conservação. Além disso, estamos perdendo cobertura nativa no cerrado a uma velocidade tremenda: foram 9.483 quilômetros quadrados de vegetação desmatada em 2015. Isso equivale a mais de seis cidades de São Paulo e supera em 52% a devastação na Amazônia no mesmo ano. O que espera do governo brasileiro é uma política pública estruturada de combate ao desmatamento, na Amazônia e em todo país, dialogada com a sociedade.

Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima:

Como todos imaginavam, o presidente Michel Temer tentou passar aos líderes mundiais uma imagem do Brasil sobre meio ambiente e mudanças climáticas que só se sustenta em páginas de discursos. Ele escondeu as altíssimas taxas de desmatamento, os números absurdos de incêndios florestais em todas as regiões do país e a escalada de violência contra povos indígenas e lideranças comunitárias, batendo recordes de assassinatos, que são resultado direto da destruição da agenda socioambiental do país em troca de votos da bancada ruralista. Retrocessos que só podem ser comparados aos promovidos pelo governo de Donald Trump nos EUA.

Não é a primeira vez que Temer apela ao Acordo de Paris para amenizar a imagem negativa que seu governo, desgastado sob acusações de corrupção acumula também na área ambiental.  Em 5 de junho, em evento comemorativo do Dia Mundial do Meio Ambiente, no Palácio do Planalto, o presidente assinou o decreto de promulgação do Acordo de Paris sobre o Clima, cuja ratificação já havia sido encaminhada sua ratificação para as Nações Unidas em 21 setembro do ano passado. No mesmo dia, seis ex-ministros do Meio Ambiente pediam o veto às duas medidas provisórias que reduziram a proteção de unidades de conservação.

Leia também: “Temer desengaveta ‘agenda positiva’ para evitar críticas no Dia Mundial do Ambiente”.

Na imagem acima, o presidente Michel Temer faz o discurso de abertura da 72ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Foto: Beto Barata/PR.

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