Sob críticas, periódico defende publicação de artigo a favor do colonialismo

Após nota do Third World Quarterly anunciar decisão de manter texto publicado, 15 membros do seu comitê editorial se demitiram


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Mesmo após membros do próprio comitê editorial do conceituado periódico de política internacional Third World Quarterly (TWQ) exigirem a retratação de um artigo que afirmou que o colonialismo ocidental foi “benéfico” e “pode ser recuperado em Estados fracos e frágeis”, o editor-chefe da revista defendeu na segunda-feira (18) a publicação do trabalho. No dia seguinte, 15 integrantes do comitê editorial se desligaram do periódico.

Na manhã desta quinta-feira (21) já contava com cerca de 10,5 mil adesões um abaixo-assinado na internet pela retratação do artigo “The case of colonialism”, de autoria do jornalista e cientista político Bruce Gilley, da Universidade Estadual de Portland, no estado de Oregon (EUA).

De acordo com o manifesto, o texto de Gilley, que é Ph.D. pela Universidade Princeton, é deficiente de evidência empírica e possui imprecisões históricas e “falácias desprezíveis”, além de desconsiderar a literatura existente sobre o assunto.

 

Herança colonial

No Brasil, a principal repercussão do polêmico ensaio no TWQ aconteceu no domingo (17) na coluna de Marcelo Leite, na Folha de S.Paulo (“Por que um periódico científico aceita um artigo moralmente impalatável?”). O jornalista destacou o seguinte trecho do texto de Gilley.

Nos últimos cem anos, o colonialismo ocidental gozou de má fama. É chegada a hora de questionar essa ortodoxia. O colonialismo ocidental, como regra geral, foi tanto objetivamente benéfico quanto subjetivamente legítimo na maioria dos lugares em que se encontrou [sic], usando-se medidas realistas desses conceitos. Os países que abraçaram sua herança colonial, de maneira geral, se saíram melhor do que aqueles que o repudiaram.
A ideologia anticolonial impôs graves danos aos povos sujeitados e continua a tolher o desenvolvimento sustentado e um encontro frutífero com a modernidade em muitos lugares. O colonialismo pode ser recuperado em Estados fracos e frágeis, hoje, de três maneiras: recuperando modos coloniais de governança; recolonizando algumas áreas; e criando novas colônias ocidentais do zero.

 

Resposta e demissão

Na segunda-feira, o abaixo-assinado já contava com mais de 8 mil adesões. Nesse dia, em nota de resposta às críticas, o editor-chefe Shahid Qadir afirmou que o TWQ é revisado por pares e tem objetivos e escopo que estabelecem que o periódico “examina todos os problemas que afetam os muitos Terceiros Mundos e não é contrário à publicação de artigos provocativos e exploratórios”. E acrescentou:

Ao publicar este artigo, não estamos endossando suas visões pró-coloniais, como seria o mesmo para qualquer peça da [seção] Viewpoint. Contudo, nós o apresentamos para ser debatido em seu campo e na academia, o que tem sido [feito] justificadamente.

Na terça-feira, em seu perfil no Facebook, o historiador Vijay Prashad, professor de estudos internacionais do Trinity College, em Connecticut (EUA), divulgou a carta com sua demissão e de outros 14 integrantes do comitê editorial do TWQ, que afirmaram terem sido informados por correspondência com um dos revisores que o artigo de Gilley havia sido rejeitado no processo de avaliação. E acrescentaram:

Assim, está estabelecido o fato de que isso [o artigo] não passou na revisão por pares, uma vez que temos documentação de que ele foi rejeitado por três revisores.

 

Dados desconsiderados

Também na terça-feira, sem saber da demissão de Prashad e seus colegas do comitê editorial, o repórter Brandon Kendhammer, no jornal The Washington Post, apontou que o trabalho de Gilley desconsidera “estudos cuidadosos” sobre os investimentos de governos coloniais em serviços públicos e infraestrutura, como hospitais, estradas de ferro, estradas e escolas em suas colônias.

A reportagem do Washington Post “A controversial article praises colonialism. But colonialism’s real legacy was ugly” destacou o livro “The African Colonial State in Comparative Perspective”, de 1994, do cientista político Crawford Young. A obra, segundo o repórter, mostra com abundância de dados conclusões como a de que em colônias africanas

os encargos fiscais para os pequenos agricultores, trabalhadores e outros assuntos coloniais ultrapassaram em muito os investimentos recíprocos em bens públicos, enquanto a maior parte do dinheiro foi alocada para a manutenção do governo colonial.

O site Retraction Watch, especializado em retratações de artigos científicos, informou que Gilley já havia provocado outra controvérsia em 1995, como jornalista do Hong Kong Eastern Express, que fechou em 1996, com uma reportagem questionável sobre centros médicos chineses que vendem fetos abortados como suplementos dietéticos. “A história tornou-se mais importante em fóruns de internet que investigam lendas urbanas, como o Snopes.com“, afirmou Andrew P. Han (“Article defending colonialism draws rebuke, journal defends choice to publish”).

Finalizando sua nota, o editor-chefe do TWQ convidou universitários de todo o campo de estudo do desenvolvimento ou de áreas relacionadas a enviar “respostas sérias” ao ensaio de Gilley. O desafio está lançado.

Na imagem acima, soldados sikhs do Exército Indiano Britânico em destacamento na África. Foto: Sociedade Histórica e Científica do Malawi/Wikimedia Commons.

Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. E conteúdo exclusivo e de alta qualidade exige competência e também investimento para ser produzido. Conheça o compromisso de Direto da Ciência com essa perspectiva de trabalho jornalístico e com seus leitores. (Clique aqui para saber mais e apoiar.)


Receba avisos de posts de Direto da Ciência.

Informe seu e-mail para receber avisos. Ele não será fornecido a terceiros.

Para sua segurança, você receberá uma mensagem de confirmação. Ao abri-la, basta clicar em Confirmar, e sua inscrição já estará concluída. Você sempre poderá, se quiser, cancelar o recebimento dos avisos.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

3 Comentários

  1. Pedro Augusto de Américo Brasiliense said:

    Sob o argumento de que “é necessário ser provocativo” e “promover o debate” mina-se a ciência. Como demonstra as postagens no facebook dos pesquisadores que se demitiram do conselho editorial, isso já justificaria a demissão do editor chefe. Mas esse deve ser o “dono” da revista, como acontece muitas vezes.
    Os mesmos argumentos de “ser provocativo” e “promover o debate” é adotado por terraplanistas, criacionistas, defensores do design inteligente, daqueles que questionam os efeitos das ações humanas sobre o clima, etc. Ao se abandonar os preceitos fundamentais de rigor científico, os cientistas estão deliberadamente “jogando contra” a própria ciência. É nisso o que o editor-chefe da revista deveria pensar, ao considerar a negativa da revisão por pares, e decidir ele próprio publicar o artigo. Uma atitude sem qualquer traço de profissionalismo e erudição acadêmica.

  2. Pingback: C&T 175 – Jornal Pensar a Educação em Pauta

  3. Nagib Nassar said:

    Sim Mauricio obrigado por sua sensibilidade a questões tanto humanas como politicas, todos assuntols vce manego pela habilidade de um cientista especializado mais do que um jornalista – veja em varias referencias em apoio ao seu ponto de vista sobre ugly face of colonialism
    (Impact of Colonialism on African Societies.:In Colonialism in Africa
    An Encyclopedia for Students, 2002
    From World History in Context )
    Colonial governments brought roads, railroads, ports, new technology, and other benefits to Africa. However, their policies also damaged traditional economies and dramatically changed patterns of land ownership and labor. Although the colonial system provided opportunities—such as education, jobs, and new markets for goods—for some Africans, it left many people poor and landless. In addition, the emphasis on cash crops raised for export made African societies dependent on foreign nations. Little was done to develop trade between colonies. As a result, many African nations still trade more with overseas countries than with neighboring states.
    Mais veja tambem
    The Colonization of Africa
    Ehiedu E. G. Iweriebor – Hunter College
    Between the 1870s and 1900, Africa faced European imperialist aggression, diplomatic pressures, military invasions, and eventual conquest and colonization. At the same time, African societies put up various forms of resistance against the attempt to colonize their countries and impose foreign domination. By the early twentieth century, however, much of Africa, except Ethiopia and Liberia, had been colonized by European powers.
    The European imperialist push into Africa was motivated by three main factors, economic, political, and social. It developed in the nineteenth century following the collapse of the profitability of the slave trade, its abolition and suppression, as well as the expansion of the European capitalist Industrial Revolution. The imperatives of capitalist industrialization—including the demand for assured sources of raw materials, the search for guaranteed markets and profitable investment outlets—spurred the European scramble and the partition and eventual conquest of Africa. Thus the primary motivation for European intrusion was economic.

Comentários encerrados.

Top